sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

INCÔMODO



Foi uma festa quando da sua chegada. A senhora, que por ela tanto esperara, a recebera com um largo sorriso e brilho nos olhos. As crianças logo se ocuparam dela. Por volta de 6 da tarde, o homem que tornara possível tão auspicioso acontecimento fora recebido com beijos e abraços. Não estivesse a fanfarra da escola de férias, lá estaria também para agradecê-lo e homenageá-lo. A pipoca e o refrigerante, entretanto, não faltaram. Nem a visita nem sempre bem vinda de alguns vizinhos. Todos queriam vê-la. E era de fato bonita.
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Assim, passou ao convívio diário da família. Presente em todos os acontecimentos. Bons e ruins. Sobre ela, lágrimas foram derramadas, segredos revelados. Participou como testemunha das inúmeras conversações, muitas delas, que alcançavam altas horas da madrugada, e ultrapassava o limite do tolerável para aquela boa família que tão bem a acolhera.
O tempo, entretanto, avassalador e impiedoso, traz muito além das intimidades e do comprometimento, traz a realidade, das coisas que se depauperam, das pessoas que se revelam e que se diminuem e que, pouco a pouco, se acabam derrotadas por suas más escolhas, vícios e erros.
Anos depois, ao cair da noite, presenciou impassível, sem nada que pudesse fazer o último adeus à senhora que tão bem a recebera naquela casa. Fora-se a bondosa dama com seu sorriso largo e o brilho nos olhos, para nunca mais voltar.
Foram-se todos. Cada um em dado momento, até que naquela casa, apenas ficasse o homem responsável por sua vinda. Mas ele já quase não se ocupava da sua presença. Já não compartilhava o trabalho, a leitura, as refeições. Isolara-se dominado sem esboçar nenhuma resistência por injustificáveis medos e aflições. E não demorou até que ele também fora embora daquela casa para sempre.
Então, a vida à sua volta desapareceu, e se fez silêncio. Permanecera completamente só naquela casa enorme, que cheirava ausência, poeira, a sujeira acumulando-se por toda parte.
Certa manhã, surgiram pessoas estranhas. E a levaram. Puseram-na em um caminhão, entre outras coisas, mobiliários, ferramentas, tábuas, cordas. E a deixaram numa outra casa, inabitada. Igualmente enorme, suja, deteriorada e sem vida.
Ali permaneceu isoladamente, sem merecer a atenção da voz e do olhar humano. Num canto qualquer ficara. Merecedora tão somente da presença do brilho do sol de cada manhã a cobrir-lhe com um aspecto fugaz de vida, até que a sombra da tarde depusesse suas esperanças.
Fora assim os seus dias, os piores, inimagináveis dias. Foi se deteriorando pouco a pouco, perdendo-se na sujeira e no desprezo. Perdendo a força, a elegância, a utilidade, desfazendo-se. Nem um resquício da admiração e da inveja que um dia despertara nas pessoas. Nada lhe restara, senão sua tola e inútil presença.
Tempos depois, estava na rua. Fora colocada na calçada, ao lado dos escombros de um muro esburacado que revelava um terreno baldio, cujo mato havia crescido muito naqueles últimos dias devido à forte chuva. Passavam as pessoas por ali sem notar sua presença. E quando o faziam, era para criticar, dirigir-lhe aquele olhar de desprezo, de abandono, e por vezes, raiva.
Numa noite qualquer uma boa alma a levara dentro de uma Kombi. Melhorara a sua aparência o tanto quanto possível, dispensando-lhe todo cuidado que há muito não era merecedora.
Arrumara-lhe um lugar todo especial na sua nova casa, pequena, simples, mas bem arranjada e limpa: a cozinha. Voltara então a ter utilidade, apesar das deformidades irreparáveis, efeito do tempo. Tornara-se de algum modo cúmplice do suor e da inspiração daquele escritor, que finalmente, depois de muito tempo e longa procura, encontrara o espaço ideal onde pudesse escrever sem sentir dores terríveis na coluna. O único problema, vez em quando, eram as cinzas do cigarro. Mas, lei da vida, todo benefício exige um esforço. Mesmo para uma mesa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

VÍCIOS DESTRÓEM



O álcool e as drogas dominam e arrasam os que ousam enfrentá-los. Isso é público e notório. A linha que separa o efeito estimulante e criativo do álcool e das drogas da desgraça humana é imperceptível até mesmo àqueles que se consideram ou são considerados fortes, sábios e capazes. Portanto, é um limite perigosíssimo, que deve ser evitado. Numa analogia bastante simples, mas, nem por isso, desprovida de verdade, ultrapassar essa linha seria como comer do fruto da árvore do conhecimento.
Ontem, voltando do supermercado, por volta de 6 da tarde, vi uma mulher subindo a Avenida 4 em direção ao centro. Estava nua, da cintura para cima. Seus seios caídos, à mostra. Anos atrás eu a conheci. Seu nome é S. e não sei precisar a sua idade, mas, talvez, se equivalha a minha, embora ela pareça contar bem mais primaveras do que eu.  Escrevia uns bons versos, como pude constatar no Gabinete de Leitura, certa ocasião. Depois, eu a vi outras vezes, entre a população de miseráveis que se abandonaram a si mesmos, residentes no Jardim Público.
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O que leva as pessoas a se sujeitarem deliberadamente às nefastas e destruidoras consequências dos vícios do álcool e das drogas?  Muitos já se fizeram essa pergunta. Muitas respostas foram apresentadas. Mas receio que cada caso difere do outro. Cada um sabe o peso da cruz que carrega.
Grandes inteligências, pessoas amáveis, admiráveis, sucumbem aos vícios.  Eu mesmo poderia ter enveredado por esse caminho trágico, sem volta, tivesse minha família mantida as condições financeiras e sociais favoráveis de que dispunha até o início da minha adolescência. Mas, a vida, generosa, tirou de meu caminho a porta larga.
L. é outra história que conheço melhor porque mais próxima de mim. Mais doída, portanto. E da qual inclusive, me sinto, em parte, responsável. L. foi mãe aos 16 anos, sem nenhum preparo para isso. Foi esposa até os 19, esforçando-se o quanto pode para ao menos manter as aparências. L. enterrou uma segunda filha de 4 meses de idade, para a qual dedicou toda sua força, fé, amor e tudo o que em si havia de bom. E, a partir daí, sua vida desmoronou. Porque a angústia que a ausência desta filha lhe causava a fez ir de encontro às suas fraquezas, más tendências, às quais, igualmente sucumbiu.
Hoje, L. tem 36 anos. A última vez que a vi foi no restaurante popular. Falava alto, quase gritando. Sua aparência em nada lembrava a menina bonita, sensual, agradável, bem humorada que conheci.
Eu me recuso a acreditar que, seja neste ou no outro plano da vida, alguém peça para sofrer. Isso me parece masoquismo. A felicidade é uma busca comum a todo ser humano. É uma necessidade para a sua própria existência. E quando não a alcança, quando não a conhece, mesmo que a encontre presente nas vidas alheias, a pessoa que não é feliz, beira à descrença, se lhe falta um maior entendimento do sentido da vida. E da descrença, surge a revolta e a indiferença para consigo mesma e o mundo à sua volta. Origina-se, então, a sua tragédia, que ela acaba conhecendo através dos vícios do álcool e das drogas. Vencê-los é possível. Mas demanda tempo e esforços tremendos. Melhor não enfrentá-los.

FILÓSOFO BAUMAN DEIXA IMPORTANTE LEGADO



A riqueza de poucos beneficia a todos nós? Esta talvez tenha sido uma das mais impertinentes questões lançadas por um filósofo nas últimas décadas. Num lance de ousadia e provocação ainda maiores caberiam duas respostas. A primeira delas é sim, afinal, da riqueza restrita a poucos resultariam melhores e mais duradouros benefícios para todos. E a segunda é não, na medida em que seria muito mais fácil que todos tivessem o suficiente para se sentirem satisfeitos e a ninguém seria dado a oportunidade ou o privilégio de se sentir mais e melhor que o seu semelhante. Qualquer das situações propostas, porém, demandaria uma sociedade moralmente avançada, o que se parece uma realidade um tanto distante.
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O autor da pergunta impertinente faleceu no último dia 9, aos 91 anos de idade. Seu nome: Zygmunt Bauman. Polonês, filósofo, professor universitário, autor de dezenas de livros, Bauman elaborou a teoria da Modernidade Líquida, segundo a qual, tudo o que consistente se dilui, assim, os acordos estabelecidos na sociedade humana seriam, segundo ele, temporários e com prazo de validade.
Bauman abdicou de uma linguagem hermética característica da maioria dos filósofos para tratar de temas profundos do interesse humano de um modo ao alcance de todos. Por isso, foi considerado superficial por alguns críticos. Bauman também desconfiava que a riqueza de poucos beneficiasse a todos nós. No livro que trata sobre o assunto, ele aborda as atuais consequências do triunfante neoliberalismo na sociedade capitalista dos anos 80.
Em relação às redes sociais, entendia que a sociedade tornara-se hábil em eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, para transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever público.
Considerado um filósofo pessimista, para Bauman qualquer procura existencial e principalmente a busca da dignidade da autoestima e da felicidade, exigiria a mediação do mercado. Bauman refletia que numa sociedade de consumo a vida sem possibilidade de escolhas pareceria insuportável para os pobres.
Para o profeta da pós-modernidade, o armazenamento de tecnologias digitais, desobrigaria os indivíduos a cultivar qualquer tipo de memória. Um indivíduo sem memória, contudo, torna-se isento de responsabilidades morais.
O filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé afirma que Bauman será sempre uma referência essencial para entendermos a tragédia banal da modernidade.
Em tempos de “Amor Líquido” (título de um de seus livros), a morte de um filósofo como Bauman, embora alcance significativa repercussão nos meios intelectuais não gera comoção na sociedade, como por exemplo, a de um esportista famoso. Coerente, se pensarmos a importância quase nula destinada a filósofos, por uma sociedade com interesses voltados para o superficial, o banal, o transitório e onde predominam as frágeis relações humanas baseadas, sobretudo no ter em detrimento do ser.

69, DESTINO



Não vou à procura
Não sou Jesus!
Não busco por olhares de encontro ao meu
Nem de mãos que me reconheçam ao menor contato
Se tu me amas, então venha até mim
Se queres me falar, fale, eu te escuto
Não importa a distância possível entre nós
Tanto seja maior, menor será à minha vontade
Não é cansaço o que me impede
É decisão
Um modo de ver e de viver
Pessoas e coisas, e acontecimentos
Não vou à procura
Não espere isso de mim
Durante muito tempo eu o fiz
Mas feito águas do oceano
Acabei voltando
Voltando, às vezes com fúria, às vezes calmo
Voltando para mim mesmo
Único lugar em que apascento as minhas ovelhas
São tantas
E vejo em cada olhar,
E sinto em cada coração
Uma vontade de viver
Uma vontade de morrer
Que às vezes me confundo entre elas
Uma brisa, um final de tarde
Percorrendo a cidade esquecida
Onde os mortos não falam
Perambulam, e eu os vejo
Exalam o seu odor
A sua dor repugnante
Que, por vezes, me confundo entre eles
Não vou à procura
A vida, se existe, é como o livro quando bom
Termina onde começa
Insinua mas não realiza
Concebe e mata
Vê, sente, e não diz
Talvez porque não ache palavras
Ou não dependa delas
Não vou à procura
Não, não espere isso de mim
Se quiseres venha
E o receberei
Se ficar, todavia, irás se arrepender
O perfume da rosa colhida, ferida
Não dura um instante
Inebria, quando muito
Nada que o vento não leve
Talvez me leve
Fosse o vento, eu não ousaria
O mato está crescido nas encostas do muro
A grama nasce na calçada
Longe, uma voz anuncia
As horas que se aproximam
Da dor insaciável
Há de ser
A vida termina onde começa
E quando acontecer
Eu terei de novo o leste
Onde o sol nasce
Diante de mim