quinta-feira, 7 de setembro de 2017

AMORES DE MI VIDA



AMORES DE MI VIDA
Por Geraldo J. Costa Jr.
07/09/2017
Amo as pessoas que excedem
Amo os pecadores
Amo os impuros, os sedentos de amor, os incompreendidos
Amo o cair do pano, a nona hora, quando tudo termina
Amo os umbralinos, lugar melhor não há de se encontrar poesia
Amo os poetas e a poesia
A poesia cantada, musicada, declamada, a poesia
Amo os que se recusam, os que dizem não
Amo os que rasgam o véu da intolerância e da incompreensão
Amo os perdidos
Os que sem rumo vagueiam, são filhos de Deus, muito mais
Do que aqueles que se acham... Filhos... de Deus,
Amo a vela se apagando, o último suspiro
O derradeiro acorde, a letra final, o ponto final
Amo tudo o que é contra, tudo o que vai em sentido contrário
Amo a revolta, desconfio da humildade, travestida de hipocrisia
Amo a coragem, dos que se atiram à vida
Presente em cada momento, cada olhar, cada respiração
Cada não que se recebe daqueles que tem o poder
Efêmero, temporário, transitório, reles poder
Amo a página acabada, a página virada, a rima esquecida
A palavra em suspenso, a ideia contida
Que desce latrina abaixo
Toda vez que a inspiração se transforma em desilusão
Um copo, dois copos, decepção
Amo a vontade parida, na realidade dorida
Amo o amanhã que sempre chega e nada traz
Nada de novo, e de belo, nada.
Amo a Deus, mesmo sem saber o que é, seja lá o que for
Se tudo ele começou, saberá como terminar
Amo, amo sim, muito, quem se dispuser, depois de mim
Apagar a luz
Amo a independência, a mentira
Amo os livros que nunca leio, que tomo e não devolvo
As roupas esquecidas no armário, os calçados debaixo da cama, empoeirados
Amo o alimento estragado, repasto dos cães, perdidos na noite, já fui um deles
Eu sou um poeta, um escritor medíocre, mas verdadeiro, não esperem outra coisa de mim
Boa noite

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

ATÉ QUE SEJAMOS NÓS...



...A desaparecermos abaixo do cimento frio, a parede trincada do reboco fresco. A porta do túmulo que não fecha e aberta permanece, dia e noite. Manet, Degas, quem pintou o homem Lucien, deitado no divã; esparramado, cofiando o bigode, olhando de lado, ignorando a mulher comportada que se retira.
Pela manhã, os pés se arrastavam no asfalto molhado, obedecendo a cadência imposta pelos mais velhos; eles, ainda sobreviventes, esquecidos pela certeza iminente e libertadora, a megera dama insensível que vem, chega e domina. E leva.
Falaram sobre aquele que se foi – dizem que dormindo; não creio – e ele, quieto, olhos fechados, nem se mexeu.
Reprodução
Howl, Mr. Allen; vocifere seus insultos!
Que falta faz a sinceridade dos impuros.
Resta ler o caderno de cultura do jornal da vizinha, apanhado no corredor, a cada final de tarde.
Discordar, ceder, concordar, indispor, reter...
... Maquinações, exercícios de lucidez, para que ela não se perca, permaneça, porque uma vez ausente, senhora, e fará muita falta.
O mundo lá fora não admite os que extrapolam em sua conduta, expõem suas vísceras.
Nunca se leu tanto neste país. Sim! Ufanem-se! Leem-se mensagens de celular.
Onde chegará você? Ele?... Os demais... E todos os outros... Onde? Não, não acredite nisso. Os dias não eram assim. Que importa? Basta que seja o fim... que se aproxima.
Cai a cerração, uma nova manhã inicia. Vento gelado. Conhece esses dias? São eles que trazem as cenas já vistas incontáveis vezes. Choro contido, olhares perdidos, palavras vãs, preces pagãs, às escondidas.
Antes era pior, mais difícil. Havia mais gente. Mais lágrimas. Mais dor. Tudo era mais evidente, maior, contundente. Mostre os dentes, sorria. Sei o quanto é difícil num momento como esse, quando todos esperam o seu pranto, seu desespero, seu silêncio, rompido por uma lembrança repentina, que o convida a sentir-se e demonstrar-se feliz. Mas não é possível. Não há mais como esconder-se atrás de alguém, maior e mais forte.
Há poucas pessoas, o corredor está desimpedido, a sala quase desocupada. Flores, velas, não há.
Nos bancos, nos cantos, esse, aquele, aquele outro, os quais você não conhece, não sabe quem são. Embora, por vezes, eles o observam curiosos na expectativa de que você demonstre o que de fato, nesse instante, você sente. Achariam muito natural, até bonito, qualquer manifestação sua que não fugisse ao protocolo. Mas, não você. E eles sabem disso, ainda que prefiram ignorar, imaginar, pensar o contrário.
... Seja honesto, não tripudie. Você se vê fazendo isso? Dormir naquela gaveta de cimento, naquele túmulo aberto, sujo, fedido. Dormir ali dentro, no claro, quase totalmente claro, e no escuro. Dormir... para sempre.

domingo, 13 de agosto de 2017

SALA DE ESPERA



Já passamos por coisas piores. Portanto, não reclamemos e nem desanimemos por maior seja a nossa dificuldade. Não há nada pior do que passar nove meses dentro de um saco cheio de água, de cabeça para baixo, apertado, e ter de sair por um buraco onde, em condições normais, sequer passaria uma de nossas mãozinhas, não fosse uma força maior que a tudo provê chamada Natureza. Por isso, é óbvio que nasçamos chorando. Mas temos toda a vida para aprendermos a sorrir. – g.j.c.jr. – 13/8/2017



PARSIFAL



Já consegui o que queria
Já tenho o suficiente
Já tirei minhas conclusões
Já pus abaixo o que estava à minha frente
Já calei dentro de mim, as vozes que me perturbavam
Agora será do meu jeito
Tomo o cavalo
Risco a espora
E me vou
Levando o escudo e a espada
O manto cingido, sagrado, vermelho
Vou por caminhos desconhecidos
Sem saber o que nem onde encontrar
Nem mesmo quem
Embora isso pouco importe
Espírito livre sou
Não admito teorias
Não reconheço poder algum
Não bebo da sabedoria alheia
Não me alimento de esperanças outras
Ninguém me fala o que devo
E nem me mostra o que não devo
Não me ajoelho perante nada
Nem beijo a mão de ninguém
Não reconheço no outro resposta
Que me valha um minuto de atenção


Por que deveria se cegos são?
Tanto quanto eu e qualquer um
De tudo e por tudo o ponto final é o mesmo
A conclusão, uma
Por que me sujeitar?
Ninguém me toma minha liberdade
É nela e somente nela
Que vivo e permaneço
Seguindo em frente, sempre.
A espada perfura, transpassa, encontra o chão
Se isto é vitória, não me serve.