sexta-feira, 25 de maio de 2018

PAPAI, O JORNAL E EU


O Sr. Finnegans Wake tinha por hábito ler os jornais enquanto apreciava o saboroso chá da tarde na varanda de sua bela mansão.
Também leio jornais. Mas esse hábito saudável adquiri de meu pai, ele sim, um inveterado leitor daquilo que um dia alguém ousar chamar de hebdomadário. Quem terá sido o infeliz?
Nos idos de 1970, duas coisas jamais faltaram na área lá de casa: um Wolkswagen e os jornais: o Diário do Rio Claro (o jornal que tem nome e sobrenome) e o Estadão.
Com o Diário, papai acompanhava o noticiário local, que se completava ouvindo, todos nós, juntos à mesa, à hora do almoço, ao programa Show do Meio Dia, do seu colega, também contabilista, Sergio Carnavele.
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E é bom que se diga, ouvíamos, entre os bifes e as saladas de alface e tomate que a Dona Alzira, apresento-lhes a mamãe, caro leitor, preparava com amor e carinho.
E antes que você me pergunte, caro leitor, sobre o outro jornal, o Estadão, eu lhe respondo que através dele, papai tinha acesso a duas outras coisas que ele considerava indispensável, o suplemento literário, que saía aos domingos e os índices econômicos, porque papai naqueles dias, além das atividades contábeis, do time de futebol de garotos do bairro, e da sagrada tarefa de educar os filhos e ser um bom marido, também andava metido em criar frangos.
Tinha uma granja, para onde íamos aos finais de semana. Íamos, leia-se: mamãe e eu. E ficávamos pouco. Mamãe não era muito chegada aos aromas nada agradáveis, o leitor há de convir, que os frangos e as galinhas exalavam de seus orifícios.
Mas eu ia dizendo que adquiri de meu pai o hábito de ler jornais. E costumo fazê-lo logo pela manhã, bem cedo, tomando aquele delicioso café com adoçante, conforme recomenda a Dona Diabetes, não há de fato felicidade plena neste mundo.
Então, lá pelos meus 26 anos de idade, recém casado, resolvi arriscar uma promoção intelectual, passar de leitor a escritor. E para minha surpresa fiz minha estreia grandiosa neste mesmo jornal Diário na finada (Deus a tenha em bom lugar!) coluna “Escreve o Leitor”. Comentava, salvo engano, sobre a penosa situação do meu querido Rubro-Verde, também conhecido por Velo Clube.
Meu nome no jornal. Sabe, caro leitor, a gente, às vezes, se sente meio besta, um tanto orgulhoso quando vê o nosso nome no jornal, que não seja na sessão de protestos do cartório de notas.
Mas é algo passageiro, depois a gente se acostuma. Mas a primeira vez é impactante, é como um soco no fígado. Ainda, quando neste mesmo jornal, o papai, também nos idos dos anos 1970, se aventurava sob o pseudônimo de Medeiros da Costa, ou coisa que o valha, submeter suas poesias ao crivo da competente e rigorosa Dona Mara Jodate, que, habitualmente, recebia as colaborações com generosidade e as publicava, algumas.
O mesmo jornal Diário, proporcionou-me outra forte emoção, quando, fazendo pesquisas para um trabalho free lancer, no Arquivo Público e Histórico do Município, deparei-me com o anúncio de uma peça teatral da Cia. de Teatro Amador do Bairro da Saúde, e lá estava papai, integrando o elenco, no papel do Promotor de Justiça. Imaginei papai, com terno preto, cabelo e olhar à lá seu ídolo Humprey Bogart, atuando nos tribunais. Papai não era fácil. Onde se metia, saía-se bem. Dele herdei o nome, nada mal, e o hábito de ler jornais. De fato, não se pode ter tudo na vida.
Mas algo que nos dê prazer e algum ganho a vida sempre nos proporciona, porque sabe bem o leitor, Deus é pai de todos. Por exemplo, escrever artigos e crônicas como esta, para este jornal Diário, que, com grande satisfação, vê-se revigorado, forte e atuante, continuando sua gigantesca e tão importante missão de bem informar e ser o arquivo histórico da família rioclarense.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, à pág. 2, edição de 25/5/2018.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

SUBINDO AS ENCOSTAS

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Quando me faltam as palavras
Sinto-me como o barro,
Sem o sopro divino da criação
Moldado, formado, inerte, mudo, sem vida
Meus olhos parados permanecem
Como se petrificados estivessem
E minhas mãos à procura ficam
Embora endurecidas, impedidas,
Na sua vontade de mover-se
E fazer deslizar o lápis, uma valsa, um verso
Sobre o papel, à espera
Quando as palavras me faltam
Desfaz-se a razão, o nome, o desejo, o tudo
Fica o vazio por inteiro, imanente, o nada
O escuro, a cor oculta, sem brilho
E a dor pungente, contínua, não se revela
As palavras ausentes, aos poucos, me subtraem do viver
Roubam-me, sensatas, a razão de querer
Seguir subindo as encostas

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O MILAGRE DO AMOR


O milagre do amor levará embora a sua dor. Duvido que haja alguém neste mundo que ao menos por um instante não tenha acreditado nisto.
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Mas quando se chega a certa fase da vida, aquela em que se pesam prós e contras antes de se tomar alguma decisão, por mais insignificante que seja, chega-se também a duvidar se de fato o amor levará embora a nossa dor.
Se você tem a resposta, caro leitor, saiba que és um sortudo, porque eu não a tenho.
Não vou lhe dizer que um dia, lá pelos idos dos meus distantes 19 anos, o amor não tenha vindo em minha direção, como canta Annie Lennox, naquela que talvez seja a mais conhecida e cultuada canção de sua banda Eurythmics. Acontece com todo mundo ao menos uma vez na vida. Mas geralmente, queira Deus eu esteja errado, geralmente o amor vem e vai, e deixa uma dor.
É algo que incomoda, machuca, mas com o tempo a gente aprende a conviver. O tempo não cura feridas. Não as da alma. Mas torna as feridas menores e menos doloridas.
Mas o milagre do amor existe. Que outro poder sobrenatural faria o mundo viajar no espaço infinito a uma velocidade de 107 mil quilômetros por hora, sem que fossemos cuspidos para longe?
Que outra força descomunal faria um ser carregar outro dentro de si durante 9 meses e ser capaz de recebe-lo com afeto, ternura, carinho depois de fazê-lo a custa de muito esforço, sangue e sacrifício, conhecer o que é o mundo e a vida do lado de cá?
Não houvesse o milagre do amor, o que nos convenceria se sujeitar a uma rotina onde dedicamos o melhor de nós para coisas transitórias, superficiais e na maioria das vezes inúteis, mas que chamamos com orgulho de trabalho, compromisso, objetivos.
Se nossa meta neste mundo é aprendermos a amar, haja milagre, porque estamos bem longe do ideal.
Mas quando a gente se depara com o sorriso de uma criança, quando a gente acorda e encontra aquele olhar de satisfação da parte da pessoa com a qual dividimos a cama e nossas vidas, como se ela nos dissesse, que bom que você está aqui! Então, a gente se convence que o milagre do amor existe sim!

terça-feira, 1 de maio de 2018

REMENDANDO A VIDA


Seis horas da manhã, caro leitor. Bom dia. Acabo de recolher o jornal e ligar o micro-ondas, 1 minuto e 15 segundos, cronometrados no relógio digital. Detalhe: sem o leite que havia colocado na caneca do Palmeiras, que ganhei de minha filha no meu quadragésimo... aniversário. Depois dos 40, a gente entende melhor para que servem as reticências.
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Ligar o micro-ondas sem haver colocado o leite pra esquentar lá dentro. Você já deve ter feito isso às 6 da manhã, enquanto se prepara para o trabalho, em meio às preocupações e expectativas em relação àquele dia que apenas começa, diga que sim, caro leitor!
Pois bem, vamos aos fatos. Acordei com uma frase martelando minha mente. É o mal do qual padecem os escritores, essa da frase martelando a mente, insistindo ocupar espaço, tempo e importância indevidos, e que nos convença a pegar a caneta, o papel, a deixar a caneca de leite e o jornal, momentaneamente de lado, e escrever.
Você, leitor, quero crer, pertence à dileta classe das pessoas que enfrentam e são obrigadas por força das circunstâncias, a conviver com algum tipo de frustração?
Ok. Se você tem 20, 30 anos, ou coisa parecida, vá se acostumando com a ideia, bonitão, porque a vida é mesmo assim. Mas se você, já passou dos 40, prepare-se, pois a frustração é um fantasma que irá atormentá-lo todos os dias.
Você pode até exorcizá-lo, esse maldito fantasma, vez em quando, mas, ardiloso e teimoso, ele sempre encontrará meios e portas abertas em sua mente e em seu coração, para voltar a atormentá-lo.
Quando se é jovem, se pensa muito, se planeja outro tanto e se deseja o impossível. Depois dos 40, se continua a pensar muito, mas, em como remendar a vida.
Porque é o que gente faz, muitos de nós, depois do casamento, dos filhos, da carreira escolhida e que não era aquela, planejada e desejada, e pela qual se lutou tanto, não se sabe se de modo certo ou errado.
Mas, enfim, o que é que se sabe, de fato, nesta vida, antes que o plano traçado, o desejo e a expectativa se tornem realidade? E a realidade é como os filhos, nunca são realmente como a gente sonha, mas, enfim, são os filhos.
Quando se é jovem, a gente sabe, a gente quer, sabe onde e como conquistar o que deseja, mas aí, falta dinheiro, falta oportunidade, falta aquele amigo bem sucedido, capaz de nos abrir portas, uma que seja, mas cuja amizade, lá atrás, nos nossos jovens dias de ousadia e arrogância, a gente julgou nem valer a pena tanto assim, cultivar aquela amizade.
A gente casou com Maria, mas em verdade, amava Lucinha. Põe-se então, um remendo que se chama “o amor vem depois”, nesta situação aflitiva do coração – não é mesmo, Tony Buddenbrook? – ao qual, depois, se junta outro remendo chamado “família”. Este, o remendo supremo. Pessoas de bom caráter, boa índole, tudo fazem para obtê-lo e preservá-lo.
E quando se escreve família, se quer dizer respeito. Porque a família tem a capacidade única de nos trazer o de melhor e, nos dias atuais, infelizmente, o de pior, também.
Os filhos e os netos, pelos quais a gente, quando tem amor no coração, abdica de tudo, tudo mesmo: honra e dignidade, decência. Porque vê-los felizes, bem sucedidos, é um poderoso remendo que a vida nos propicia, para tamparmos a dor de nossas frustrações acalentadas há tanto tempo.
É assim que geralmente terminam as coisas, sem que a gente saiba, como era doce viver – como diz a canção.
E se aos 50, 60 anos você, estimado leitor, tardiamente descobrir sua vocação para costureiro, não se zangue, é sinal que você passou todos esses anos remendando a própria vida.

*Publicado na edição de 04/05/18, à pág. 2 do Jornal Diário do Rio Claro.

domingo, 29 de abril de 2018

O MAR VEM DEPOIS


O homem vivia nas pedras. E fazia um vento muito forte, cruel e persistente, naquele lugar incerto e desconhecido.
Nas pedras, o homem se banhava do sol e se abrigava da chuva. Era sua rotina.
A noite, que naquele período do ano, parecia longa e interminável para os seus olhos atentos e observadores, trazia um pouco de paz e esperança ao coração daquele homem.
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Não tinha lembranças. Ele as abandonara em algum momento, em algum lugar. Eram pesadas demais para arrastá-las no decorrer dos dias, no vagar das horas, na plenitude da sua existência solitária.
Era magro aquele homem. Cabelos já quase não os tinha. No rosto, cansado e triste, além das marcas impostas pelo tempo e pelas intempéries da natureza, uma barba muito rala, mal formada, indecente de tão feia.
As roupas que vestia eram rotas, puídas, remendadas. O homem andava descalço. Em princípio, queimara os pés, mas depois acostumara a pele ao atrito do chão e às agruras do clima rude, instável, que predominava naquela região. E também seus ossos e sua carne, sua dignidade e paciência, tudo se acostumara com o tempo à brutalidade daquele lugar que não escolhera para viver, mas onde permanecera diante da força impositiva das circunstâncias.
Sabia que depois das pedras havia o mar. Disseram-lhe que por ali passara o enviado. Mas isso agora já não tinha importância para aquele homem. Trinta e três anos, segundo suas contas imprecisas, que estava naquele lugar. No início dos acontecimentos, tivera vontade e esperança de que pudesse ser acolhido. Mas havia ficado para trás. Era sua única certeza. Havia se acostumado àquela vida, se assim podia defini-la e àquele lugar. Pelo menos ali, podia expor seu ódio e seu amor, sem pudor e sem receio. Podia dar forma e cor à sua verdade, pois era a única coisa que de fato importava. Sempre fora. E talvez por isso, havia sido deixado para trás.
Mas que isso lhe importava agora? Havia perdido a confiança nos homens e, o mundo, tal como o conhecera um dia, deixara de lhe interessar, se é que ainda existia o mundo, e que sobrevivera, não sabia, à passagem do enviado.
Por vezes, via de longe, alguns animais ou imaginava vê-los, não tinha plena certeza, vagando como ele, naquela região inóspita, hostil. E, por vezes, apenas os escutava, ao longe. Mas, noutras vezes, ainda, podia jurar que confundia o barulho do vento insano com o de algum animal.
Não. Não fazia diferença. Passava dias sem se alimentar. Que lhe importava tamanho sacrifício? Acostumara-se às dores e aos incômodos, do corpo e da alma. Com o tempo, naturalmente, desenvolvera uma capacidade de abstrair-se do ambiente à sua volta. Sua atenção e seu pensamento, como se ali não estivessem. E podia, por vezes, jurar que passava horas, dias, semanas, nesse estado em que uma sombra parecia encobri-lo completamente. E quando retornava à consciência era como se menos de um minuto houvesse transcorrido. Mas não. Isto, contudo, também não lhe importava absolutamente nada.
Então, certa feita, o dia foi escurecendo com vagar, lentamente, muito mais lentamente que em qualquer outra ocasião. Foi escurecendo o dia, foi perdendo brilho, vida, foi morrendo, aos poucos, o dia, e ele, também.
Mas quando o dia despertou estava no mesmo lugar, de novo, ele não.


VINTE ANOS MENOS


“É o começo do fim” – quando o pai lhe disse isso, estavam na sala, sentados, lado a lado, no velho sofá marrom de corvim, que, por sinal, precisava de uma reforma havia muito tempo. Naqueles idos de 1999, as pessoas ainda se ocupavam de reformar os móveis, tanto quanto possível, antes de abandoná-los definitivamente na calçada, onde ficariam tomando sol e chuva, até que algum carroceiro com alma cristã resolvesse levá-los embora ao custo de alguns trocados.
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Quando o pai, aos 69 anos, lhe dissera aquelas palavras, sua mente divagava nas preocupações diárias de um jovem recém-casado, e, portanto, não dera muita importância ao fato de que o pai estava doente.
O envelope com o exame, que o pai levara na consulta, estava sobre a mesinha de centro da sala, onde havia também um cinzeiro com  alguns tocos de cigarro, um pouco de cinzas e papéis de balas, o que indicava que o irmão mais velho estivera ali na ausência de ambos. E estivera mesmo, porque na pia da cozinha havia um copo americano, com um resto de café.
E Lucinha? Onde estivera na ausência de todos? Esta sim, era a pergunta que mais o inquietava. Porque, quanto à doença do pai, a medicina daria um jeito. Ou o destino faria prevalecer a vontade soberana da divindade. O pai era forte. Nem resfriado apanhava. Muito raramente.
Então, o chamado da secretaria da clínica o pegara desprevenido naquelas divagações?
Sr. Heraldo?
A mulher que estava ao seu lado o cutucou com insistência.
Só então ele se deu conta de que chegara a sua vez.
Os exames estavam sobre a mesa do médico que, pensativo, tinha os olhos voltados para eles.
“Pois então, doutor...?”
“Teremos uma batalha a enfrentar”.
Alguns meses depois, ele estava debruçado na janela do 3º. andar do hospital público onde operara com a garantia de que o procedimento havia sido coroado de êxito. Ah, esses médicos!
Tinha 49 anos, e estava a pensar nisso, quando se dera conta de que uma lufada de vento havia desmanchado a nuvem que até então, encobria a lua cheia, que, aos poucos, foi escapando do alcance dos seus olhos.
Dali sairia para casa e não para o bar. Era o seu plano.
Além de suas roupas, levaria um calhamaço de receitas, recomendações, solicitações de novos exames, para dali alguns meses e remédios.
Seria sua rotina, sempre soube que sua vez haveria de chegar. Só não imaginava que seria vinte anos antes do que pretendia. O pai era um forte. Ele não.
E com certa vergonha, teve de admitir isso, enquanto disfarçadamente, mas nem tanto, secava as lágrimas dos olhos.
Foi até o carro que o esperava em frente ao hospital, mas não encontrou ninguém para recebê-lo além do motorista.
Lucinha havia se perdido na vida, o irmão mais velho estava em local não sabido, e o pai, o havia deixado vinte anos antes, sem se despedir.



domingo, 22 de abril de 2018

O ESCURO DAS HORAS


Ardem meus ouvidos
É sinal que meu nome
Está à baila, na boca profunda dos homens puros
Que se ajoelham perante deus
E castigam os filhos e as mulheres
Entre quatro paredes, em silêncio, no escuro das horas
Ardem meus ouvidos
Queima minha garganta
Exala o veneno doce da maledicência
Da maldade reprimida, a doce maldade, ingênua, perigosa, necessária
Que salta num impulso para a realidade de formas, fatos e cores
Vira-se à mentira, dá-lhe as costas
Ignora os olhares em volta
Porque o mal é mais forte, é dono de si
E desconhece a lei dos homens
E abomina a lei de deus
Para a qual jamais se curvou, nem o fará
Ardem meus ouvidos
E cegam os meus olhos
Nesta ofensa sagrada de todas as manhãs, doce, ingênua, perigosa, necessária
Meu nome fede na boca dos homens puros, meus inimigos
De que vale meu nome, se não permanecerá
Que não seja numa lápide, inscrito com letras cuneiformes
Que o tempo, a poeira e o vento, haverão de apagar
Nem meu nome, nem eu, nem minha face, nada ficará
Porque tudo basta e se resume neste ciclo interminável
De começo, meio e fim
E é melhor que assim seja