domingo, 13 de agosto de 2017

SALA DE ESPERA



Já passamos por coisas piores. Portanto, não reclamemos e nem desanimemos por maior seja a nossa dificuldade. Não há nada pior do que passar nove meses dentro de um saco cheio de água, de cabeça para baixo, apertado, e ter de sair por um buraco onde, em condições normais, sequer passaria uma de nossas mãozinhas, não fosse uma força maior que a tudo provê chamada Natureza. Por isso, é óbvio que nasçamos chorando. Mas temos toda a vida para aprendermos a sorrir. – g.j.c.jr. – 13/8/2017



PARSIFAL



Já consegui o que queria
Já tenho o suficiente
Já tirei minhas conclusões
Já pus abaixo o que estava à minha frente
Já calei dentro de mim, as vozes que me perturbavam
Agora será do meu jeito
Tomo o cavalo
Risco a espora
E me vou
Levando o escudo e a espada
O manto cingido, sagrado, vermelho
Vou por caminhos desconhecidos
Sem saber o que nem onde encontrar
Nem mesmo quem
Embora isso pouco importe
Espírito livre sou
Não admito teorias
Não reconheço poder algum
Não bebo da sabedoria alheia
Não me alimento de esperanças outras
Ninguém me fala o que devo
E nem me mostra o que não devo
Não me ajoelho perante nada
Nem beijo a mão de ninguém
Não reconheço no outro resposta
Que me valha um minuto de atenção


Por que deveria se cegos são?
Tanto quanto eu e qualquer um
De tudo e por tudo o ponto final é o mesmo
A conclusão, uma
Por que me sujeitar?
Ninguém me toma minha liberdade
É nela e somente nela
Que vivo e permaneço
Seguindo em frente, sempre.
A espada perfura, transpassa, encontra o chão
Se isto é vitória, não me serve.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

VEIA ROMPIDA



O sol desponta ultrapassando o limite da montanha
Mais um dia
Os olhos vão se abrindo aos poucos
Aos poucos a respiração vai sendo sentida
Aos poucos as lembranças retornam
Uma vontade de levantar hesitante
Do chão frio, imundo, esburacado
Levantar o corpo visitado, durante a noite
Baratas, moscas, pernilongos
Vieram e não foram vistos
Fizeram e se foram
E não foram os únicos
Os olhos vão se abrindo aos poucos
E evitam o sol
Esquecidos, talvez
Que, em desespero, o desejaram
Durante doze horas
Doze longas horas
Intermináveis horas
Sufocantes
Horas que perturbam
Incomodam
Já não servem de esconderijo
Os olhos aos poucos vão se abrindo
E se recusam a perceber, indecisos
Que o sol desponta ultrapassando o limite da montanha
A face branca da montanha, o seu perfil incerto, confuso
A silhueta mal definida
As doze horas que perturbam
Insultam
E desafiam
E já não servem de pretexto
Nem para o rancor, nem para o temor,
Nem para a dor, nem para o ódio
Doze horas escuras, o sol deitado, ainda, atrás da montanha
Por que não desperta?
Enquanto algo bate forte, por dentro, insistente
É teimoso, se recusa a deitar, desistir
Permanece, batendo, endurece
Enquanto o que havia
Em forma de palavras, olhares, certezas, já se foi
Já vai muito longe,
Partiu em silêncio, deixando rastros
Que agora já não servem como guia, direção, não são vistos
O sol está no alto, a montanha está longe
Sua face branca derrete-se no infinito
Outros chegam, mudos, cabisbaixos, encolhidos
Para ocupar o espaço, o vazio deixado
Eles vêm da montanha
Agora tomada pela penumbra
Doze horas, dores horas que não cessam
Não rompem o silêncio, nem o vento
Não trazem palavra, nem um sorriso
Nem um abraço, nem um olhar
Doze horas, o mesmo fundo, o mesmo cenário
Parado, triste, imutável
Não há movimento, nem lágrima, nem chuva
O que há?
A espera