quinta-feira, 30 de abril de 2009

PASSE A MANTEIGA NO PÃO

Aos 20 anos, acreditem, colocar uma folha em branco na máquina de escrever portátil era para mim motivo de prazer. Aos 40 anos, relutei pelo menos duas vezes até ligar este maldito computador.
Percebo que ainda sequer levantei uma parede da enorme construção que pretendi realizar neste mundo. E o alicerce que fiz, mal acabado, diga-se de passagem, vai aos poucos desaparecendo diante de meus olhos pelo vento e pelo tempo, que o cobrem com as areias da minha descrença.
Lembro ter escrito algum dia em algum lugar que um homem só está morto quando já não há esperança no seu coração.
Então devo admitir que estou morto. Meus familiares e amigos já podem providenciar as exéquias.
Familiares. Amigos. Esses assuntos renderiam muitos parênteses, reticências e explicações. Não é o caso.
O que quero dizer com tudo isso é que finalmente estou convencido de que mesmo se eu tivesse todo o dinheiro do mundo eu não me sentiria feliz. O vazio, que me impulsiona adiante, mas também na direção do abismo, estaria do mesmo modo dentro de mim. O vazio que me permite perceber o mundo a minha volta, e retratá-lo com palavras. Porque, eu já disse outras vezes, escrever é como pintar: às vezes sai um Goya, outras, sai um Rembrandt. Ultimamente, nem um nem outro, nem outro qualquer. Porque nada tenho escrito. Porque sou um bom escritor. Porque o bom escritor é aquele que realiza sua obra na solitude. Só ele conhece o seu caminho e onde o levará. Sabe como se sentar à mesa com seus demônios e ouvir os seus anjos ao anoitecer.
E que importância tudo isso tem? Fosse eu publicado como gostaria, e desse às pessoas a atenção que elas merecem, se ao menos eu olhasse nos olhos delas quando, com elas, conversasse. Mas nem a isso eu me disponho. Nem a incômoda e hipócrita modéstia da receptividade nem ao prazer efêmero que o desprezo ao semelhante me concede. Nada.
E por quê? Eis a pergunta fatal. Eis o que disse o anjo ambicioso e insatisfeito quando se deparou com o Paraíso. Vá Razão, diga-me logo que, se ele possuía tais virtudes não era anjo.
Kardec sugere que a felicidade do homem não depende dos bens que ele possua. 1 x 0 Monsieur Rivail. Até o final destas linhas já terás ganhado o jogo de goleada.
Todos nós temos sonhos e objetivos. Mas quando estes se tornam conquistas e estas, inserem-se no nosso cotidiano, perdem, aos poucos, o seu valor. Porque o homem se adapta ao meio em que vive. Durante muito tempo sonha-se, por exemplo, em publicar um livro. Trabalha-se naqueles originais arduamente, e uma vez percorrido todo o longo e quase sempre incerto caminho até que o livro seja publicado, vem àquela inenarrável satisfação, e depois esta se acomoda, perde a sua intensidade, torna-se parte do nosso cotidiano, da nossa realidade, até que chega o dia em que se acorda pela manhã e já não se lembra de ter sido o autor daquele livro. O mesmo se dá com o diploma universitário, o emprego, o marido ou a esposa, os filhos, a casa, o carro, a viagem, enfim, tudo aquilo pelo qual sonhamos e lutamos para conquistar. Porém, no silêncio em que o espírito se recolhe, sempre que possível, descortina-se para ele a realidade. Desnuda-se o ser individual que inevitavelmente se pergunta: estou bem, sou feliz, tenho paz? E qual a resposta? A minha, é que até hoje, jamais soube o que é isso. E você?