segunda-feira, 18 de maio de 2009

EXISTÊNCIA, O QUE ISSO IMPORTA?

Para o sábio chinês Lao Tsé (1324-1408 a.C), forte é quem vence suas más inclinações. Não foi o caso de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division. Ele escolheu a morte aos 23 anos. Não pôde resistir à epilepsia, um casamento fracassado, as conseqüências de um adultério, a responsabilidade de ser pai, sem se sentir preparado para tanto, e à dúvida entre decidir-se pela incerta carreira solo ou continuar à frente da banda até que esta fosse consumida pela mesmice e o tempo, devido à superexposição. Chega-se facilmente a estas conclusões ao assistir a Control, filme do diretor holandês Anton Corbijn, que retrata a breve existência e meteórica carreira de Ian Curtis e sua banda, cujo nome, fora inspirado na área dos campos de extermínio onde as prisioneiras judias eram oferecidas sexualmente aos oficiais nazistas.
Em 2007, o filme recebeu o prêmio “Câmera de Ouro” do Festival de Cannes, o mesmo que, em 2009, premiou a atriz brasileira Sandra Corveloni por seu trabalho em Linha de Passe de Walter Salles e Daniela Thomas.
Control é baseado nas memórias de Deborah Curtis, viúva de Ian. O diretor Corbijn havia trabalhado com a banda, no final dos anos 70, mas, na condição de fotógrafo.
Os clipes da banda, disponíveis na Internet e o filme em questão desestimulam aos que pretendem acreditar que Curtis era um sujeito normal, embora misterioso. A angústia pela qual se via envolvido refletia-se nas letras de suas músicas, como se percebe no trecho de “Heart and Soul” que dá título a este artigo.
Conta-se que, antes de se juntar a Peter Hook, Bernard Summer e Stephen Morris e formar a mítica Joy Division, Curtis era um sujeito calado que, vestia uma jaqueta onde se lia nas costas a palavra Rage (Ódio) e perambulava pelas ruas da cinza e depressiva cidade de Manchester, para assistir aos shows de bandas como Velvet Underground, Buzzcocks e Sex Pistols.
A geração de Curtis cresceu fortemente influenciada pelo movimento punk, surgido na Inglaterra, em meados dos anos 70, e que, no âmbito da música, leia-se rocknroll, estimulava qualquer garoto insatisfeito e metido à poeta a revolucionar a música e talvez a sociedade utilizando três acordes e boa dose de atitude. Vivesse hoje e possivelmente Curtis escrevesse livros como os de Nick Hornby. Mas o compromisso de Curtis era com a verdade, a sua verdade, a exemplo de Jim Morrison (The Doors), mesmo que para isso ele tivesse de ultrapassar os limites da razão. Para uma pessoa que pensa dessa forma, a morte não significa absolutamente nada, tão pouco a vida.
Filmes como Control, embora seja uma biografia ficcional, são bastante oportunos para lembrar as pessoas comuns que os seres humanos vêem antes dos ídolos, embora sejam a mesma pessoa. O trabalho de Ian Curtis e sua banda ganharam as páginas da história com louvor. O homem Ian Curtis, como tantos outros que se atiram aos braços do nada esperando alcançar resposta para a vida, merece ser analisado e compreendido.
A propósito, Lao Tsé, também foi aquele que disse: “Eterno é quem supera a própria sorte”. Curtis não o deixa mentir. Como artista. Apenas.
(Artigo publicado no Jornal Cidade de Rio Claro, em 12/06/2008)

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