sábado, 13 de junho de 2009

SR. ROBIN HOOD


Não sei o que dirão os outros e sinceramente não me interessa. Mas ele era meu amigo. Fez parte da melhor fase de minha vida. Nós nos conhecíamos desde os 4 anos de idade, quando, quase simultaneamente nos mudamos com nossos familiares para a mesma rua, ou melhor avenida.
Ele era um sujeito inteligente, mas tinha outras duas virtudes, por vezes mal compreendidas, a audácia e a ambição. Descobria antes de nós todos, seus amigos, as coisas que logo se tornariam importantes, porque era sempre bem informado. Conversava em pé de igualdade com os adultos, e até de minha irmã conquistara simpatia, o que pode ser considerado um feito brilhante. Eu freqüentava a sua casa, a casa de seus pais, e ele a minha. Aos finais de semana, íamos para a chácara de seus pais onde nadávamos, jogávamos baralho, assistíamos à televisão, e comíamos e bebíamos e nos divertíamos. Sempre passeávamos juntos, no parque de diversões, no circo, nas viagens à Piracicaba, quando seus pais iam fazer compras no extinto Jumbo Eletro. O pai dele era um ás do volante. Todo final de semana havia um passeio, e eu era sempre convidado. De modo que ele, eu e seu irmão mais novo, formávamos um trio inseparável. Sempre me chamara a atenção o modo descolado como ele tratava seus avós paternos, Vó Coroca, Vô Arbino, enfim, eu não tinha essas intimidades com minha única avó que cheguei a conhecer.
Depois que meu pai vendeu o sítio e a granja eu só fui cavalgar quando ele me convidou pra conhecer um sítio de um parente seu.
Jogar futebol não era com ele, embora fosse esforçado, e só. Mas fora ele, dentre tantos garotos frustrados desta cidade que conseguiu tirar uma foto ao lado do Dr. Sócrates, quando o Corinthians veio jogar com o Velo Clube, em 1979, pela Divisão Especial. Advinha, por sinal, quem teve a idéia de ir a Campinas, meses antes, e fazer bandeiras, e comprar camiseta pra torcer pelo Velão? E quem atirou para o alto um sorvete de massa que foi cair justamente em cima do prefeito da época quando o Rubro-Verde marcou o terceiro gol.
A outra virtude dele era a generosidade. Algo que muitos por aí, tidos como santos, não possuem.
Ele sempre procurava chegar primeiro, ser o primeiro, em tudo, mas egoísta, jamais fora.
Pois é. Aí passa o tempo, e já adolescentes, quase simultaneamente, também nos mudamos daquela avenida que de tanta saudade faz remoer o coração. E nossas vidas tomaram rumos diferentes, e nossa convivência deixou de existir. Pena.
Ele começou no mundo dos negócios criando e vendendo cavalos, e é tudo o que sei. Algumas vezes ainda encontro com seu irmão mais novo, também meu amigo, e fora quando soube algo sobre ele.
Certa feita, através desse seu irmão, convidou-me para ir trabalhar consigo, mas em Curitiba/PR. Disse-me que precisava de alguém de sua confiança. E não pude ir. E sempre me arrependi disso.
Ele pilotava avião e helicóptero. Falava inglês e espanhol, e se bobear até chinês Conhecera o mundo. Fizera, conforme dizem fortuna. E creio sinceramente que fez e teve tudo o que queria.
Agora, aos 42 anos termina os seus dias de maneira trágica. O que pode ser difícil de aceitar, mas fácil de entender. Em se tratando dele tudo devia ser grandioso, do tamanho de sua audácia e ambição.
Para mim ficam as lembranças, e um carinho todo especial, por alguém que fez parte da melhor época de minha vida.
Pode partir em paz Clévio, meu amigo, e esqueça aqueles que o acusam, porque eles não conhecem a sua história desde o início. Muito embora, se o conheço, e acredito que sim, você nunca deu a mínima pra eles.

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