sexta-feira, 10 de julho de 2009

O CHÁZINHO DA VOVÓ

Aviso que escrevo estas linhas, sentado na cadeira giratória que ganhei da minha irmã. Estou com os pés na parede já bastante suja, porque ali eu meto os pés todos os dias para escrever. E não devo por ora, enquanto escrevo me preocupar com as vírgulas, as pontuações e possíveis redundâncias. Porque agora eu escrevo. E se mais alguém sabe o significado disso, então há de compreender-me.
Escrevo ouvindo “Gabriel’s Oboe”. Deveriam ouvir. Seria melhor, eu lhes garanto do que perder o precioso tempo que não possuem lendo estas linhas.
Minha filha, dia desses, perguntou-me porque ainda não tenho nenhum livro publicado. E eu lhe respondi que é porque não tenho dinheiro. Porque se tivesse então a humanidade teria algo mais do que reclamar. Por exemplo: “Sob o Manto da Noite; As reconstruções de Tomaz”, “Além daquelas árvores”, “Cerimônia”, “As Páginas Primeiras”, “Sessão da Tarde”, “Bloco de Notas”, “Cinzas ao Vento”, “Conteúdo Zero”, “Caixa de Ferramentas”. Os meus livros. São meus. Por enquanto. Porque são todos inéditos. Ninguém os conhece. E que diferença isso faz? Nenhuma. É sempre preferível ouvir “Gabriel’s Oboe” a ler qualquer livro. Qualquer um mesmo. Inclusive, os meus. Deixem os meus livros quietos. Talvez o silêncio lhe seja o destino. E daí se for? Não irá fazer nenhuma diferença. Que algo mais inútil do que um texto? Quem o escreve, certamente.
Todas as vezes que acordo, todos os dias e há 40 anos, me olho no espelho e percebo que o olhar é o mesmo. Então, olho em meu redor, e sinto a mesma sensação de vazio, abandono e solidão. Abro a janela e encontro o sol. O bem-te-vi na fiação do poste me avisa que já chegou. A brisa da manhã perpassa o meu rosto. O frio do assoalho penetra nos meus pés descalços, sobe pelo meu corpo, e quando se depara com aquele frio intenso que existe no meu coração, sente-se diminuído, desaparece. Prevalece o frio que vem do coração. Do meu.
Já disseram muitas coisas a meu respeito. E continuam a dizê-lo. Que digam. Nada me representa. Não faz diferença. Só porque eu escrevo, e bem? Que diferença faz? Como somos inúteis, nós, os escritores! Vendemos a alma ao Diabo, apenas pra sermos lidos. E daí? Uma página lida é uma página fechada e uma página esquecida no instante seguinte. E o que é que modifica? Na minha vida. E na vida de quem a lê.
Mas afinal, porque é que a vida, a minha e a dos outros, precisa ser modificada? Apenas por que pensamos? Daí é que surge a insatisfação? Como disse Schopenhauer: “Toda necessidade traz consigo a dor”. A minha dor é escrever. É o meu câncer. Que pouco a pouco consome a minha carne e lixa os meus ossos, devasta a minha mente e dilui em fel a minha dignidade. Porque a minha fé – se a tive algum dia – já levou embora, faz tempo.
Agora entendem finalmente porque muitos de nós rodam o tambor e metem uma bala na cabeça, e se atiram no rio gelado sem saber nadar, põem um laço apertado em volta do pescoço. Ou se entopem de remédios e líquidos e substâncias preciosas. É por que... Anotem nos seus caderninhos: Nada faz sentido.
Somos todos doentes da alma. É o que somos. E imaginamos que as palavras sejam o nosso remédio. Mas não é. É apenas o cházinho de camomila da vovó cujo único indicativo é curar a dor de barriguinha do nenê.
Pronto. Agora podem me xingar. Terminei.

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