sexta-feira, 28 de agosto de 2009

NADA TEM A VER COM NADA


Como se faz pra chegar? Atravessa-se a ponte, navega-se até a outra margem do rio, em frente, segue-se sempre, pelo acostamento, sob a mira do sol que se deita no horizonte... Onde?

Como se faz pra esquecer? Não se deixa rascunho, as aparas do lápis, o cesto do lixo, cheio, do pecado que transborda, e da razão que transgride... Por quê?

Como se faz pra tirar? A lauda da máquina que resisti ao rancor da estúpida mão que não sabe escrever.

Eu fumo Hilton. E você?

Como se faz pra convencer? O wermouth esperar até que a próxima linha chegue em meio às nuvens de um hábito que já foi prazer.

Como se faz? Você que escreve me diz como se faz? Pra que os olhos não fiquem vermelhos às 3 da manhã e, ao meio-dia a eu permaneça acordado... Esperando a noite que demora a vir.

Eu uso All Stars. E você?

Os meus pés estão doendo. E minhas mãos tremem. Que remédio irei tomar?

Como se faz...? Como se faz? Pra sair daqui...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

BRINCANDO COM BRINQUEDOS


E qual história o destino escolherá para ser contada? O que fará a diferença em favor deste ou daquele? Por que um será o primeiro? E os demais serão os outros, serão números, estatísticas, prêmios de consolação, de participação. Prêmios. Ele não queria ser honra ao mérito. Queria o lugar mais alto do pódio. O retrato exclusivo da festa, só seu. Para quê outros? Frases feitas! Ok. Ditas desde o princípio, por aqueles que hoje jazem em úmidas sepulturas esquecidas sob árvores frondosas que, ao final de tarde, recebem halos de luz vindos do soberano firmamento. Difícil construção, não é? Claro, ele não deixaria por menos. Era mesmo um autor difícil que escrevia frases curtas, objetivas, rasas e profundas. Largas.

Estava à procura de uma história pra contar, como aquela do Verão que se despede...

Aos poucos, porque diferente não poderia ser. Não poderia ser diferente. Qual a diferença? Faltam cinco linhas pra terminar essa história. Frases curtas. Parágrafos breves. A primeira frase, a mais verdadeira possível.

Tempo. Lutadores em seus corners. Tempo pra acender um cigarro e a abrir a lata de cerveja. Era mesmo um idiota. Estava à procura dos laços e entrelaços de personagens que desconhecia, do fio condutor, o fio da meada, da trama, da história que pretendia contar, de um Verão que se despede, quando já não precisava disso. Porque achara uma das cartas que Bukowski deixara cair nas ruas. E lera o segredo banhado do aroma etílico de um Bourbon envelhecido em barril de carvalho. Estava falando grego? Ele falava quando escrevia. Nem todo autor consegue tal proeza. Alguns esperam as doze badaladas, ele esperava o silêncio. Enquanto todos dormem, ele escreve. Pelado. Desprovido de roupas e idéias. Com acento ou sem. Idéias. Com acento fica melhor. Mais bonitinho. E Língua Portuguesa é bicho enjoado mesmo. Tudo tem que estar bonitinho.

Porque agora, prepare-se leitor notívago, ele irá levá-lo por um caminho o qual você jamais percorreu. São 6 horas da manhã. Vamos lá, rapaz, desperte... E aproveite o dia. Enquanto todos dormem. E ele escreve.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ALMA


É uma foto em que não se vê quase os olhos; não se vê, portanto a expressão perenemente triste daqueles olhos; como se cansados estivessem; cansados da procura, das inúmeras tentativas não por reconhecimento, mas por fazer melhor o seu melhor.

O que eram aqueles olhos senão espelhos de uma alma a procura de si mesma; descrente de si mesma; cansada, não da vida, pois que de antemão sabia que desta não se livraria jamais; e mesmo esta certeza não lhe trazia esperança. Era nada mais que uma alma errante, livre; cansada, porém.

A natureza, que contemplava com aqueles olhos sempre acrescentara e repusera a energia que lhe faltara. Mas agora não. Nada mais podia a natureza fazer por aquela alma.

Via-se de repente imersa num mar negro de abandono e medo. Singrava aquele mar sem tocá-lo, sem rumo, ao sabor do vento. E naquele instante a vida adquiria uma dimensão de eternidade que fazia tudo perder o seu significado, e depois disso trazia o nada. E o nada era o céu noturno desprovido de estrelas. Desconhecido do sol, esquecido por Deus, desprezado pela vida e a lua.

Mas no meio do nada foi onde aquela alma se reconheceu finalmente livre, e, portanto, feliz, e, portanto, ainda, em paz.

Agora tinha realmente a certeza de que o silêncio é dono da melodia mais bonita, e duradoura, que jamais termina.

Aquela alma finalmente encontrava o seu mundo. E ali viveria para sempre. Porque ali, no meio do nada, ninguém dela se lembraria; ninguém a encontraria. Jamais.

E depois de tudo, era tudo o que queria.

“No more lonely night’s” – 25/08/1988

sábado, 22 de agosto de 2009

VAZIO


Então, era 1988, e, naquele ano (eu tinha 19) perdi três amigos. Um deles, era mais do que isso. E a vida, sabe, nunca mais foi a mesma. Recentemente, perdi mais um, com o qual já não tinha mais convivência. Por isso escrevi o texto "Sr. Robin Hood", aqui publicado. Ao longo do tempo, a gente vai perdendo as pessoas do nosso meio, e vai ficando um vazio, e mais outro, e mais outro ainda, até que de repente, nos deparamos diante de um abismo. É o vazio que a vida reservou para nós.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

POR QUE AS HORAS DEMORAM A PASSAR?


Não me interessa se Shakespeare não existiu ou se não escreveu a maioria dos textos creditados à ele; não me importa se Colombo comprou no mercado de Veneza um mapa de origem chinesa que indicava o caminho da costa da América que os chineses talvez já conheciam milhares de anos antes; não me importa se Mozart morreu envenenado ou de inflamação de garganta; se o General Paton cerrara mesmo fileiras com Anibal na Batalha de Cartago; se a Mona Lisa era Da Vinci, e se João era Madalena nos ombros de Jesus, se Mané Garrincha tomava seus goles, se Jesus morreu na cruz ou não, se Lula apoiou Sarney; se Voltaire era ateu; se Chico Xavier era ou não Kardec, eu acho que não. E não questiono se Pelé foi mesmo melhor que Maradona porque isso não se discute, claro que foi. O que sinceramente me importa é que esses homens é que estavam lá, no lugar certo e na hora certa. Eles é que fizeram história. Eles. And me?

DÈJÁ VU - A Iniciação de Tômaz


Antes, tudo por aqui era bem diferente. Eu preciso falar algumas coisas, sabe. Dia desses, tentei fazê-lo escrevendo para um jornal da cidade. Mas acho que não me entenderam. Tenho um amigo por esses lados. Amigo de longa data. Ao menos ele me escuta. Nem sempre me compreende. Também têm seus limites. Quem não os têm?
Quando eu passava por essas ruas, sempre à noite, eu me deixava levar pela magia das cores, mas as luzes acabavam por explodir os meus olhos. Então eu ficava cego, e tudo se tornava sombra: a cor da noite para a qual eu me entregava, sem receio, mais por revolta do que por desejo.

Agora, em meio à madrugada, quando o leste do céu já se torna vermelho, sentado neste muro, atrás da Estação de trens, há muito abandonada, fico a pensar o sem número de Tômas espalhados por aí. Saber que não sou o único Tômas me é motivo de consolo, embora já tenha sido de revolta. E por citar a maldita, em que canto destas ruas do centro da cidade, eu perdi a minha?

A insatisfação move o mundo. As regras limitam o ser. Pense nisso. É preciso que haja escândalos. Assim nos fez a natureza. Que não se iludam! Nossa essência é a dor, nossa espada, as lágrimas. Nosso escudo, o medo. Repudie os líderes, os missionários, os deuses. Eles mentem! Você é Deus. E é só aí, dentro de você que ele existe. Você é a sua glória ou a sua perdição. E esta é a única verdade.

Olho o passado de minha matrona consciência e vejo a montanha. Lá está. Íngreme, continua a desafiar-me. Mas volto para dentro de mim, e adiante, encontro ruas, por onde percorri, tombei, onde meu sangue foi derramado, e minha vergonha despida. Onde olhares me acusaram e mãos violentas quebraram meus ossos.

Antes deste que vos fala, quantos já não escalaram aquela montanha? Quantos não se perderam por essas ruas? E isto me consola. Não fui o Alfa, não serei o Ômega. Talvez seja o Beta. Sou Tômas Adler.

Saudações.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ENQUANTO HOUVER SOL


Sabe a história do cara que tinha tudo pra dar certo e acabou dando errado? Solo Io. Eu deveria mesmo desconfiar da minha repulsa por livros desde criança. Deveria entender e aceitar de vez por todas a importância que o papel representaria para mim ao longo de toda a minha vida.

Eu fazia contas. No papel do caderno. Na lousa da sala de aula, jamais. Não conseguia simplesmente. Toda vez que era chamado empacava feito burro velho. E para que a constrangedora situação ganhasse contornos de realidade só faltava mesmo ser velho. Ah, meus 09 anos! Que falta você me faz!

Aos 15, eu estudava no Chanceler. Nome pomposo demais para uma escola grande demais, porém, decadente, como tudo, naquele princípio dos 80. Ali, naquelas escadarias que eu detestava subir e descer; naqueles corredores intermináveis nasceu o escritor. Quer dizer, assumi a culpa pela desgraça. Ao menos desta. Se alguém me visse ou desse conta de mim, dentre tantos, diria que eu era o Ian McCulloch, caminhando por aqueles corredores. Ian falava sobre todas as cores. E eu tentava escrever sobre a escuridão e o vazio que a vida e o mundo eram para mim.

Aos 19, escutava meu pai gritar lá da sala: “Carpe diem, Junior!” Certo, com outras palavras. Mas eu preferia continuar marretando a velha e boa Olivetti portátil que lhe pertencia, acreditando que, sob o manto da noite e as bençãos das estrelas, escrevia o meu primeiro romance. Terminava exaurido mais uma noite de trabalho intenso, ouvindo Rod Stewart cantar Sailling, e perguntando por que a Srta Ju dissera-me adeus. Então, eu preparava uma dose de Martini, da garrafa que eu escondia entre livros, roupas sujas, e calçados velhos e novos, debaixo da cama. E abria a janela, e ficava olhando o nascer de mais um dia, na esperança de que quando o dia partisse me levasse consigo. Mas o dia, até hoje, esqueceu-se de mim. Talvez se lembre. Um dia.

Certo. Todos vocês estão certos. Eu é que estou errado. Os mais chegados, há vinte anos, me olhavam com severidade, hoje, me olham com piedade. Só muda o radical da palavra. E a dose de sentimento com que a vida a tempera. Só isso. Eu sou o mesmo. E vocês...? Já não dizem o que sempre disseram, porque se cansaram. Mas com seus olhares, ainda me cobram pelo diploma de jornalista que não tenho, pelo livro que não publiquei. Pelo pai que não sou. Pelo marido que deixei de ser. Por absoluta falta de vocação, admito.

Ora, mas porque é que às 10 e 30 da manhã de um domingo eu me pego a lhes dizer estas coisas?

Talvez porque não tenha dito outras senão estas ao longo de todos esses anos. Talvez porque ainda as direi, enquanto houver sol. E o dia continuar indo embora e se esquecendo de mim.

sábado, 15 de agosto de 2009

WOODSTOCK, EU NÃO ESTAVA LÁ

Nós, escritores, temos que ser honestos. Jamais faremos com as palavras, o que os músicos fazem com sua voz e os seus instrumentos. O Festival de Woodstock completa 40 anos de sua realização. Três dias de paz, amor e música numa fazenda a 3 horas de New York, sob chuva, enfiando o pé na lama, defecando e fazendo amor ao ar livre e sem nenhum constrangimento. Falta de comida. Drogas à vontade, policiamento insuficiente. E o saldo de duas mortes. Apenas. Segundo dados oficiais. Não vale contar o congestionamento monstro e jamais visto nas rodovias ao norte do estado de New York. Tinha tudo pra dar errado e acabou dando certo. Acontece nas melhores famílias que se metem a fazer festas grandiosas. Com Woodstock não foi diferente, para o alívio de Michael Lang, seu organizador que até poucas horas antes do início programado, não sabia onde realizar o evento. Situando os fatos no tempo. Em Agosto de 1969, eu já havia nascido há 6 meses (bom, essa parte pouco importa, não é mesmo?) o homem já havia chegado à Lua, mas não era o bastante. Era preciso, de alguma forma, resgatar o orgulho norte-americano terrivelmente abalado e ferido pelo inferno que havia se tornado a Guerra do Vietnã. Pra fazer o serviço, nada melhor que a juventude, com seu vigor e sua capacidade de sonhar, ainda intacta e imune à realidade. Jovens, já fui um deles, gostam de se sentir importantes. Alguns, acreditam até hoje que depuseram um presidente, numa certa republiqueta tropical dos confins da América. Pode? Pode. Porque jovem é assim mesmo. É o sujeito que enche a cara sábado à noite e domingo de manhã reclama da mãe que o almoço demora a sair. E não me desmintam. Eu já fui jovem. Na verdade, ainda sou, em espírito.

E por falar nesse sujeito desconhecido de todos, o espírito que dominava aquela moçada de Woodstock era o espírito da tolerância e da liberdade, com as benção da contracultura.

Parecia até, e agora, escribas, vou puxar a sardinha um pouco pro nosso lado, que o espírito, sim, ei-lo, o espírito, sempre ele, não? O espírito de Ginsberg, Bukowski, Fante, Kerouac e até Salinger estavam presentes na poesia das músicas de Dillan, dos Stones, do Who, dos acordes de Hendrix, do tormento de Joplin. E antes que a insatisfação transformassse o desejo de liberdade e tolerância em uma Longa Noite Jornada Adentro ao melhor estilo de O’Neill... Pois bem, Woodstock neles!

A milhares de quilômetros de distância dali helicópteros sobrevoavam as florestas vietnamitas à procura de sobreviventes de guerra. À bordo dos helicópteros de Woodstock, havia repórteres fotográficos munidos de câmeras e não soldados com metralhadoras. Grande diferença! E nada que importunasse o público estimado em 500 mil pessoas. Nem mesmo a demorada espera por vezes verificada entre um show e outro. Sobrava assim, tempo para o amor e para o fuminho.

Agora, você leitor, abelhudo que é, deve estar se perguntando, como é que esse sujeito se mete a escrever sobre aquilo que não viveu, não viu e ouviu bem pouco. Fácil. Faço o mesmo que você acaba de fazer. Eu leio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

OLHOS DE AMAR EM AGOSTO


No inverno, todos os dias, se sentava na calçada antes que as luzes dos postes da rua se apagassem. Ficava observando a respiração ganhar cor e forma, enquanto saía pela boca. Era como a fumaça do cigarro, do qual tentava se livrar, em vão. Ambas nasciam deformadas e morriam no instante seguinte. Mas eram apenas a fumaça do cigarro e a sua respiração. Pior seria fosse um ente querido, ou alguém aguardado com muita expectativa.

Era assim todos os dias, no inverno. O pai e a mãe ainda dormiam cada um no seu quarto. E ele dormia no sofá da sala, porque, à noite, ficava assistindo a televisão até tarde, depois que voltava da escola.

Tinha 17 anos. Logo prestaria o serviço militar. E talvez, então, encontrasse rumo na vida. Era sua esperança. Não maior que a de seus pais.

Quando se tem essa idade, o tempo demora um pouco mais a passar. Porém, ele ainda não sabia disso. Não sabia de muitas outras coisas. Não sabia por exemplo o que era amar. Acreditou durante algum tempo que amar fossem os olhos de Sheila, o modo como aqueles olhos o encontravam todo final de tarde, quando ela chegava do trabalho. Ela já trabalhava. Ele não. A mãe doente era a dele. Mas o direito de sonhar, também.

Semanas, meses, ele acreditou que de Sheila eram os olhos de amar. Até que um dia, ele entregou-lhe a fita K7 dos Smiths, que tinha aquela música da qual ela gostava, porque falava das luzes que nunca se apagam à noite. A fita perdeu-se num canto qualquer daquela rua que todo final de tarde ficava movimentada. Repleta de automóveis, motos e bicicletas, e pedestres e até carroças, e, algumas vezes, tratores. Alguém deve ter encontrado a fita e feito pouco caso dela, porque, naquela rua, naquele bairro, a maioria dos jovens não sabia o que era os Smiths. Mas ele sabia. E por isso queria compartilhar com ela. De modo a estabelecer um contato entre ambos que não fosse apenas um olhar ao cair da noite.

No dia seguinte, os pais finalmente perguntaram por ele. Perguntaram se tinha algum problema, se não estava bem, se podiam ajudar.

Não. Não podiam ajudar. Não poderiam jamais. Eram seus pais. Mas não faziam parte do seu mundo.

E, ao perceber isso, ele se convenceu que deveria fazer algo mais interessante na vida do que, todos os dias, no inverno, se sentar na calçada antes que as luzes dos postes da rua se apagassem.

Resolveu escrever.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

ADEUS, MENINOS


Pertencemos a uma sociedade que, nas últimas décadas, sujeitou-se a adquirir e consumir cultura, sentada na sala, diante da tevê, comendo pizza e pipoca, bebendo coca-cola. Hoje, se paga o preço por isso, através da arrogância intelectual de nossos pais e da miséria ideológica de nossos filhos.

Por isso, as bibliotecas estão vazias, os museus abandonados, as livrarias são desconhecidas.

Por isso os escritores pensam ao escrever e não sentem o que escrevem, porque desaprenderam a fazê-lo.

Por isso nossos filhos jamais saberão o prazer de se sentar numa praça, domingo pela manhã, e ler um bom livro. Porque daqui algum tempo, e não demora muito, onde estarão as praças, onde estarão os livros?

LETRAS COM ARTE


Confiram no site www.autores.com.br a nova edição da Revista Virtual Letras com Arte, da qual, tivemos a honra de escrever a matéria de capa. Eis o link: http://www.autores.com.br/component/option,com_flashmagazinedeluxe/Itemid,107/

ENVELHEÇO NA CIDADE


" O rock em suas múltiplas faces faz pensar, e inspira o sujeito tirar a bunda do lugar e tomar atitude na vida".

sábado, 8 de agosto de 2009

NUM PASSADO NÃO MUITO DISTANTE

Renan que amava Collor que odiava Sarney. A única verdade da política é que eles são todos mentirosos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

ESMAGANDO O RATO


Quem somos nós? Já parou pra pensar? De onde viemos? Por que escrevemos? Que algo mais nós trazemos em nossa mochila de mil faces chamada vida? Porque nos escolheram? Eles. Que não podemos vê-los senão sentir. Porque se aproximam de nós e envolvem nossas mentes e tomam nossas mãos pra dizer as mesmas coisas nas quais nós acreditamos ou que repudiamos? Por que é que se tem a maldita mania de se brincar de Deus? Por que somos humanos? Deve ser. Mas, e antes, o que somos? O que éramos? Quem somos nós? Nosso ódio tem limites, e nossa vontade residência fixa, endereço estabelecido, código de barras, portão sem cadeado, senha... Que todos podem acessar. Qual a graça? Responda-me quem puder!

E pensar que a gente passa por essa vida e percorre esse mundo, a maior parte do tempo, entre quatro paredes, ou debaixo de uma árvore. Claro, sob o sol, estouraria os miolos. E daí? Se a maioria de nós não fez outra coisa antes de vir para cá, para este mundo, senão juntar miolos.

Aproxima-se o final de tarde em que todos chorarão sobre nós e depositarão suas flores e suas lágrimas sobre a lápide que há de nos abrigar. Derramarão sua hipocrisia e, a sua indiferença, ofertarão embaladas num olhar meigo, um sorriso triste de revolta.

Quero estar por perto quando isso acontecer. Quero sim. Depois eu volto para o jardim, de onde vim.

Amém. Sou jardineiro.

LEITOR, ME EMPRESTA UM TÍTULO ?

Era um autor que detestava estórias escritas em primeira pessoa. Era péssimo leitor. Preferia as caminhadas solitárias à primeira luz da manhã do que a melhor página jamais escrita. Sujeito complicado. Naqueles dias, estava a pensar que já havia enfrentado situações iguais ou piores que aquelas. Mas havia uma diferença. Ou duas. Ou três. Certo. Naqueles dias ele tinha vigor, esperança e sonhos. Já não os tinha. Tudo o que tinha era um vazio imenso onde se preciptava a cada dia cada vez mais. Como um pesadelo. Terrível! Do qual não se acorda. Nunca.

No banheiro, porque não conseguia fazê-lo noutro lugar, meditava sobre como seu mundo, aos poucos, foi se tornando pequeno. Já não ia à casa dos irmãos, esquecera-se dos amigos, e ao encontro do pai, o melhor dos amigos, ia quando tinha certeza que o encontraria só. Aquela idéia de ódio e repulsa por alguém que lhe era tão próximo ia aos poucos tomando conta do seu coração. E tudo começara quando descobrira desconhecer alguma afinidade sua com aquela pessoa. Aquela cuja imagem perturbava mais do que o contra-cheque, e cujo nome se recusava a pronunciar. Aquela coisa. Porque era assim e era tudo o que ela lhe representava. Alguém tão próximo a si. Saída do mesmo buraco que ele. E tão distante. Uma estátua feita de mármore gelada sobre um pedestal. Algo assim. Que lhe importava? Não iria mais perder o seu tempo com isso. Iria passar aquela noite lendo o contrato e o manual de publicação que a editora lhe enviara por e-mail. Estava prestes a publicar o seu primeiro livro. Imagina! Ele, um autor. Como era possível? Se ainda tinha dúvidas se deveria ou não acrescentar o “s” ao final de preste. O que era preste? Por que preste? Preste o quê? Ou seria prestes, mesmo? E como poderia ser um escritor se não dominava a gramática da própria língua que falava e escrevia. Foda-se. Era apenas mais uma aberração que a vida fora capaz de produzir em série ao colocá-lo no mundo. Por falar nisso, a primeira vez que ele se deparou com o abismo foi quando compreendeu que a gente pede sim pra nascer. A segunda, foi quando se descobriu escritor. Maldição! Tanta coisa por fazer na vida, e escolheu justo isso! Ou foi escolhido? Sabe-se lá. Quem é que sabe?

Estava mesmo era preocupado com o contrato que a editora lhe enviara. Por e-mail. Que chic! Assinava ou não? Seu primeiro livro. Publicado sabe-se lá quando, qual a tiragem e onde seria distribuído. E por quem? Tudo mistério. Talvez fosse estratégia de marketing da editora. Haviam lhe solicitado que respondesse a um questionário de... como era mesmo aquele maldito nome? Ô nome confuso! Sim, Obralogia. Estudo da obra. A primeira pergunta: Para quem o senhor escreveu este livro? Ora – foi a resposta, seguida de um palavrão – Para o leitor, para quem mais? - Estratégia de marketing. Deve ser.

E sabe outra? Esse sujeito que se achava escritor até que era bem afeiçoado. Tinha ares aristrocráticos. Não costumava olhar para as pessoas enquanto conversava com elas. Era anarquista por convicção e pagador de impostos por desobediência. Apostava toda semana na loteria na esperança de ganhar não porque acreditava na sorte mas na teimosia. Iria ganhar de tanto insistir. Nada mal. Apesar dessa possibilidade ser a mesma dele ganhar, algum dia, o prêmio Nobel de Literatura. Pensando melhor, sabe... Nem tanto pelo mimo, mas aquele milhãozinho de dólares...

Continuava lendo o contrato enquanto fazia o café da noite que já se aproximava. Numa determinada cláusula interrompeu a leitura. Leu de novo. Sim. Era verdade. Estava escrito em numeral e negrito, em destaque, perdido no meio de uma frase de duas ou três linhas. Trezentos e sessenta reais. Bem assim. Era o que deveria pagar à editora por alguns servicinhos extras, oriundos da modernidade digital.

Calmo, porque tinha um bule de água fervendo na mão, foi até o quarto verificar a carteira. Dobradinhos, novinhos, recém sacados do caixa eletrônico: Setenta e dois reais. Cinquenta mais dez mais cinco mais cinco mais dois. Era o dinheiro que tinha. Até o “Pé na Estrada” já teve mais que isso. E percorreu, segundo a lenda, toda a Rota 66, sem um puto no bolso. Mas isso é lenda. Tô dizendo. Não acreditem em nada do que disser um escritor. Nada. Nem mesmo em estórias como esta que lhes acabo de contar. Por falar nisso, já faz mais de hora que parei nessa linha e não consigo sair dela. Acho que vou descascar laranjas até que você leitor me empreste um título. Sou péssimo nisso. Mas não sou escritor. Não mesmo.

AS QUATRO ESTAÇÕES


"Viver do passado é como tentar reconstruir um castelo de areia sob a tempestade. Pode-se até conseguir, mas nunca sairá do mesmo modo" - J. Costa Jr.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ENQUANTO TODOS DORMEM...

Pra você pensar em mim esta noite


Da trilha sonora do filme: 007 Somente para os seus olhos.

RIVOTRIL 2 MG


Escrever. Criar escrevendo. Brincar de ser Deus. Que fascínio esta milenar atividade exerce no ser humano! Besteira. A única finalidade da escrita é comunicar-se. Com a escrita de ficção não é diferente. Contar uma estória é uma forma de se comunicar. O escritor é aquele sujeito que concebe sua obra na solidão. E se for bom o suficiente saberá conviver com a eternidade ou a ausência desta. Ensinamento de Titio Hemingway. Não meu. Bem entendido. Por mim, acho tudo isso uma babaquice. Hoje, tô mais para Bukowski do que para Shakespeare. Escrevo pra desopilar o fígado. Deus me tirou a bebida, o fumo... Bem, fiquemos por aqui, e me deu a literatura. Aí, eu peguei a literatura e fiz dela gato e sapato. Esmurrei, amassei, pisei, rasguei, juntei tudo de novo e, não satisfeito, engoli e regurgitei. Feito Oswald, o Doido. Adiantou? Não.

É porque não compreendo e já desisti de tentar o que leva as pessoas acharem que existe um fato transcendental, místico, divino ou demoníaco, enfim, inspirador, no ato de escrever. Porque, veja bem leitor, não existe. Por mais Machado de Assis que o escritor se acredite, saiba que sempre escreverá sobre aquilo que viveu, viu, ouviu, e não me venha com essa estória de imaginação, porque, lúcido, você não imagina nada. Escritores são os primeiros bisbilhoteiros da vida alheia a terem nome, sobrenome e residência fixa.

Escrever é hábito. Só isso. É vício. Dos males, o menor.

Digo que se papel fosse vagina eu derrubaria Don Juan do seu trono. Melhor, eu ocuparia o lugar de Calígula, na História. Duvidam?

A ÁGUIA POUSOU


Olá Ionara! Como é que você está? Obrigado pela visita. Li o seu "Homem Maduro" http://www.autores.com.br/2009072620716/Literatura/Poesias/homem-maduro.html. E pensei: Como eu gostaria de ter essa maturidade a 20 anos. Mas isso é algo que só vem com a dor da derrota. Ninguém passa imune a isso. Um belo dia a gente acorda pela manhã e nos deparamos sós. Saímos para a rua, e, de repente, percebemos que não somos nenhum pouco melhor do que os outros como imaginávamos. Porque vemos um sujeito empurrando a sua bicicleta a caminho do trabalho, de mãos dadas com alguém para a qual sorri, enquanto conversa. Cruzamos com um casal idoso fazendo juntos sua caminhada matinal. E observamos, à distância, um senhor de meia idade na recepção do hospital, em prantos, advinha por que?

E aí a gente lembra que está só no mundo. E sabe que bem poderia não estar. E só está, porque escolheu esse caminho. Porque acreditou na balela de que os bons não erram, os bons não perdem. Mas na verdade, a gente aprende que os bons, apenas, morrem cedo.

Abraço, boa semana, seu belo poema me fez pensar. Viu?

Foto ilustrativa: daniellecarminatti.psc.br

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

DEIXEM OS MORTOS EM PAZ!




Regra básica do jornalismo (Vale também para os que obtiveram Mtb sob liminar judicial): Quando escrever sobre um assunto, leia tudo o que puder sobre ele.

Regra básica para os herdeiros dos escritores: Aquietem-se seus espertinhos e deixem os mortos em paz.

Mas essa regra parece ter sido esquecida pelos herdeiros de Leon Tolstoi, Mark Twain, Graham Greene, Ernest Hemingway, Vladmir Nabokov, Jack Kerouac e Roland Barthes.

Obras desses autores estão sendo reeditadas por seus descendentes para, sabe como é, ganhar uns trocos a mais e por que não, alguns instantes de celebridade. As editoras dão vivas à infeliz iniciativa, porque sofrem com a crescente retração do mercado editorial. A água de há muito bateu na bunda e já está a altura do pescoço. Salvem-se quem puder!

Vão dizer os oportunistas que escritores são pessoas públicas, daí não se tratarem de atrevimento ou falta de respeito expor a intimidade deles, em geral, de maneira leviana. Sob esse aspecto existem de parte a parte argumentos para um exaustivo debate.

O que, entretanto, causa repulsa, é a pretensão, tola senão idiota de se reescrever ou se alterar textos já publicados e por essa razão, conhecidos do grande público afeito à literatura.

Na França, arrasta-se há meses a polêmica sobre a publicação de um diário de Roland Barthes, escrito em 1977 e até então inédito, onde o teórico francês sugere sua homossexualidade algo que, em vida, sempre tratara de maneira discreta.

Outro caso polêmico é o que se refere ao escritor Raymond Carver que teve parte de seus contos reeditada este ano, trazendo versões bem diferentes daquelas minimalistas que os críticos atribuem ao editor Gordon Lish que, sem dó nem piedade cortava os textos de Carver com as bênçãos do escritor que, talvez encurralado por questões contratuais nada pudesse fazer.

De todos, entretanto, o caso que mais tem despertado interesse da mídia especializada em literatura é a reedição atualizada de “Paris é uma festa” (A Moveable Feast) de Ernest Hemingway (1899-1961). O autor da proeza não é senão seu neto Sean filho de Patrick. E para levar a empreitada adiante, ele se valeu de anotações manuscritas do vovô escritor. A ousadia tem o selo da editora Scribner’s responsável pelas publicações de Hemingway nos Estados Unidos. À parte o interesse financeiro do neto e da editora, existiria uma clara intenção de Sean em recuperar a imagem da avó Pauline Pfeifer, desgastada, segundo sugerem os mais chegados a Sean, no desfecho do livro. A justificativa é que o texto como veio a público, em 1964, três anos após a morte de Hemingway não correspondia aos objetivos editoriais do escritor. O que não convence quando o escritor em questão dizia que só o que era bom devia ser publicado. A. E. Hotchner, biógrafo de Ernest Hemingway, em artigo publicado no The New York Times e reproduzido por O Estado de São Paulo, no último dia 02, desmente os argumentos do neto de Hemingway, ao afirmar que os originais de Paris é uma festa já estava pronto para a publicação antes da morte do seu autor.

Como se vê até sob esse aspecto os escritores são o patinho feio das artes. Nenhum descendente de Portinari ou Picasso, por exemplo, ousaria refazer uma das telas desses pintores. E se o fizesse, seria ridicularizado.

Portanto, finados amigos companheiros das Letras, da próxima vez, se apoderem do pincel e deixem o lápis de lado. A menos que queiram continuar brincando de Deus.

DESAFETOS, ESPALHEM A NOTÍCIA !!!


O sujeito assina Arnaldog3 (1 não é o bastante). Leu a primeira linha (duvido que tenha lido outras) do meu texto “Ensaiando a cegueira” publicado mais abaixo. E me chamou de grosseiro. Ele é dog 3 vezes e eu que sou grosseiro! Não deve ter entendido patavinas (nome bonito isso. Anota aí ô Favari!). Porque onde está escrito LIVRO ele leu MERDA (Vide comentário). Deve ser porque para ele livro seja merda. Para alguns é apenas um objeto exposto na vitrine da vida, e para outros ainda, “a vida é que é uma vitrine num livro”. (Lara).
It’s alright – diria nosso amigo Neil Tennant, aquele garoto da pequena loja de sonhos. Por falar em sonhos... Sabiam que sonhar é bom em qualquer época da vida. A diferença é que aos 20 anos o sonho é recheado de esperança. E aos 40 o sonho vira a azeitona da empadinha. Essa é minha. Está no outro Blog (
www.jcostajr.blogspot.com), onde realmente escrevo. Porque aqui, neste espaço, eu me divirto. Viu seu Arnaldo? Cachorrão!

domingo, 2 de agosto de 2009

ENSAIANDO A CEGUEIRA


Se Saramago peidar vira livro. Não que o peido não mereça Saramago. Mas a pergunta que me faço é até quando iremos bajular os autores estrangeiros?
Quem acompanha os cadernos de cultura dos jornalões paulistanos sabe do que estou falando.
Recentemente Ligia Fagundes Telles submeteu-se à delicada cirurgia para a colocação de prótese total do quadril em decorrência de uma queda. Mereceu um drops de cinco linhas na testeira da página interna do caderno de cultura de determinado jornalão.
Saramago, por sua vez, terá publicado no Brasil as besteiras que andou escrevendo em blogs. Mereceu página inteira. Merecerá muitas outras. A diferença entre Ligia e o Zé Português é o milhão de doláres na conta bancária, proveniente do Nobel, porque os suecos, cultos e coisa e tal sequer sabem onde fica o Brasil, e mais, o Portuga é estrangeiro, o que, para nós brasileiros - Nossa, é formidável!
Continuamos a sofrer, como dizia Nelson e confirma Ubaldo da Síndrome de Cão Vira-Lata, e ouso acrescentar: abandonado à própria sorte.
O drama e a glória do vizinho (desde que não seja argentino) é sempre mais importante e interessante que o nosso. Mas só até o capítulo 2, que é o da morte. Aí nos igualamos às melhores civilizações. Canonizamos demônios como ACM, Vargas, Covas, pra citar alguns e incensamos ao panteão dos heróis sujeitos que mais viveram lá do que cá como Senna. E nos esquecemos por exemplo de César Lattes. Porque no Brasil, basta o sujeito morrer, seja esportista, artista, político e até escritor pra virar santo.
Sorte do Saramago, que nasceu em Portugal e não crê em Deus. Até nisso o sortudo leva vantagem.
Por isso ando pensando seriamente em retomar os estudos. Dar um feitio acadêmico (Deus me livre!) à minha verve literária. E já que morrer à míngua – sou rioclarense, de carne, sangue e osso; só falta avisar a cidade – é mesmo meu destino glorioso, irei dar cursos, palestras e seminários, de terno e gravata e resgatar os autores brasileiros esquecidos e redimensionar os considerados cânones. Seria minha modesta contribuição à humanidade, porque acabaria com a estupida idéia (com acento até 2011) de que literatura é para todos. Porque não é. Assim, árvores deixariam de ser derrubadas e suicídios cometidos. Depressivos deixariam os papéis e a paciência alheia em silêncio, iriam ouvir músicas. Deixariam, enfim, as mentes em branco para os que sabem preenchê-las e delas extrair vida. Vida inteligente.

sábado, 1 de agosto de 2009

CLICHÊ


Pode agora acalmar-se. Já passou. Salte da cama, atirando os lençóis para longe. O travesseiro já está no chão. Enxugue o suor da testa com os punhos. Abra as janelas e deixe o sol entrar. O sol. Onde está o sol? O que entra é a chuva. Fina. Gelada. Incipiente. Chuva.
Agora você percebe que falta lhe faz uma casa! Um computador em boas condições pra poder escrever.
Você sabe o quanto é desagradável dormir na sala dos outros. É o primeiro que acorda, o que houve as discussões na cozinha à noite e as indiretas inconvenientes e mal-educadas de quem já se cansou de vê-lo dormir e peidar no sofá que não lhe pertence.
Mas esta é sua sina, você sabe.
Sabe que a chuva cairá o dia todo e trará para junto de si aquela sensação de abandono e medo; e solidão.
Você não tem mais 20 anos. Não tem. Sabe disso porque viu no espelho hoje pela manhã. Sabe agora que tem rugas abaixo dos olhos e fios de cabelos brancos. Deixou o bigode crescer pra disfarçar alguma coisa que você se recusa a admitir.
Hoje é domingo. E hoje o gosto de carne de botequim estará na sua boca e permanecerá o dia todo por mais que você chupe balas de hortelã ou escove os dentes.
Você sabe que são nessas horas que lhe ocorre aquelas lembranças. O perfume dela está no quarto, você, parado à porta, e ela, distante, caminhando à esmo por uma rua qualquer do bairro em direção...
Você sabe onde. Sabe o rumo que ela tomou. E não se importa com isso. Porque afinal as flores murcham. E assim são as mulheres. Murcham diante de nossos olhos. A menos que alguém as apanhe antes.
Deixe logo esta casa. E caminhe. Caminhe sem direção. Por aí. À solta. Feito lobo guará perdido na zona urbana. Sem rumo.
Como é horrível escrever assim, você dirá em algum momento quando ouvir de novo aquela música e encontrar gravada na sua retina a expressão que tomava o olhar dela ao ouvir a música, aquela, junto de você.
Caminhe. Vamos! Sem demora. Caminhe pelo asfalto molhado da rua que parece não ter fim. Até que algum carro passe ao seu lado buzinando, espirrando barro. Você olha para o céu. À procura do sol. E vê que ele disputa com as nuvens o direito de tomar conta do seu coração.
Sete meses do ano já se passaram. E o que vêm agora você sabe. Porque assim são todos os anos nessa época. Vêm o medo. E a dor que não termina antes que tudo termine. E você sabe que a cada recomeço você tem um pouco menos na sua mochila daquilo que te fez caminhar estes últimos anos. Porque daquilo que o fez caminhar os primeiros passos, você já não possui há muito tempo.
Quando voltar para o quarto, lembre-se, tudo estará do mesmo modo à espera que outro desarrume.
Esqueça tudo isso. Dê um basta. Pegue o trem. A rodovia. Uma rua qualquer que não seja esta e desapareça para que então eles se lembrem de você.
Havia um modo de evitar tudo isso desde o início. E você sabe como.
Então viver talvez adquira um novo significado. Tão diferente daquele que você encontra toda vez que toma do lápis e do papel para escrever coisas como estas.
E se você tiver coragem de tomar a decisão, esquecerá do copo d’água sobre a mesa, e não precisará mais descascar laranjas. Há de encontrar-se consigo mesmo, dentro do armário que é sua vida. E quando alguém abrir a porta, talvez, outro surja, alguém que não seja você, algo que não seja o escritor que você é. Ou que finge ser.
Porque, melhor que todos, você sabe, que não basta apenas caminhar num final de tarde, debaixo da chuva fina e gelada e sob o olhar atento das nuvens. Há de passar o vento.
E dessa vez, não levará você.

ADRIANA