sábado, 1 de agosto de 2009

CLICHÊ


Pode agora acalmar-se. Já passou. Salte da cama, atirando os lençóis para longe. O travesseiro já está no chão. Enxugue o suor da testa com os punhos. Abra as janelas e deixe o sol entrar. O sol. Onde está o sol? O que entra é a chuva. Fina. Gelada. Incipiente. Chuva.
Agora você percebe que falta lhe faz uma casa! Um computador em boas condições pra poder escrever.
Você sabe o quanto é desagradável dormir na sala dos outros. É o primeiro que acorda, o que houve as discussões na cozinha à noite e as indiretas inconvenientes e mal-educadas de quem já se cansou de vê-lo dormir e peidar no sofá que não lhe pertence.
Mas esta é sua sina, você sabe.
Sabe que a chuva cairá o dia todo e trará para junto de si aquela sensação de abandono e medo; e solidão.
Você não tem mais 20 anos. Não tem. Sabe disso porque viu no espelho hoje pela manhã. Sabe agora que tem rugas abaixo dos olhos e fios de cabelos brancos. Deixou o bigode crescer pra disfarçar alguma coisa que você se recusa a admitir.
Hoje é domingo. E hoje o gosto de carne de botequim estará na sua boca e permanecerá o dia todo por mais que você chupe balas de hortelã ou escove os dentes.
Você sabe que são nessas horas que lhe ocorre aquelas lembranças. O perfume dela está no quarto, você, parado à porta, e ela, distante, caminhando à esmo por uma rua qualquer do bairro em direção...
Você sabe onde. Sabe o rumo que ela tomou. E não se importa com isso. Porque afinal as flores murcham. E assim são as mulheres. Murcham diante de nossos olhos. A menos que alguém as apanhe antes.
Deixe logo esta casa. E caminhe. Caminhe sem direção. Por aí. À solta. Feito lobo guará perdido na zona urbana. Sem rumo.
Como é horrível escrever assim, você dirá em algum momento quando ouvir de novo aquela música e encontrar gravada na sua retina a expressão que tomava o olhar dela ao ouvir a música, aquela, junto de você.
Caminhe. Vamos! Sem demora. Caminhe pelo asfalto molhado da rua que parece não ter fim. Até que algum carro passe ao seu lado buzinando, espirrando barro. Você olha para o céu. À procura do sol. E vê que ele disputa com as nuvens o direito de tomar conta do seu coração.
Sete meses do ano já se passaram. E o que vêm agora você sabe. Porque assim são todos os anos nessa época. Vêm o medo. E a dor que não termina antes que tudo termine. E você sabe que a cada recomeço você tem um pouco menos na sua mochila daquilo que te fez caminhar estes últimos anos. Porque daquilo que o fez caminhar os primeiros passos, você já não possui há muito tempo.
Quando voltar para o quarto, lembre-se, tudo estará do mesmo modo à espera que outro desarrume.
Esqueça tudo isso. Dê um basta. Pegue o trem. A rodovia. Uma rua qualquer que não seja esta e desapareça para que então eles se lembrem de você.
Havia um modo de evitar tudo isso desde o início. E você sabe como.
Então viver talvez adquira um novo significado. Tão diferente daquele que você encontra toda vez que toma do lápis e do papel para escrever coisas como estas.
E se você tiver coragem de tomar a decisão, esquecerá do copo d’água sobre a mesa, e não precisará mais descascar laranjas. Há de encontrar-se consigo mesmo, dentro do armário que é sua vida. E quando alguém abrir a porta, talvez, outro surja, alguém que não seja você, algo que não seja o escritor que você é. Ou que finge ser.
Porque, melhor que todos, você sabe, que não basta apenas caminhar num final de tarde, debaixo da chuva fina e gelada e sob o olhar atento das nuvens. Há de passar o vento.
E dessa vez, não levará você.

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