segunda-feira, 3 de agosto de 2009

DEIXEM OS MORTOS EM PAZ!




Regra básica do jornalismo (Vale também para os que obtiveram Mtb sob liminar judicial): Quando escrever sobre um assunto, leia tudo o que puder sobre ele.

Regra básica para os herdeiros dos escritores: Aquietem-se seus espertinhos e deixem os mortos em paz.

Mas essa regra parece ter sido esquecida pelos herdeiros de Leon Tolstoi, Mark Twain, Graham Greene, Ernest Hemingway, Vladmir Nabokov, Jack Kerouac e Roland Barthes.

Obras desses autores estão sendo reeditadas por seus descendentes para, sabe como é, ganhar uns trocos a mais e por que não, alguns instantes de celebridade. As editoras dão vivas à infeliz iniciativa, porque sofrem com a crescente retração do mercado editorial. A água de há muito bateu na bunda e já está a altura do pescoço. Salvem-se quem puder!

Vão dizer os oportunistas que escritores são pessoas públicas, daí não se tratarem de atrevimento ou falta de respeito expor a intimidade deles, em geral, de maneira leviana. Sob esse aspecto existem de parte a parte argumentos para um exaustivo debate.

O que, entretanto, causa repulsa, é a pretensão, tola senão idiota de se reescrever ou se alterar textos já publicados e por essa razão, conhecidos do grande público afeito à literatura.

Na França, arrasta-se há meses a polêmica sobre a publicação de um diário de Roland Barthes, escrito em 1977 e até então inédito, onde o teórico francês sugere sua homossexualidade algo que, em vida, sempre tratara de maneira discreta.

Outro caso polêmico é o que se refere ao escritor Raymond Carver que teve parte de seus contos reeditada este ano, trazendo versões bem diferentes daquelas minimalistas que os críticos atribuem ao editor Gordon Lish que, sem dó nem piedade cortava os textos de Carver com as bênçãos do escritor que, talvez encurralado por questões contratuais nada pudesse fazer.

De todos, entretanto, o caso que mais tem despertado interesse da mídia especializada em literatura é a reedição atualizada de “Paris é uma festa” (A Moveable Feast) de Ernest Hemingway (1899-1961). O autor da proeza não é senão seu neto Sean filho de Patrick. E para levar a empreitada adiante, ele se valeu de anotações manuscritas do vovô escritor. A ousadia tem o selo da editora Scribner’s responsável pelas publicações de Hemingway nos Estados Unidos. À parte o interesse financeiro do neto e da editora, existiria uma clara intenção de Sean em recuperar a imagem da avó Pauline Pfeifer, desgastada, segundo sugerem os mais chegados a Sean, no desfecho do livro. A justificativa é que o texto como veio a público, em 1964, três anos após a morte de Hemingway não correspondia aos objetivos editoriais do escritor. O que não convence quando o escritor em questão dizia que só o que era bom devia ser publicado. A. E. Hotchner, biógrafo de Ernest Hemingway, em artigo publicado no The New York Times e reproduzido por O Estado de São Paulo, no último dia 02, desmente os argumentos do neto de Hemingway, ao afirmar que os originais de Paris é uma festa já estava pronto para a publicação antes da morte do seu autor.

Como se vê até sob esse aspecto os escritores são o patinho feio das artes. Nenhum descendente de Portinari ou Picasso, por exemplo, ousaria refazer uma das telas desses pintores. E se o fizesse, seria ridicularizado.

Portanto, finados amigos companheiros das Letras, da próxima vez, se apoderem do pincel e deixem o lápis de lado. A menos que queiram continuar brincando de Deus.

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