sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DÈJÁ VU - A Iniciação de Tômaz


Antes, tudo por aqui era bem diferente. Eu preciso falar algumas coisas, sabe. Dia desses, tentei fazê-lo escrevendo para um jornal da cidade. Mas acho que não me entenderam. Tenho um amigo por esses lados. Amigo de longa data. Ao menos ele me escuta. Nem sempre me compreende. Também têm seus limites. Quem não os têm?
Quando eu passava por essas ruas, sempre à noite, eu me deixava levar pela magia das cores, mas as luzes acabavam por explodir os meus olhos. Então eu ficava cego, e tudo se tornava sombra: a cor da noite para a qual eu me entregava, sem receio, mais por revolta do que por desejo.

Agora, em meio à madrugada, quando o leste do céu já se torna vermelho, sentado neste muro, atrás da Estação de trens, há muito abandonada, fico a pensar o sem número de Tômas espalhados por aí. Saber que não sou o único Tômas me é motivo de consolo, embora já tenha sido de revolta. E por citar a maldita, em que canto destas ruas do centro da cidade, eu perdi a minha?

A insatisfação move o mundo. As regras limitam o ser. Pense nisso. É preciso que haja escândalos. Assim nos fez a natureza. Que não se iludam! Nossa essência é a dor, nossa espada, as lágrimas. Nosso escudo, o medo. Repudie os líderes, os missionários, os deuses. Eles mentem! Você é Deus. E é só aí, dentro de você que ele existe. Você é a sua glória ou a sua perdição. E esta é a única verdade.

Olho o passado de minha matrona consciência e vejo a montanha. Lá está. Íngreme, continua a desafiar-me. Mas volto para dentro de mim, e adiante, encontro ruas, por onde percorri, tombei, onde meu sangue foi derramado, e minha vergonha despida. Onde olhares me acusaram e mãos violentas quebraram meus ossos.

Antes deste que vos fala, quantos já não escalaram aquela montanha? Quantos não se perderam por essas ruas? E isto me consola. Não fui o Alfa, não serei o Ômega. Talvez seja o Beta. Sou Tômas Adler.

Saudações.

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