segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ALMA


É uma foto em que não se vê quase os olhos; não se vê, portanto a expressão perenemente triste daqueles olhos; como se cansados estivessem; cansados da procura, das inúmeras tentativas não por reconhecimento, mas por fazer melhor o seu melhor.

O que eram aqueles olhos senão espelhos de uma alma a procura de si mesma; descrente de si mesma; cansada, não da vida, pois que de antemão sabia que desta não se livraria jamais; e mesmo esta certeza não lhe trazia esperança. Era nada mais que uma alma errante, livre; cansada, porém.

A natureza, que contemplava com aqueles olhos sempre acrescentara e repusera a energia que lhe faltara. Mas agora não. Nada mais podia a natureza fazer por aquela alma.

Via-se de repente imersa num mar negro de abandono e medo. Singrava aquele mar sem tocá-lo, sem rumo, ao sabor do vento. E naquele instante a vida adquiria uma dimensão de eternidade que fazia tudo perder o seu significado, e depois disso trazia o nada. E o nada era o céu noturno desprovido de estrelas. Desconhecido do sol, esquecido por Deus, desprezado pela vida e a lua.

Mas no meio do nada foi onde aquela alma se reconheceu finalmente livre, e, portanto, feliz, e, portanto, ainda, em paz.

Agora tinha realmente a certeza de que o silêncio é dono da melodia mais bonita, e duradoura, que jamais termina.

Aquela alma finalmente encontrava o seu mundo. E ali viveria para sempre. Porque ali, no meio do nada, ninguém dela se lembraria; ninguém a encontraria. Jamais.

E depois de tudo, era tudo o que queria.

“No more lonely night’s” – 25/08/1988

Um comentário:

  1. Olá!Tudo bem amigo?Senti falta dos seus textos no "Autores",você é um grande escritor,querido por todos!Estarei sempre por aqui,te visitando e lendo suas obras,aprecio muitíssimo os seus escritos!Muito sucesso,paz,felicidade e sonhos em sua vida!Abraços!

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