segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ENQUANTO HOUVER SOL


Sabe a história do cara que tinha tudo pra dar certo e acabou dando errado? Solo Io. Eu deveria mesmo desconfiar da minha repulsa por livros desde criança. Deveria entender e aceitar de vez por todas a importância que o papel representaria para mim ao longo de toda a minha vida.

Eu fazia contas. No papel do caderno. Na lousa da sala de aula, jamais. Não conseguia simplesmente. Toda vez que era chamado empacava feito burro velho. E para que a constrangedora situação ganhasse contornos de realidade só faltava mesmo ser velho. Ah, meus 09 anos! Que falta você me faz!

Aos 15, eu estudava no Chanceler. Nome pomposo demais para uma escola grande demais, porém, decadente, como tudo, naquele princípio dos 80. Ali, naquelas escadarias que eu detestava subir e descer; naqueles corredores intermináveis nasceu o escritor. Quer dizer, assumi a culpa pela desgraça. Ao menos desta. Se alguém me visse ou desse conta de mim, dentre tantos, diria que eu era o Ian McCulloch, caminhando por aqueles corredores. Ian falava sobre todas as cores. E eu tentava escrever sobre a escuridão e o vazio que a vida e o mundo eram para mim.

Aos 19, escutava meu pai gritar lá da sala: “Carpe diem, Junior!” Certo, com outras palavras. Mas eu preferia continuar marretando a velha e boa Olivetti portátil que lhe pertencia, acreditando que, sob o manto da noite e as bençãos das estrelas, escrevia o meu primeiro romance. Terminava exaurido mais uma noite de trabalho intenso, ouvindo Rod Stewart cantar Sailling, e perguntando por que a Srta Ju dissera-me adeus. Então, eu preparava uma dose de Martini, da garrafa que eu escondia entre livros, roupas sujas, e calçados velhos e novos, debaixo da cama. E abria a janela, e ficava olhando o nascer de mais um dia, na esperança de que quando o dia partisse me levasse consigo. Mas o dia, até hoje, esqueceu-se de mim. Talvez se lembre. Um dia.

Certo. Todos vocês estão certos. Eu é que estou errado. Os mais chegados, há vinte anos, me olhavam com severidade, hoje, me olham com piedade. Só muda o radical da palavra. E a dose de sentimento com que a vida a tempera. Só isso. Eu sou o mesmo. E vocês...? Já não dizem o que sempre disseram, porque se cansaram. Mas com seus olhares, ainda me cobram pelo diploma de jornalista que não tenho, pelo livro que não publiquei. Pelo pai que não sou. Pelo marido que deixei de ser. Por absoluta falta de vocação, admito.

Ora, mas porque é que às 10 e 30 da manhã de um domingo eu me pego a lhes dizer estas coisas?

Talvez porque não tenha dito outras senão estas ao longo de todos esses anos. Talvez porque ainda as direi, enquanto houver sol. E o dia continuar indo embora e se esquecendo de mim.

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