domingo, 2 de agosto de 2009

ENSAIANDO A CEGUEIRA


Se Saramago peidar vira livro. Não que o peido não mereça Saramago. Mas a pergunta que me faço é até quando iremos bajular os autores estrangeiros?
Quem acompanha os cadernos de cultura dos jornalões paulistanos sabe do que estou falando.
Recentemente Ligia Fagundes Telles submeteu-se à delicada cirurgia para a colocação de prótese total do quadril em decorrência de uma queda. Mereceu um drops de cinco linhas na testeira da página interna do caderno de cultura de determinado jornalão.
Saramago, por sua vez, terá publicado no Brasil as besteiras que andou escrevendo em blogs. Mereceu página inteira. Merecerá muitas outras. A diferença entre Ligia e o Zé Português é o milhão de doláres na conta bancária, proveniente do Nobel, porque os suecos, cultos e coisa e tal sequer sabem onde fica o Brasil, e mais, o Portuga é estrangeiro, o que, para nós brasileiros - Nossa, é formidável!
Continuamos a sofrer, como dizia Nelson e confirma Ubaldo da Síndrome de Cão Vira-Lata, e ouso acrescentar: abandonado à própria sorte.
O drama e a glória do vizinho (desde que não seja argentino) é sempre mais importante e interessante que o nosso. Mas só até o capítulo 2, que é o da morte. Aí nos igualamos às melhores civilizações. Canonizamos demônios como ACM, Vargas, Covas, pra citar alguns e incensamos ao panteão dos heróis sujeitos que mais viveram lá do que cá como Senna. E nos esquecemos por exemplo de César Lattes. Porque no Brasil, basta o sujeito morrer, seja esportista, artista, político e até escritor pra virar santo.
Sorte do Saramago, que nasceu em Portugal e não crê em Deus. Até nisso o sortudo leva vantagem.
Por isso ando pensando seriamente em retomar os estudos. Dar um feitio acadêmico (Deus me livre!) à minha verve literária. E já que morrer à míngua – sou rioclarense, de carne, sangue e osso; só falta avisar a cidade – é mesmo meu destino glorioso, irei dar cursos, palestras e seminários, de terno e gravata e resgatar os autores brasileiros esquecidos e redimensionar os considerados cânones. Seria minha modesta contribuição à humanidade, porque acabaria com a estupida idéia (com acento até 2011) de que literatura é para todos. Porque não é. Assim, árvores deixariam de ser derrubadas e suicídios cometidos. Depressivos deixariam os papéis e a paciência alheia em silêncio, iriam ouvir músicas. Deixariam, enfim, as mentes em branco para os que sabem preenchê-las e delas extrair vida. Vida inteligente.

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