quinta-feira, 6 de agosto de 2009

LEITOR, ME EMPRESTA UM TÍTULO ?

Era um autor que detestava estórias escritas em primeira pessoa. Era péssimo leitor. Preferia as caminhadas solitárias à primeira luz da manhã do que a melhor página jamais escrita. Sujeito complicado. Naqueles dias, estava a pensar que já havia enfrentado situações iguais ou piores que aquelas. Mas havia uma diferença. Ou duas. Ou três. Certo. Naqueles dias ele tinha vigor, esperança e sonhos. Já não os tinha. Tudo o que tinha era um vazio imenso onde se preciptava a cada dia cada vez mais. Como um pesadelo. Terrível! Do qual não se acorda. Nunca.

No banheiro, porque não conseguia fazê-lo noutro lugar, meditava sobre como seu mundo, aos poucos, foi se tornando pequeno. Já não ia à casa dos irmãos, esquecera-se dos amigos, e ao encontro do pai, o melhor dos amigos, ia quando tinha certeza que o encontraria só. Aquela idéia de ódio e repulsa por alguém que lhe era tão próximo ia aos poucos tomando conta do seu coração. E tudo começara quando descobrira desconhecer alguma afinidade sua com aquela pessoa. Aquela cuja imagem perturbava mais do que o contra-cheque, e cujo nome se recusava a pronunciar. Aquela coisa. Porque era assim e era tudo o que ela lhe representava. Alguém tão próximo a si. Saída do mesmo buraco que ele. E tão distante. Uma estátua feita de mármore gelada sobre um pedestal. Algo assim. Que lhe importava? Não iria mais perder o seu tempo com isso. Iria passar aquela noite lendo o contrato e o manual de publicação que a editora lhe enviara por e-mail. Estava prestes a publicar o seu primeiro livro. Imagina! Ele, um autor. Como era possível? Se ainda tinha dúvidas se deveria ou não acrescentar o “s” ao final de preste. O que era preste? Por que preste? Preste o quê? Ou seria prestes, mesmo? E como poderia ser um escritor se não dominava a gramática da própria língua que falava e escrevia. Foda-se. Era apenas mais uma aberração que a vida fora capaz de produzir em série ao colocá-lo no mundo. Por falar nisso, a primeira vez que ele se deparou com o abismo foi quando compreendeu que a gente pede sim pra nascer. A segunda, foi quando se descobriu escritor. Maldição! Tanta coisa por fazer na vida, e escolheu justo isso! Ou foi escolhido? Sabe-se lá. Quem é que sabe?

Estava mesmo era preocupado com o contrato que a editora lhe enviara. Por e-mail. Que chic! Assinava ou não? Seu primeiro livro. Publicado sabe-se lá quando, qual a tiragem e onde seria distribuído. E por quem? Tudo mistério. Talvez fosse estratégia de marketing da editora. Haviam lhe solicitado que respondesse a um questionário de... como era mesmo aquele maldito nome? Ô nome confuso! Sim, Obralogia. Estudo da obra. A primeira pergunta: Para quem o senhor escreveu este livro? Ora – foi a resposta, seguida de um palavrão – Para o leitor, para quem mais? - Estratégia de marketing. Deve ser.

E sabe outra? Esse sujeito que se achava escritor até que era bem afeiçoado. Tinha ares aristrocráticos. Não costumava olhar para as pessoas enquanto conversava com elas. Era anarquista por convicção e pagador de impostos por desobediência. Apostava toda semana na loteria na esperança de ganhar não porque acreditava na sorte mas na teimosia. Iria ganhar de tanto insistir. Nada mal. Apesar dessa possibilidade ser a mesma dele ganhar, algum dia, o prêmio Nobel de Literatura. Pensando melhor, sabe... Nem tanto pelo mimo, mas aquele milhãozinho de dólares...

Continuava lendo o contrato enquanto fazia o café da noite que já se aproximava. Numa determinada cláusula interrompeu a leitura. Leu de novo. Sim. Era verdade. Estava escrito em numeral e negrito, em destaque, perdido no meio de uma frase de duas ou três linhas. Trezentos e sessenta reais. Bem assim. Era o que deveria pagar à editora por alguns servicinhos extras, oriundos da modernidade digital.

Calmo, porque tinha um bule de água fervendo na mão, foi até o quarto verificar a carteira. Dobradinhos, novinhos, recém sacados do caixa eletrônico: Setenta e dois reais. Cinquenta mais dez mais cinco mais cinco mais dois. Era o dinheiro que tinha. Até o “Pé na Estrada” já teve mais que isso. E percorreu, segundo a lenda, toda a Rota 66, sem um puto no bolso. Mas isso é lenda. Tô dizendo. Não acreditem em nada do que disser um escritor. Nada. Nem mesmo em estórias como esta que lhes acabo de contar. Por falar nisso, já faz mais de hora que parei nessa linha e não consigo sair dela. Acho que vou descascar laranjas até que você leitor me empreste um título. Sou péssimo nisso. Mas não sou escritor. Não mesmo.

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