quinta-feira, 13 de agosto de 2009

OLHOS DE AMAR EM AGOSTO


No inverno, todos os dias, se sentava na calçada antes que as luzes dos postes da rua se apagassem. Ficava observando a respiração ganhar cor e forma, enquanto saía pela boca. Era como a fumaça do cigarro, do qual tentava se livrar, em vão. Ambas nasciam deformadas e morriam no instante seguinte. Mas eram apenas a fumaça do cigarro e a sua respiração. Pior seria fosse um ente querido, ou alguém aguardado com muita expectativa.

Era assim todos os dias, no inverno. O pai e a mãe ainda dormiam cada um no seu quarto. E ele dormia no sofá da sala, porque, à noite, ficava assistindo a televisão até tarde, depois que voltava da escola.

Tinha 17 anos. Logo prestaria o serviço militar. E talvez, então, encontrasse rumo na vida. Era sua esperança. Não maior que a de seus pais.

Quando se tem essa idade, o tempo demora um pouco mais a passar. Porém, ele ainda não sabia disso. Não sabia de muitas outras coisas. Não sabia por exemplo o que era amar. Acreditou durante algum tempo que amar fossem os olhos de Sheila, o modo como aqueles olhos o encontravam todo final de tarde, quando ela chegava do trabalho. Ela já trabalhava. Ele não. A mãe doente era a dele. Mas o direito de sonhar, também.

Semanas, meses, ele acreditou que de Sheila eram os olhos de amar. Até que um dia, ele entregou-lhe a fita K7 dos Smiths, que tinha aquela música da qual ela gostava, porque falava das luzes que nunca se apagam à noite. A fita perdeu-se num canto qualquer daquela rua que todo final de tarde ficava movimentada. Repleta de automóveis, motos e bicicletas, e pedestres e até carroças, e, algumas vezes, tratores. Alguém deve ter encontrado a fita e feito pouco caso dela, porque, naquela rua, naquele bairro, a maioria dos jovens não sabia o que era os Smiths. Mas ele sabia. E por isso queria compartilhar com ela. De modo a estabelecer um contato entre ambos que não fosse apenas um olhar ao cair da noite.

No dia seguinte, os pais finalmente perguntaram por ele. Perguntaram se tinha algum problema, se não estava bem, se podiam ajudar.

Não. Não podiam ajudar. Não poderiam jamais. Eram seus pais. Mas não faziam parte do seu mundo.

E, ao perceber isso, ele se convenceu que deveria fazer algo mais interessante na vida do que, todos os dias, no inverno, se sentar na calçada antes que as luzes dos postes da rua se apagassem.

Resolveu escrever.

2 comentários:

  1. Quantas histórias acontecem no inverno ...inverno da alma.Esta história, lindamente relatada por você, me trouxe imagens dos meus longínquos invernos.Saudade de época doída, mas, ainda sim, saudades no sentido do desejo de ter novamente. Um abraço da Cat.

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  2. Voce é o poeta da família mesmo Juninho.
    Parabéns, muito bonito.
    Primo Décio

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