terça-feira, 29 de setembro de 2009

RECORTE DE JORNAL


Jornais não me servem. Livros não me servem. Religião nenhuma. Filosofia então... É piada isto?

Era o que pensava enquanto, sentado à mesa mexia a colherzinha dentro da xícara que, tão paciente quanto ele, esperava o café da manhã que Stephania passava na pia.

Stephania... Stephania me serve? – ele se perguntou – Também não.

Afinal o que me serve?

Esmurrou a mesa. Stephania olhou para trás, timidamente. Continuou a passar o café. Estava acostumada.

Ele se levantou, foi até a área verificar se o carro ainda estava lá e se o jornal já havia chegado.

Era do tempo de se ler notícia em jornal. Velho hábito. Cada vez que folheava um lembrava-se do pai a dizer-lhe que jornal é a coisa mais suja que existe. Certo que o velho se referia ao papel do jornal. Porque naquele tempo, o seu tempo de adolescente, quando era a sua mãe e não Stephania quem passava o café naquela mesma pia, a coisa não tinha descambado ainda completamente.

Polícia era autoridade. Provedor era o marido. Professor era mestre. Pais eram exemplos. E políticos... Bem, já naquele tempo não havia remédio pra isso.

O jornal sim já estava na área, dentro de um saquinho plástico transparente que o atencioso entregador colocava sempre que chovia, como na noite anterior.

Por sinal, o marido de Stephania passara a noite toda sem dormir. Por causa da chuva na vidraça. E da cadela da vizinha que estava no cio. Mais que tudo, porém, perturbado pela sugestão de Stephania: “Querido, acho que você devia ir ao médico”.

Ora, em 60 anos sequer sabia o que era um resfriado. Não iria ao médico porcaria nenhuma.

“Não vou!” – disse, deixando de lado a leitura da manchete do jornal, olhando para Stephania, seriamente, com autoridade de um cão feroz e faminto a demarcar o seu território.

“Disse que não vou. Não vou mesmo”.

“Não vai?”

“Não vou. Disse e não recuo. Não mudo uma vírgula desta frase. Se é que existe. Não vou”.

“Pois bem. Então vou eu.

“Vai sim”

“Vou mesmo. Vou desaparecer da tua vida”.

Stephania fechou a garrafa do café com a tampa, colocou a toalhinha de lado e saiu pisando firme. Havia prendido o cabelo naquela manhã, colocado o brinco de argola e passado batom o que não era bom sinal.

Voltaria logo mais, por volta de 11 horas, pra esquentar o feijão e fritar o bife, sem o qual o marido não ficava. Desaparecer traduzia-se em qualquer coisa como: Esqueça-me por algumas horas, querido. O tempo suficiente pra que eu coloque a cabeça no lugar.

E Stephania desde menina sempre tivera a cabeça no lugar. E ele sabia disso. E, talvez por isso, a vontade sua era amassar e engolir aquele jornal. Porque sabia que os minutos se tornariam horas até que Stephania voltasse.

E ele estaria ali mofando e se remoendo dentro daquela casa, enquanto Stephania, coitadinha, faria tudo pra manter a cabeça no lugar. Até que soltasse o seu último gemido de prazer: Carlão.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DEUS É PAI


A cada dia me convenço que essa experiência terrena é só mais uma página que eu vou arrancar do caderno da minha eternidade.

sábado, 26 de setembro de 2009

SÁBADO


Sábado, 3 da tarde. Alguma coisa diferente acontece. Agita-se a mente e o coração inquieta-se. E é assim desde os 17 anos quando descobri que sou coração e mente; sou feito disto. E nada, além disto.

Já caminhei pelo centro da cidade, que é o único lugar onde ainda consigo me sentir como se realmente estivesse na minha cidade, onde nasci, fui criado, estudei, casei e me ferrei, o quê mais? Onde mais? Por que mais? Chega. Chega de tanto mais.

Eu me sinto assim, em casa, quando estou no centro da cidade porque ali eu passo pelas pessoas e elas passam por mim e não olhamos um na cara do outro. E eu detesto olhar na cara das pessoas. Sobretudo daquelas que não conheço.

As poucas amizades que fiz foram todas por acaso. E considero essas amizades muito mais do que consideraria qualquer parente. Exceto alguns. Primos, em geral, porque toda regra tem exceção. Infelizmente.

Prefiro os amigos. Eles não me pedem favor, dinheiro e nem me exigem sacrifícios os quais meu orgulho repudia.

Dia desses, eu peguei ônibus errado e fui parar na periferia da cidade. Uma região inóspita até poucos anos, e assim estaria, não fosse um iluminado alcaide implantar um projeto habitacional.

Depois de idas e vindas por ruas esburacadas e barrentas, o ônibus foi parar dentro de uma propriedade rural, levantando poeira e espantando o gado que pastava próximo à cerca.

É nessas horas que me arrependo de não ter estudado mais. Ando realmente incomodado por isso. Estou cansado de ver certos idiotas que sabem bem menos do que eu, que fizeram bem menos do que já fiz, que podem bem menos do que eu posso, enfim, um bando de cabaços e medíocres, metidos à besta me esnobarem. Ganharem dinheiro e prestígio às minhas custas. Estou cansado. E pra ser sincero arrependido. Passei os últimos anos de minha vida atirando pérolas aos porcos.

Estou ficando cego de um olho, tenho câncer no pâncreas, um tumor na cabeça, e se fizer algum outro exame indicará que tenho diabetes. Pouco. Ainda falta a neoplasia maligna da próstata. E talvez alguma amputação.

E tenho 40 anos, nenhum tostão no bolso, e agora são vinte e duas horas e dois minutos. E sabe de uma coisa o que eu mais lamento, juro por Deus, é saber que vinte anos atrás, há essas horas, eu já tinha tomado uma garrafa de vinho da pior qualidade, meia dúzia de chopes, fumado um maço de Carlton, um raro prazer, e beijado duas ou três menininhas. Na boca.

Agora estou aqui. Trancado nesse maldito quarto, cujas paredes estão mofando, soterrado por livros, cadernos, jornais e papéis e anotações e latas de Coca-Cola, maços de cigarro vazios e amassados sobre a mesa, tocos de cigarro no cinzeiro que, um descuido de minha parte fez cair ao chão há instantes atrás. E ela, ela também está aqui: a imprestável, vadia e repugnante, porém minha fiel companheira esses últimos anos: a solidão.

E poderia não ser assim. Mas eu quis. E olha o que deu. Quis ser bom, quis atirar pérolas aos porcos, quis dar minha inteligência escrevendo para um bando de conformados que algum infeliz em determinado momento do século XVI ousou chamar de: Brasileiros.

Fosse eu um jornalista de direito porque de fato sou, enfim, tivesse tirado, porque neste país, diploma é algo que se tira como qualquer outro documento, e estaria com certeza trabalhando na redação de um desses jornaizinhos boquetas da cidade, ganhando uns trocos pra sustentar o vício, pagando a pensão pros filhos e pra patroa, assim, escrevendo, o lead, materiazinhas pagas, a lojinha do Paulão que vai inaugurar, o aniversário do Romeu, a chamadinha de primeira página pra bajular o prefeito, cinco linhas para o vereador amigo, notas pinçadas da Internet, releases de empresários de artistas e clubes sociais, assessorias de imprensa... E eu diria, com a maior cara de pau e sem nenhum pudor: Editor, veja bem, não esqueça que fui eu que escrevi.

Reportagens? Nada disso, pra que haja, depende do fato inusitado. E uma cidade como esta é terrivelmente desprovida de situações semelhantes. Aqui ninguém se mata na frente das câmeras, lojas não explodem e, vez em quando, apenas, matam uma criança. Por falar nisso...

Mas o maldito dinheiro estaria aqui no bolso. No meu. Tá certo que eu teria de fazer diariamente o que mais abomino que é puxar o saco das pessoas que hoje, talvez amanhã, possam me prestar um favor.

Não por acaso, enquanto escrevo estas linhas, ouço “Where the streets have no name” na versão high society bicha lôca dos garotos da pequena loja.

E meu amigo formado em Geografia preferiu trabalhar de atendente atrás de um balcão. Porque já não acredita neste país, na educação pública, já não acredita nas pessoas, mais preocupadas com a fatura do cartão de crédito.

E há 20 anos tínhamos 20 anos, e bebíamos sábado à noite, e amávamos sábado à noite. E a noite parecia não ter fim.

Há 20 anos, estaríamos dali 20 anos, ricos, belos e malditos. O que sempre desejamos. O que sabemos ser.

Agora são 22 horas e 31 minutos, sábado, setembro, 26, 2009.

Tá. Que estivéssemos sete palmos abaixo do chão. Nossa história aqui estaria pra ser contada por alguém, não por mim, e de modo diferente. Mas seria história do mesmo jeito.

E tenho agora a certeza que seria bem melhor assim.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

NAS BARBAS E NO RABO DO PODER


Daqui a alguns anos talvez nos deparemos com o seguinte slogan eleitoral: Beira-Mar pra Presidente. Não duvidem. Se os planos do PT e Lula prosperarem e, tudo indica que sim, teremos a partir de 2011 uma ex-seqüestradora como Presidenta da República.

Cá entre nós. “Jamais houve e jamais haverá – com licença, Lula – na história deste país uma revolução. Por quê? Simples de entender. Esses movimentos dependem de mobilização e, sobretudo, de quem os organize. Ou seja, precisa de pessoas cultas, altruístas, dispostas ao sacrifício, e que enxerguem ao menos um palmo além dos olhos, algo, digamos, raro, muito raro em se tratando de Brasil.

Nenhum governo que se preze pretende um povo culto, esclarecido e educado. Porque povos assim sabem reivindicar, apontar defeitos, propor e cobrar soluções. E quem é que gosta de ter uma pedra no sapato. Uma pedreira então?

Governos nada mais são do que grupos (geralmente econômicos) que detém o poder para tratar de seus interesses. Não dos nossos, bem entendido. E seu objetivo é uno: manter-se no Poder. Duvida? Acha que estou exagerando? Então pense comigo: Trocarias uma ilha paradisíaca com todas as despesas pagas pra morar de aluguel num barraco de favela ganhando salário mínimo? Am?...Tá respondido.

Outra coisa. Porque desgraça pouca – dizia minha avó – é bobagem. Moradores de cidades do interior, como Rio Claro, a Sky Blue e das Orquídeas (falô, Zotarelli!), que se interessam por informar-se e adquirir conhecimento e cultura, talvez se perguntem por que cargas d’água os jornais (se existem na verdadeira acepção que o termo exige), veiculam aos sábados e domingos suplementos de todo tipo de cultura inútil e não algo que preste. É pelos motivos já expostos anteriormente. Não há interesse em fomentar e divulgar cultura e conhecimento. Primeiro, porque atualmente, os jornais impressos de pequeno porte se comparados aos dos grandes centros, dependem do comedouro do Poder Público. Não sobrevivem sem a ração dos Governos Municipais. Ou aceita as regras do jogo, ditadas pelo dono da bola, ou não participa do jogo. Segundo, entendem os iluminados da publicidade, e jornal impresso em cidade do interior, tornou-se de uns anos para cá nada mais que um braço da publicidade, apenas isso, que, consumidores de cultura são pessoas de bom senão ótimo poder aquisitivo, e estes não irão comprar ou assinar os diarinhos que circulam no "interiô". Mas esse é um público alvo que precisa ser atingido e conquistado de alguma forma porque são clientes em potencial. Portanto, oferecem-se anúncios de perfumes, carros, viagens e roupas de grife, aquelas só usadas nas tele-novelas, nos desfiles e nas fotos de revistas de moda. E registra-se close-up’s das celebridades efêmeras que, feito mosquitinhos em torno da lâmpada, freqüentam eventos sociais de procedência e gosto duvidosos. E pronto. Está montado o espetáculo onde sempre acabam satisfeitos proprietários e clientes.

Há de se encontrar nesses veículos de comunicação as meias-verdades, supra-sumo da filosofia de salão de beleza como: “Amar é...” e “O meu livro preferido”, que certamente mofará na estante e jamais será lido. Mas não há de se encontrar, por exemplo, a biografia do pesquisador e historiador Paulo Rodrigues nem a trajetória do Grupo Banzo.

Em termos de Brasil, levou séculos para que a elite econômica percebesse as pedras de toque capaz de apaziguar os ânimos exaltados e pavimentar o caminho da permanência no Poder. São elas: 1) A democracia é o melhor disfarce, porque através da ilusão do voto, mantém-se perenemente a esperança de que tudo pode dar certo, e se não der pode ser mudado. Funciona, porque o povo, iludido com o direito de exercer sua cidadania através do voto, não percebe que só irá votar nos candidatos que já estão escolhidos. Ou seja, o eleitor tem o direito a escolher, sim: a arma com a qual irá se suicidar. 2) Desde Otaviano, o Imperador Romano, pão e circo são meios eficientes para satisfazer a platéia, porque o primeiro mata a fome – que o diga o Bolsa Família – e o segundo, ilude a mente e extasia o espírito. Ah, o espírito! 3) Sem contar que o Bolsa Família nada mais é do que a recompensa para o cãozinho que vem beijar a mão do dono.

Há saída para este caminho? Difícil. Talvez, as gerações futuras a descubram. A nossa, fracassou em sua tentativa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

30 MINUTOS DE FÉRIAS ou ADEUS UM JORNAL


(Dedicado aos amigos Favari Filho, Lourenço Favari, Ricardo Leão e Anselmo L.C.)

A primeira providência foi manter o motóca “pezinho de anjo” acordado. A segunda, pedir a Deus que parasse a chuva. Chuva de granizo. Vento forte. Nada mal, num verão como aquele e, se àquela hora da madrugada, não estivéssemos descendo a Imigrantes.

Isto é, nós, excursionistas vindos do interior. E sabem-se lá quantos outros idiotas.

Nessas horas é que não pode faltar Veronal no bolso. Dorme-se feito um gatinho. Desde que não haja, é claro, uma gatinha sentada na poltrona ao lado.

Mulher bonita sempre serve de inspiração. Exceto nas condições de tráfego acima.

Da cabine do motóca, arrisquei uma olhada lá fora, e, engraçado, não vi a pista. Ótimo, significa que não estou viajando, que continuo lá em casa, no tapete da sala, brincando com as crianças, jogando videogame e peteleco na orelha, enquanto a patroa prepara o jantar das dez. Adivinhem o quê? Pizza!

Bastou, entretanto, que despencasse qualquer coisa sobre minha cabeça, para que eu percebesse que realmente eu estava dentro de um ônibus – opa, conversão à esquerda – que mais parecia uma embarcação à deriva – opa, agora à direita – no triângulo das Bermudas, em noite de mar agitado.

Ai! Agora foi uma freada mesmo. E o precipício, logo ali, pertinho da janela. E não estou num avião. Embora, a cidade de Santos, lá embaixo, pareça maquete de condomínio.

E a gatinha ao lado, dormindo. Feito um anjinho. “Não sabe a peste que é essa mulher!” – Palavra do meu anjo de guarda. Ciumento que só vendo. O cara deve ser... Com essas asinhas, sei não!

Chegamos, horas depois, alguns galos na cabeça, torcicolo, náusea, enjôo, pernas tremendo, cabelo despenteado, camisa amassada sem alguns botões, calça molhada – de suor, bem entendido. Mas chegamos.

Sim, que alegria, a praia! Finalmente! Já podia ouvir o marulho das ondas ao longe. Porém...

Meia hora pra descer do ônibus, meia hora pra achar a mala no bagageiro abarrotado de outras malas, meia hora na recepção pra confirmar o nome na lista, e mais meia hora pra pegar a chave do quarto. E, tudo bem, não faz mal, porque lá se vão meia hora pra poder usar o banheiro, esperando que o turista número 2 o utilize primeiro. Mas isso não é rima é problema, porque até que eu, que sou o número 4, possa usá-lo, levará apenas mais meia hora, até que o número 3, consiga levantar da privada os seus 140 quilos. De bunda, bem entendido.

O pior é que vai faltar papel higiênico, depois disso. Mas até que a camareira traga um rolo, levará apenas mais... Advinhe. E se você disse meia hora. Acertou. Você acaba de ganhar um Wolkswagen zero quilômetro da Vimave. Péra aí, a papeleta do comercial é outra. Tava aqui no meio dessa papelada... Oh, meu Deus! ... Ai, minhas costas!

Ah, deixa pra lá.

De modo que, quando eu conseguir realmente me instalar no quarto, lembre-se acabo de chegar numa pousada, e deitar na cama e descansar um pouco até o café da manhã, servido com pompas aos visitantes, no refeitório da hospedaria, levará tão somente meia hora pra que eu pegue no sono, porque, enquanto isso, eu terei de ouvir o ronco sinfônico do hóspede companheiro de quarto, número 2, que por sinal pesa apenas 120 quilos, e só consegue dormir de barriga pra cima.

Mas até lá terá amanhecido. Hora de ir para a praia. Claro, se não levasse cerca de meia hora pra chuva passar. Um pouco.

Praia sem sol, sem mulher, e o que resta? CERVEJA!!!

Sento-me na mesa de um quiosque, pra molhar minha bunda, antes de untá-la e salgá-la nas águas do Atlântico, e, depois de meia hora, aí sim, a mocinha loira que atende no balcão, influenciada pelo deus Baco, conseguirá deduzir que, talvez, eu possa, claro, por que não? Querer tomar uma cerveja, estupidamente gelada. Meu Deus, ela adivinhou!

A sorte, é que esqueci o celular na mesinha do quarto. Embora, minha vontade fosse afogá-lo nesse mar imenso. Mas aí já seria morte muito refinada e digna de novela das oito para um maldito celular. Por isso, como autor brilhante de minha vida que sou, decido: Mandarei o celular (ao menos aquele) pro inferno, sim, atirando-o dentro da privada, e puxando a descarga dez vezes, senão quinze. Ou vinte. Está bem. Ok! Disque 3 para dez puxadas de descarga ou disque 4 para quinze puxadas. Apenas uma ligação por participante. Tarifa de 9,99 por 9 segundos de ligação, cobradas na próxima conta telefônica. Que provavelmente, você fará o cachorro comer antes que caia aos olhos de sua bendita e adorada mulherzinha.

O único risco é que dali meia hora, as ondas tragam o maldito celular de volta à mesa. Maldito!

De novo? É pouco! Mil vezes: Maldito, maldito, maldito....

Mais maldito? Daqui a meia hora.

Este foi o primeiro dia de um redator caipira em férias na praia, com todas as despesas pagas, por seu digno editor. Quer saber como foram os outros? Reserve já a próxima edição de O BETA. O que levará mais ou menos, meia hora, para que o rapaz da banca entenda de que jornal você está falando.

Tudo bem. Certamente meia hora depois, talvez uma ou duas horas, você terá lido O BETA da primeira a última linha. E talvez desista de viajar para a praia em feriados prolongados.

Odeio praia. Prefiro a casa da sogra. Onde não fico mais de meia hora.

Tá vendo? Cambada de doido

Nota do Escritor: Texto que intregava a edição derradeira de O BETA que não foi para o prélo.

Ilustração: www.portalobjetivo.com.br

domingo, 20 de setembro de 2009

POESIA ELETRÔNICA

Grupo Auê de Cultura e Artes e Sechiisland promovem este evento que promete ser dos mais interessantes. Entrada franca. Dia 09/10, às 20 horas, na Sociedade Veteranos de Rio Claro.

sábado, 19 de setembro de 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

CIRCO DE HORRORES

O exercício pleno da democracia é recente no Brasil. Talvez isto explique o fato do brasileiro ainda eleger homens e não partidos, em detrimento, portanto dos projetos políticos, se existem. Os partidos brasileiros não possuem consistência ideológica e seus atos são desprovidos de coerência, o PT que o diga. Causa risos quando o presidente Lula vem a público dizer que pela primeira vez na história deste país (como ele gosta deste jargão!) não haverão partidos de direita disputando o cargo hoje ocupado por ele.

O eleitor brasileiro geralmente encara a política como o futebol. Disputa acalorada por parte dos torcedores, digo, eleitores, e que se decide muitas vezes nos bastidores, sem que ele saiba ou finge que não sabe pra não se sentir culpado. Por isso não me ufano – desculpe Daniel, é plágio mesmo.

O meu colega Sabugo, também assíduo freqüentador do Bar do Bolinha, diz no melhor da sua inspiração etílica, que basta organizar pra que haja corrupção. Concordo. Por isso sou mesmo Anarquista. E que me provem que existe melhor remédio.

Agora, a onda dos partidos políticos é assediar celebridades e convencê-las a lançar candidaturas. O Partido Verde acaba de convidar o escritor Paulo Coelho para se lançar candidato a deputado por São Paulo. Vou repetir. O Partido Verde, o mesmo que poderá ter a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva como candidata à presidência da República.
Não riam, por favor, estamos no Brasil, onde até o ex-craque Edmundo, condenado a 4 anos e meio de detenção, por acidente de trânsito, pena mantida pelo STJ em agosto do ano passado, aderiu à política e já prepara sua candidatura para as próximas eleições.

No estado do Tocantins, comenta-se há meses a eventual candidatura do técnico Vanderlei Luxemburgo ao cargo de senador da República, onde já figuram outras preciosidades como Collor, Sarney, Calheiros e vai faltar etecéteras, por isso vou de reticências...

Ou seja, comprometimento com as causas sociais, folha de serviços prestados à sociedade, moral ilibada, passado inatacável, conduta ética, isso tudo é de menos. Na verdade, não possui importância. Porque não garante eleição de ninguém. E o que se pretende é conquistar o Poder. Simples então. Faça uma pesquisa de opinião pública, verifique as tendências do mercado, lance seu candidato e corra para o abraço.

Os progressistas, que sempre acham justificativa para tudo dirão que o ex-cowboy Ronald Reagan foi presidente da república Yankee. E o estado da Califórnia tem o ex- “The Terminator” Arnold Schwarzenegger como Governador.

Esquecem-se ou simplesmente não sabem que uma das cadeiras do senado brasileiro já foi ocupada por Ruy Barbosa, e atualmente o é por Pedro Simon. Mas aí é covardia.

Publicado no Site: www.jornalrioclaro.com.br

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

AURORA BOREAL


Por vezes, algumas, ele o visita. Vem de longe como o beija-flor que, esperançoso, procura por um pouco d’água, e, decepcionado, retorna sem encontrar. Bate asas e parte, triste, certo de que a esperança que trazia em seu coração diminuiu um pouco mais.

Ele sabe que chegará o instante em que a esperança deixará de existir. E será o momento fatal.

Naquela manhã, porém, enquanto sentia a ausência do beija-flor deparou-se com a tela do Word em branco, cruzou os braços, e não foi preciso esvaziar a mente

Súbito, teve saudade de si mesmo. E num instante, revirou as gavetas da sua memória e encontrou anotações que jamais se transformaram em versos, cartas não enviadas, declarações omitidas.

E seus braços continuavam cruzados. E seu olhar fixo na tela do Word. E sempre que isto acontecia horas se passariam sem que ele percebesse.

Não sentiria fome nem sede, não se lembraria da dor, e nem que seus olhos a cada manhã enxergavam menos.

Havia uma atmosfera de indiferença à sua volta que lhe trazia paz e medo ao mesmo tempo.

Lera em algum lugar que o sol se levanta a cada manhã sem se lembrar do dia de ontem.

Mas era filho da noite, concebido por desejos inconfessáveis, visto primeiro por olhos cheios de ódio, recebido por corações em desespero à procura de lágrimas.

Lembrava-se do momento mais importante. Quando o encontraram de joelhos na calçada, encostado no muro. Homens altos e fortes, trazidos pelo beija-flor, e que pareciam sorrir com os olhos, aproximaram-se, estenderam-lhe a mão.

Lembrava-se que seguiu com eles. Não porque quisesse ou esperasse por aquilo. Apenas seguiu. Do mesmo modo indiferente como respirava, e caminhava – quando ainda o fazia – e olhava para o chão, horas a fio, como se o tempo se resumisse àquele momento extático de ausência e contentamento que parecia eterno.

E logo, os homens gigantes o fizeram compreender que havia algo mais além daquele muro que, até então, ele acreditava ser o seu destino.

Deram-lhe papel e lápis. E ele escreveu. E foi aquela a primeira vez. Tentava agora se lembrar quando havia sido a última.

ANTES QUE TARDE, LIBERDADE

Houve um tempo em que os compositores criavam canções e os cantores cantavam melodias.

Houve um tempo em que romantismo e erotismo caminhavam juntos com o amor que desconhecia a vulgaridade e a indecência.

E o amor construía sonhos, e os sonhos construíam pessoas, e as pessoas acreditavam construir um mundo idealizado pelos homens que, empunhando a bandeira da liberdade, da igualdade e da fraternidade deram suas vidas pra libertar o pensamento humano das amarras da ignorância e da intolerância.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

SONETO PARA CAPITU


A força de vontade que falta para muitos gênios paparicados sobra para alguns daqueles talentos que fazem da arte uma forma de celebrar a vida, mesmo distantes dos holofotes da fama.
O exemplo do professor Pedro Pancher, 56 anos, da rede pública de ensino fundamental de Rio Claro, Escola Dijiliah de Camargo, é um exemplo não apenas de força de vontade, de amor à arte, mas do respeito que deve-se ter com todas as pessoas, independentemente da atividade que exerçam.

Ex-aluno do EJA (Escola de Jovens e Adultos), hoje formado em Pedagogia, antes Pancher trabalhara como pintor do departamento de trânsito de Rio Claro. Incentivado por amigos, há 6 anos retomou os estudos e hoje leciona alfabetizando as crianças.

Pancher participou com êxito do concurso promovido pela Editora Litteris. Com o soneto "Eu Trovador" concluiu o poema inacabado de Machado de Assis inserido no famoso romance "Dom Casmurro" e obteve o primeiro lugar, entre mais de 3000 participantes de todo o país.

O trabalho do poeta rioclarense abre a coletânea com mais de 100 trabalhos que compõem "Um Soneto para Machado de Assis" lançado na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, pela Editora Litteris.



O IDIOTA FAZ O SHOW


Foi das mais infelizes a atitude de Kayne West durante a cerimônia de entrega da premiação do Video Music Award 2009.

Ao invadir o palco, retirar o microfone das mãos da premiada Taylor Swift pra dizer que a cantora Beyoncé deveria ter ganhado no lugar desta o prêmio na categoria de melhor vídeo clipe feminino, West não apenas protagonizou uma enorme indelicadeza, repugnada até pelo presidente Obama. Fez mais expressou publicamente o egoísmo que domina a maioria de nós.

Em nenhum momento o cidadão pensou no ridículo a que expunha Taylor com o seu gesto.

Invadiu a privacidade alheia. Foi egoísta. Pensou apenas em si. Se com seu jeito tresloucado pretendia fazer justiça, acabou fazendo exatamente o contrário.

O assunto nem lhe dizia respeito. Deveria manter-se calado. Ou expressado sua opinião de outra maneira através dos meios de comunicação disponíveis e disseminados.

Às pessoas que faltam inteligência, resta, na maioria das vezes, uma única forma de expressar suas idéias nem sempre dignas de consideração: o fato inusitado, o pitoresco, o vexame. Mas, como todo incêndio, por maior que seja uma hora apaga. Esquece-se, talvez, Kayne West que as vítimas e o público não costumam esquecer as causas do incêndio e seu causador.

sábado, 12 de setembro de 2009

OLINTO INDO


Mais um que se vai sem nunca ter sido. A menos para a maioria dos brasileiros avessos à Literatura. Morre, ao 90 anos, no Rio de Janeiro, de falência múltipla dos órgãos o escritor Antonio Olinto. Membro da Academia Brasileira de Letras, o mineiro Olinto fora também professor na Universidade de Columbia, em Nova York/EUA, adido cultural em Londres, crítico literário do Jornal O Globo. Ele foi casado com a também escritora Zora Seljan, falecida em 2006. Nos últimos anos, dedicava-se a proferir palestras e seminários no Brasil e no exterior. Escreveu diversos livros nos gêneros poesia, romance, conto, crítica literária e gramática. Era também tradutor. É sempre muito triste a perda de um homem valoroso como Olinto. Tristeza que adquire maiores dimensões quando se sabe que dificilmente se encontrará um dos seus muitos livros disponível nas livrarias do Brasil.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DOZES FORA


Doze não é o bastante. Não é um número cabalístico. Talvez 21 seja. E se esta não for a resposta, o que justifica que Rio Claro tenha mais 9 vereadores?

A mágica proposta é aumentar o número de vereadores e diminuir o gasto das Câmaras. O contribuinte, financiador compulsório da gastança parlamentar da Opereta tragicômica “Brasilis Corazon Del Mundo... Ulálá Lula... Uiuiui!” Assim, com tantas reticências? É. – Até agradeceria. Fosse verdade. Mas não. Não é verdade.

Breve, voltará o maldito CPMF, claro, com outro nome, mais, digamos... Chamativo. Pomposo. Simpático... É aguardar o momento oportuno. Só isso.

O dogma agora é que o pré-sal irá resolver todos os nossos problemas. Há vinte anos era o Collor que os resolveria. Hoje é o Pré-Sal. Pior pra nós, que não teremos em quem atirar tomate e ovo podre. Nem a mãe de ninguém pra xingar. É xingar mesmo! Ô maldito corretor ortográfico. Merda! Até o Windows se tornou politicamente correto. Xingar não pode, acusa erro, tem que escrever: falar mal.

Já disse que vou fazer um curso de torneiro mecânico pra virar presidente de qualquer coisa. Sindicato. Associação de Moradores. Clube de terceira idade. Sei lá, qualquer coisa E vou botar durepox na ponta da língua. Não. Boto superbond mesmo. É mais barato.

Sobre os edis, pra que mais 9? Afinal, precisamos de política pra quê? Foi o que perguntaram os franceses ao final do século XVIII. Precisamos de reis e nobres pra quê? E nós, precisamos de políticos pra quê? Passar vergonha em tempo real perante o mundo globalizado? Vermos a riqueza que produzimos saqueada pela esperteza desses senhores engravatados e seus apaniguados?

Teremos os cinco anos seguintes de idiotice à base de pão e circo, o ópio do povo, o futebol com as Copas do Mundo, na Mama África e aqui. Com direito, quem sabe, a sessão extra, sob o título Olimpíadas Rio 2016. Ah, enquanto todos nós estaremos envolvidos cheios de orgulho, felizes sob o manto do nacionalismo, eles, os espertos, os donos da caneta, enriquecerão. E nós? Ah, somos brasileiros! Somos sim! Com muito orgulho e muito amor. Não é?

Um esforço tremendo se faz para construir e remodelar estádios e ginásios, enquanto os bandidos estão soltos na rua e nós, presos em nossas próprias casas. Os alunos estão todos na escola. Ah, que bonitinho! Mas aprendendo o quê? E comendo o quê? Papa de berinjela com gergelim?

Enquanto isso se multiplica as igrejas, sempre de portas abertas, para receber fiéis e doações. Vão os fiéis ficam as doações. Que se multiplicam à custa da ignorância que muitos confundem com esperança e fé.

Mas a esperança e a fé que fazem milagres não é aquela dos púlpitos dos templos. Nunca foi. Mas do trabalho e do estudo. Da fraternidade e do aperfeiçoamento moral.

Claro que estes caminhos são proibidos. Porque fossem livres e acessíveis a todos não existiriam as bolsas famílias e o assistencialismo que mais do que saciar a fome legitima os atos repulsivos de quem se acha no poder. E por que não, a sua continuidade.

Rio Claro é apenas uma cidade perdida no mapa do país que se considera o coração do mundo. Mas bem poderia ser um retrato 3x4 do próprio.

Pena. Ou castigo mesmo. Bem feito. Para quem ousou tirar de si o nome daquele que perdeu sua cabeça numa bandeja por ousar ser verdadeiro e amar demais: João.

Os tempos até que são outros. A humanidade não.

Publicado no Site www.jornalrioclaro.com.br

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

CONTO DA NOITE QUE SE DESPEDE


Coisas que se parecem insignificantes de repente ganham contornos de realidade e importância. Vai amanhecer o dia, o sol entrará pela janela, se derramará pelo assoalho, subirá pelo sofá, chegará à parede. E ficará em seu rosto, dizendo-lhe bom dia, mas você, longe, nem irá notá-lo.

Alguém, lá do outro lado, lhe diz que é era de voltar. Mas, em desespero, você tenta convencê-lo de ficar um pouco mais. Ali é o jardim. O vento acaricia e a chuva não destrói, a vida sorri.

E você sabe, porque senti que ali é seu lugar. Ali. O jardim. Onde o céu é parte da existência e o mundo não é cenário. É real.

Tudo o que onde você vive é apenas possibilidade é realidade onde você está. E por isso você não quer voltar. Apesar do sol que chega sorrindo, do carinho do seu filho, quietinho no seu colo respeitando a sua ausência.

Você sabe que é um espírito. E percebe como tudo seria melhor se fosse apenas isso. Mas lhe deram algo mais. Que onde quer que você vá tem que levá-lo consigo. Muito mais que o seu filho para tudo ele depende de você. E não é você. Seu filho de nada reclama. E ele tudo reclama. Tudo exige. E não é você. Mas você que é um espírito tem que botá-lo nas costas e levá-lo contigo onde quer que vá. Tem que dividir com ele o seu sustento e as suas dores, quando o que mais você queria era vivenciá-las sozinho, enquanto faz música e poesia, a forma que encontrou pra fazer a vida em redor entender de vez por todas que você existe.

Agora que você está longe, porque está no jardim e não quer voltar, você se encontra consigo mesmo. É apenas você mesmo. E sabe quem é. Sabe quem foi. E sabe quem não deseja ser.

Vê um caminho à sua frente que lhe é interditado. Porque basta que você ameace segui-lo e um muro intransponível surge à sua frente. E este muro é alto e forte como Golias. É erigido de tijolo e cimento e chapiscado de concreto e tomado por trepadeiras. É apenas um muro. Que você, acaso tivesse menos dor, menos revolta e menos culpa poderia atravessá-lo.

Mas você precisa voltar. Porque uma nuvem já ameaça cobrir o sol e o escuro do quarto causa medo em seu filho. E enquanto ele toca o seu rosto com receio de despertá-lo e faz menção de chamá-lo sem levar adiante a idéia, você retorna. Não porque deseja. Mas porque é preciso. Os minutos ainda contam o seu tempo. Você ainda passa pela vida. Enquanto ela, a vida, o observa, pensando porque motivo você insisti tanto em repudiá-la.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

INDAIÁS NA CIDADE DAS MARAVILHAS


Quem pariu Mateus que crie – dizia minha saudosa mãe. O provérbio não se aplica, entretanto, à política de Rio Claro. Todos nós sofremos com a incompetência, a incoerência e a falta de sabedoria de nossos e de nossas edis.

Quem se salva nesta Câmara de Vereadores da Sky Blue? Pergunta de difícil resposta, se existe.

Agora, ninguém mais votou nessas preciosidades como Faísca, Campeão, Pereirinha e Cia. Bela.

Culpa deles? Não. Culpa nossa.

Nada mais verdadeiro do que a máxima: Cada povo tem o governo que merece.

São vereadores eleitos por esse ou aquele segmento da sociedade. Um porque proporcionava churrasco e guloseimas para os moradores de determinado bairro, outro porque é ligado a essa ou aquela igreja. Enfim...

Mas a estes vereadores é dado o poder que emana do povo de decidir em nome não daquele ou desse segmento da sociedade, mas de toda a sociedade.

Em relação ao Executivo, caiu cedo por demais a máscara.

Mais uma vez como já ocorreu em outras ocasiões da história recente de Rio Claro, o povo rio-clarense (como dói escrever isso!) se deixou levar pelo discurso que mais o seduz: o da moralidade, o da justiça. E para isto basta que a oposição critique, denuncie e especule. Maledicência é com o rio-clarense. Ele gosta disso. Basta que se toquem as trombetas e que seja anunciado: “Haverá execução!” – e a catarse se faz com as bênçãos das galerias, sedentas por sangue.

Em 1982, na onda peemedebista que varreu o Brasil de ponta a ponta, Rio Claro também embarcou nessa. E assistiu pasmo, o seu prefeito logo afastar-se para assumir uma secretaria estadual, cargo nem tão importante e representativo assim, mas talvez vantajoso. Os milhares de votos que recebeu e a confiança que o povo esperançoso lhe depositou? Danaram-se.

Em 1988, o promotor justiceiro foi eleito prefeito dizendo em seus discursos que faria devassa na prefeitura e poria atrás das grades o anterior. Um ano depois, Collor diria isso de Sarney, num comício na Lagoa Seca do Cervezão, em Rio Claro. Lembram-se?

Mais 4 anos e tivemos a honra única de eleger alcaide alguém foragido da justiça. Fidelidade? Amor a toda prova? Ou estupidez?

Depois, oh glória, vieram 4 anos de muito verde, discursos vazios, pompas, Doralices, Zona Azul e realizações nenhuma. Quatro anos? Vê lá! Não foram bastante para o masoquista rio-clarense. Foram preciso mais 4. E ao final de 8, candidatura ao governo do estado, cinco contas rejeitadas, dezenas de processos e os direitos políticos cassados. Talvez saia como candidato a deputado por Rio Claro. E se conseguir, já ganhou! Claro. Este mesmo cidadão deixou a cadeira aveludada do palácio de mármore da Rua 3 com estratosféricos índices de aprovação. Estranho seria fosse o contrário. Algo a ver com as origens da cidade, formada por bandoleiros, marginais e mercenários que por aqui passavam à procura do ouro em terras longínquas?

Tem mais. Aí, retorna ao poder local o infante terrível, nos braços do povo, o melhor e maior de todos, consagrado nas urnas para a qual não conhecia derrota. Faz um governo realizador, uma campanha limpa à reeleição e perde para o sósia do Taz que agora faz tudo o que antes recriminava e apóia tudo o que antes repudiava explicando com suas atitudes, ipis is literis e a quem interessar possa que, todo político bom traz no bolso do paletó dois discursos: um para conquistar o poder, e outro para governar.

E nós, articulistas, homens de pensamento livre, propagadores de idéias e formadores de opiniões, e que não temos não o rabo preso com ninguém, devemos, isto posto, procurar outra coisa pra fazer. Porque há mais de 2000 anos já alertara Jesus, o Cristo sobre a inutilidade de se atirar pérolas aos porcos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

AOS OLHOS DO MUNDO


O Brasil nunca soube divulgar a sua imagem para o mundo. O país, lá fora, é sinônimo de futebol, samba e mulher bonita. Mas o Brasil não é só isso. O que um norte-americano de cultura mediana sabe sobre a o Movimento Republicano no Sul ou a Revolução de 32 em São Paulo? Nada. Mas qualquer criança do ensino médio no Brasil deve saber ao menos quem foi Abraham Lincoln.

Não somos apenas um povo de índio, embora índios nós sejamos todos. Mas para o europeu somos apenas a baiana do vatapá e a mulata carioca. Ele não sabe, por exemplo, da professora paulista que se vê obrigada a ensinar sob condições deploráveis de uma educação pública sucateada por seguidos governos burgueses e elitistas que comem sardinha e arrotam caviar, que são incapazes de exercer oposição aos desmandos e à corrupção do governo federal porque simplesmente roto não fala do rasgado e quando fala não convence. Bem, mas esse é outro assunto. Estou falando da imagem que o Brasil divulga de si para o mundo.

Lá fora a nossa Literatura se resume a Machado de Assis, para os acadêmicos, a Jorge Amado para os pseudo-intelectuais, e a Paulo Coelho para os que vêem no livro objeto de consumo e de decoração que lhes permita ares de intelectualidade. Estes certamente pertencem à mesma turma que, por aqui, assisti ao Programa do Jô para obter cultura. E freqüenta vernissages e lançamentos de livros para, quem sabe, aparecer naquela foto publicada nas colunas sociais e que sai geralmente com a legenda trocada.

Porque temos um imenso litoral - agora protegido por um navio de guerra que até pouco tempo se encontrava no museu marítimo da coroa inglesa - achamos de vestir bermuda e posarmos de garotão de praia para o mundo. Porque essa é a imagem que o mundo tem de nós? Não. Essa é a imagem que nós divulgamos de nós para o mundo.

Pra não falar em favelas, meninos de rua, tráfico de drogas e prostituição. Como se isso não existisse, por exemplo, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, na Alemanha e no Japão.

Falemos de coisa boa. Sim. César Lattes. Alguém se lembra? Entre nós, brasileiros, bem poucos. Mas o mundo lá fora sabe quem foi Cesare Mansueto Giulio Lopes, o físico e matemático Cesar Lattes, curitibano filho de judeus imigrantes italianos, graduado nessas áreas pela USP de São Paulo, co-descobridor do méson-pi feito considerado uma revolução no campo da Ciência ao revelar que o átomo não era formado por apenas três tipos de partículas elementares como até então se acreditava.

E o que dizer de Ernesto Julio de Nazareth, pianista e compositor, o grande nome do “Choro” estilo musical que combina lirismo e animação, um deleite para os ouvidos hoje tão maltratados pelo mercado fonográfico.

Ah, ia me esquecendo. Por aqui, babamos ovos para Gleen Miller, Gershwin e Ray Conniff e com toda a razão. Processo quem falar mal desses sujeitos. Mas fomos incapazes de divulgarmos ao mundo com a importância devida a Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Ou a Tupi do Rio de Janeiro.

Para concluir, existe na imprensa brasileira a crença nefasta de que notícia ruim é a que vende. Mentira. É claro que notícia é sempre o fato inusitado. Mas deveria haver mais espaço para os fatos positivos porque eles estimulam novas e semelhantes iniciativas, tornam o ambiente melhor, ajudam a limpar a mente do indivíduo que acompanha o noticiário.

Tivesse a imprensa brasileira coragem para tanto, tornar-se-ia a vanguarda do gênero no mundo. E isso não seria pouca coisa.

Aqui em Rio Claro, de onde escrevo, temos um exemplo disso. O Jornal Aquarius, editado pelo jornalista e escritor Mauricio Beraldo segue a linha editorial de apresentar matérias úteis e agradáveis para as pessoas que se interessam em adquirir conhecimento e cultura. É uma célula no universo. Mas células vivem e se reproduzem. E para isso basta a vontade de uns e de outros.

domingo, 6 de setembro de 2009

PERGUNTE AO PÓ


Se eu escrevesse para que os outros entendessem, eu não escreveria. Questionar que meus textos tenham fundamento é um direito do leitor. Esperar por isso é desperdício de tempo.

Não sei que idéia a maioria faz da literatura. Certamente não é a minha.

A mais bem sucedida literatura do século XX, a norte-americana, bebeu na fonte da literatura francesa e russa, desde Flaubert até Dostoievski.

Eu trago comigo o selo de Twain, Fante, Bukowski, Kerouac e Roth. Mas se eles me deram o mapa não me deram o caminho. Este eu tenho que desbravá-lo e só cabe a eu fazê-lo, porque escrever é uma saga de um herói solitário, você escreve sozinho. Um autor realiza sua obra na solitude. Só ele conhece o seu caminho, e onde este o levará; sabe como se sentar à mesa com seus demônios, e ouvir os seus anjos ao anoitecer.

O escritor pretensioso já é um derrotado. O vitorioso é aquele que trabalha. Zola, expoente do naturalismo francês dizia que escrever uma linha é sempre melhor do que escrever nenhuma.

A melhor inspiração de um escritor é o seu lápis, a segunda melhor é a sua mente, a terceira é o seu suor.

E eu derrubo suor, dessa vez, porque muitas outras já houve, desde os 17 anos. Não para ser o melhor dentre todos. Mas para ser o melhor que eu puder ser. Para fazer o melhor que eu puder fazer.

Certamente alguns leitores que se acham escritores estão pensando o que e por que perguntar ao pó. São os mesmos que se perguntam onde está o rato e porque esmagá-lo.

São os mesmos que preferem os pés no chão a voar, esperam encontrar razão pra tudo e por assim viverem não se permitem à felicidade. Vivem entre quatro paredes e a tapa nos olhos lhes é motivo de segurança porque nada vendo nada sentem e se não sentem vivem seguros a sua maneira.

E não se preocupem em pedir desculpas aqueles que atravessaram essas quinze linhas. Meus ouvidos se acostumaram a ser latrina da ignorância alheia. Mas eu não me esqueço de puxar a descarga.

Bom, pra quem ganha tão pouco acho que já escrevi demais.

Agora vou ver se encontro finalmente o cavalo branco debaixo da cama. Enquanto houver fígado... Porque sol, neste domingo, definitivamente não haverá.