segunda-feira, 21 de setembro de 2009

30 MINUTOS DE FÉRIAS ou ADEUS UM JORNAL


(Dedicado aos amigos Favari Filho, Lourenço Favari, Ricardo Leão e Anselmo L.C.)

A primeira providência foi manter o motóca “pezinho de anjo” acordado. A segunda, pedir a Deus que parasse a chuva. Chuva de granizo. Vento forte. Nada mal, num verão como aquele e, se àquela hora da madrugada, não estivéssemos descendo a Imigrantes.

Isto é, nós, excursionistas vindos do interior. E sabem-se lá quantos outros idiotas.

Nessas horas é que não pode faltar Veronal no bolso. Dorme-se feito um gatinho. Desde que não haja, é claro, uma gatinha sentada na poltrona ao lado.

Mulher bonita sempre serve de inspiração. Exceto nas condições de tráfego acima.

Da cabine do motóca, arrisquei uma olhada lá fora, e, engraçado, não vi a pista. Ótimo, significa que não estou viajando, que continuo lá em casa, no tapete da sala, brincando com as crianças, jogando videogame e peteleco na orelha, enquanto a patroa prepara o jantar das dez. Adivinhem o quê? Pizza!

Bastou, entretanto, que despencasse qualquer coisa sobre minha cabeça, para que eu percebesse que realmente eu estava dentro de um ônibus – opa, conversão à esquerda – que mais parecia uma embarcação à deriva – opa, agora à direita – no triângulo das Bermudas, em noite de mar agitado.

Ai! Agora foi uma freada mesmo. E o precipício, logo ali, pertinho da janela. E não estou num avião. Embora, a cidade de Santos, lá embaixo, pareça maquete de condomínio.

E a gatinha ao lado, dormindo. Feito um anjinho. “Não sabe a peste que é essa mulher!” – Palavra do meu anjo de guarda. Ciumento que só vendo. O cara deve ser... Com essas asinhas, sei não!

Chegamos, horas depois, alguns galos na cabeça, torcicolo, náusea, enjôo, pernas tremendo, cabelo despenteado, camisa amassada sem alguns botões, calça molhada – de suor, bem entendido. Mas chegamos.

Sim, que alegria, a praia! Finalmente! Já podia ouvir o marulho das ondas ao longe. Porém...

Meia hora pra descer do ônibus, meia hora pra achar a mala no bagageiro abarrotado de outras malas, meia hora na recepção pra confirmar o nome na lista, e mais meia hora pra pegar a chave do quarto. E, tudo bem, não faz mal, porque lá se vão meia hora pra poder usar o banheiro, esperando que o turista número 2 o utilize primeiro. Mas isso não é rima é problema, porque até que eu, que sou o número 4, possa usá-lo, levará apenas mais meia hora, até que o número 3, consiga levantar da privada os seus 140 quilos. De bunda, bem entendido.

O pior é que vai faltar papel higiênico, depois disso. Mas até que a camareira traga um rolo, levará apenas mais... Advinhe. E se você disse meia hora. Acertou. Você acaba de ganhar um Wolkswagen zero quilômetro da Vimave. Péra aí, a papeleta do comercial é outra. Tava aqui no meio dessa papelada... Oh, meu Deus! ... Ai, minhas costas!

Ah, deixa pra lá.

De modo que, quando eu conseguir realmente me instalar no quarto, lembre-se acabo de chegar numa pousada, e deitar na cama e descansar um pouco até o café da manhã, servido com pompas aos visitantes, no refeitório da hospedaria, levará tão somente meia hora pra que eu pegue no sono, porque, enquanto isso, eu terei de ouvir o ronco sinfônico do hóspede companheiro de quarto, número 2, que por sinal pesa apenas 120 quilos, e só consegue dormir de barriga pra cima.

Mas até lá terá amanhecido. Hora de ir para a praia. Claro, se não levasse cerca de meia hora pra chuva passar. Um pouco.

Praia sem sol, sem mulher, e o que resta? CERVEJA!!!

Sento-me na mesa de um quiosque, pra molhar minha bunda, antes de untá-la e salgá-la nas águas do Atlântico, e, depois de meia hora, aí sim, a mocinha loira que atende no balcão, influenciada pelo deus Baco, conseguirá deduzir que, talvez, eu possa, claro, por que não? Querer tomar uma cerveja, estupidamente gelada. Meu Deus, ela adivinhou!

A sorte, é que esqueci o celular na mesinha do quarto. Embora, minha vontade fosse afogá-lo nesse mar imenso. Mas aí já seria morte muito refinada e digna de novela das oito para um maldito celular. Por isso, como autor brilhante de minha vida que sou, decido: Mandarei o celular (ao menos aquele) pro inferno, sim, atirando-o dentro da privada, e puxando a descarga dez vezes, senão quinze. Ou vinte. Está bem. Ok! Disque 3 para dez puxadas de descarga ou disque 4 para quinze puxadas. Apenas uma ligação por participante. Tarifa de 9,99 por 9 segundos de ligação, cobradas na próxima conta telefônica. Que provavelmente, você fará o cachorro comer antes que caia aos olhos de sua bendita e adorada mulherzinha.

O único risco é que dali meia hora, as ondas tragam o maldito celular de volta à mesa. Maldito!

De novo? É pouco! Mil vezes: Maldito, maldito, maldito....

Mais maldito? Daqui a meia hora.

Este foi o primeiro dia de um redator caipira em férias na praia, com todas as despesas pagas, por seu digno editor. Quer saber como foram os outros? Reserve já a próxima edição de O BETA. O que levará mais ou menos, meia hora, para que o rapaz da banca entenda de que jornal você está falando.

Tudo bem. Certamente meia hora depois, talvez uma ou duas horas, você terá lido O BETA da primeira a última linha. E talvez desista de viajar para a praia em feriados prolongados.

Odeio praia. Prefiro a casa da sogra. Onde não fico mais de meia hora.

Tá vendo? Cambada de doido

Nota do Escritor: Texto que intregava a edição derradeira de O BETA que não foi para o prélo.

Ilustração: www.portalobjetivo.com.br

Um comentário:

  1. Até pra ser bem humorado vc é 'ácido'...
    Gosto de todas as suas faces e esse seu texto, quando o li hj à tarde, quase me fez perder a hora(é q fiquei tão distraída lendo-o q esqueci q eu só tinha alguns minutos)

    ResponderExcluir