quarta-feira, 9 de setembro de 2009

CONTO DA NOITE QUE SE DESPEDE


Coisas que se parecem insignificantes de repente ganham contornos de realidade e importância. Vai amanhecer o dia, o sol entrará pela janela, se derramará pelo assoalho, subirá pelo sofá, chegará à parede. E ficará em seu rosto, dizendo-lhe bom dia, mas você, longe, nem irá notá-lo.

Alguém, lá do outro lado, lhe diz que é era de voltar. Mas, em desespero, você tenta convencê-lo de ficar um pouco mais. Ali é o jardim. O vento acaricia e a chuva não destrói, a vida sorri.

E você sabe, porque senti que ali é seu lugar. Ali. O jardim. Onde o céu é parte da existência e o mundo não é cenário. É real.

Tudo o que onde você vive é apenas possibilidade é realidade onde você está. E por isso você não quer voltar. Apesar do sol que chega sorrindo, do carinho do seu filho, quietinho no seu colo respeitando a sua ausência.

Você sabe que é um espírito. E percebe como tudo seria melhor se fosse apenas isso. Mas lhe deram algo mais. Que onde quer que você vá tem que levá-lo consigo. Muito mais que o seu filho para tudo ele depende de você. E não é você. Seu filho de nada reclama. E ele tudo reclama. Tudo exige. E não é você. Mas você que é um espírito tem que botá-lo nas costas e levá-lo contigo onde quer que vá. Tem que dividir com ele o seu sustento e as suas dores, quando o que mais você queria era vivenciá-las sozinho, enquanto faz música e poesia, a forma que encontrou pra fazer a vida em redor entender de vez por todas que você existe.

Agora que você está longe, porque está no jardim e não quer voltar, você se encontra consigo mesmo. É apenas você mesmo. E sabe quem é. Sabe quem foi. E sabe quem não deseja ser.

Vê um caminho à sua frente que lhe é interditado. Porque basta que você ameace segui-lo e um muro intransponível surge à sua frente. E este muro é alto e forte como Golias. É erigido de tijolo e cimento e chapiscado de concreto e tomado por trepadeiras. É apenas um muro. Que você, acaso tivesse menos dor, menos revolta e menos culpa poderia atravessá-lo.

Mas você precisa voltar. Porque uma nuvem já ameaça cobrir o sol e o escuro do quarto causa medo em seu filho. E enquanto ele toca o seu rosto com receio de despertá-lo e faz menção de chamá-lo sem levar adiante a idéia, você retorna. Não porque deseja. Mas porque é preciso. Os minutos ainda contam o seu tempo. Você ainda passa pela vida. Enquanto ela, a vida, o observa, pensando porque motivo você insisti tanto em repudiá-la.

Um comentário:

  1. Muito bom o texto Jota, "A vida o observa, pensando porque insiste em repudiá-la", interessante essa parte.Por que amamos a vida e a repudiamos ao mesmo tempo?Será que algum dia saberemos?
    Parabéns pelo blog, voltarei sempre.

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