terça-feira, 1 de setembro de 2009

NOITE DE MALEVICH


Não fui eu quem inventou a solidão. Porque não inventei o telefone, nem o e-mail, o Messenger, o torpedo. Não inventei a janela, nem as quatro paredes, nem a privada. Portanto, não me importunem, não inventei a solidão.

Minha vontade? Quebrar todas as vidraças, os narizes, os dentes e os espelhos. Quebrar tudo. Tudo aquilo, gente ou cousa, que ousa olhar para mim.

Eu sou a solidão. Amo a natureza. Adoro os animais. Exceto a espécie humana. É muito animal.

Tudo ficaria bem no escuro. Pra quê a luz? Antes, tudo ia muito bem. No escuro.

Havia todos. E todos eram nada no meio do nada.

Quem acendeu a luz? Se estava insatisfeito poderia se retirar que não seria notado.

A luz é uma doença contagiosa. No escuro tudo é perfeito. Todas as formas são possíveis. E se bastam. No escuro tudo existe e todos são iguais.

Nada se teme porque nada se vê. E o medo é nada mais do que a acácia do jardim.

Não há quente nem frio no escuro. Nem cor, nem vento, nem dor.

Todas as aspirações se manifestam e todas as idéias se propagam e os sons, todos, reverberam.

Não sei por que ultimamente tantos se importam comigo?

Querem saber de onde venho? Não venho. Eu estou. No escuro. É onde vivo. Nasci. E espero ficar.

Meu nome? Pergunte ao Pessoa. Talvez ele lhes empreste um para mim. Ele tinha tantos.

Tem mais. No escuro não há começo, meio e fim. Como este texto. Produzido no escuro para as mente sedentas de luz que perderam seu tempo lendo-o. E agora se arrependem.

Ilustração: "Black Square" de Kazimir Malevich.

Um comentário:

  1. ‘Não inventei a solidão’ ... ‘Eu sou a solidão’...
    Aprendiz, reinvente-se !

    Fui eu quem acendeu a luz. Achou ruim?
    Seus olhos vão arder ainda muito até esquecerem o escuro e acostumarem-se com a luminosidade. Esbraveje como queira. Já disse: não tenho medo de cara feia!

    Agora vem. Vamos falar de música ...

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