terça-feira, 29 de setembro de 2009

RECORTE DE JORNAL


Jornais não me servem. Livros não me servem. Religião nenhuma. Filosofia então... É piada isto?

Era o que pensava enquanto, sentado à mesa mexia a colherzinha dentro da xícara que, tão paciente quanto ele, esperava o café da manhã que Stephania passava na pia.

Stephania... Stephania me serve? – ele se perguntou – Também não.

Afinal o que me serve?

Esmurrou a mesa. Stephania olhou para trás, timidamente. Continuou a passar o café. Estava acostumada.

Ele se levantou, foi até a área verificar se o carro ainda estava lá e se o jornal já havia chegado.

Era do tempo de se ler notícia em jornal. Velho hábito. Cada vez que folheava um lembrava-se do pai a dizer-lhe que jornal é a coisa mais suja que existe. Certo que o velho se referia ao papel do jornal. Porque naquele tempo, o seu tempo de adolescente, quando era a sua mãe e não Stephania quem passava o café naquela mesma pia, a coisa não tinha descambado ainda completamente.

Polícia era autoridade. Provedor era o marido. Professor era mestre. Pais eram exemplos. E políticos... Bem, já naquele tempo não havia remédio pra isso.

O jornal sim já estava na área, dentro de um saquinho plástico transparente que o atencioso entregador colocava sempre que chovia, como na noite anterior.

Por sinal, o marido de Stephania passara a noite toda sem dormir. Por causa da chuva na vidraça. E da cadela da vizinha que estava no cio. Mais que tudo, porém, perturbado pela sugestão de Stephania: “Querido, acho que você devia ir ao médico”.

Ora, em 60 anos sequer sabia o que era um resfriado. Não iria ao médico porcaria nenhuma.

“Não vou!” – disse, deixando de lado a leitura da manchete do jornal, olhando para Stephania, seriamente, com autoridade de um cão feroz e faminto a demarcar o seu território.

“Disse que não vou. Não vou mesmo”.

“Não vai?”

“Não vou. Disse e não recuo. Não mudo uma vírgula desta frase. Se é que existe. Não vou”.

“Pois bem. Então vou eu.

“Vai sim”

“Vou mesmo. Vou desaparecer da tua vida”.

Stephania fechou a garrafa do café com a tampa, colocou a toalhinha de lado e saiu pisando firme. Havia prendido o cabelo naquela manhã, colocado o brinco de argola e passado batom o que não era bom sinal.

Voltaria logo mais, por volta de 11 horas, pra esquentar o feijão e fritar o bife, sem o qual o marido não ficava. Desaparecer traduzia-se em qualquer coisa como: Esqueça-me por algumas horas, querido. O tempo suficiente pra que eu coloque a cabeça no lugar.

E Stephania desde menina sempre tivera a cabeça no lugar. E ele sabia disso. E, talvez por isso, a vontade sua era amassar e engolir aquele jornal. Porque sabia que os minutos se tornariam horas até que Stephania voltasse.

E ele estaria ali mofando e se remoendo dentro daquela casa, enquanto Stephania, coitadinha, faria tudo pra manter a cabeça no lugar. Até que soltasse o seu último gemido de prazer: Carlão.

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