sábado, 26 de setembro de 2009

SÁBADO


Sábado, 3 da tarde. Alguma coisa diferente acontece. Agita-se a mente e o coração inquieta-se. E é assim desde os 17 anos quando descobri que sou coração e mente; sou feito disto. E nada, além disto.

Já caminhei pelo centro da cidade, que é o único lugar onde ainda consigo me sentir como se realmente estivesse na minha cidade, onde nasci, fui criado, estudei, casei e me ferrei, o quê mais? Onde mais? Por que mais? Chega. Chega de tanto mais.

Eu me sinto assim, em casa, quando estou no centro da cidade porque ali eu passo pelas pessoas e elas passam por mim e não olhamos um na cara do outro. E eu detesto olhar na cara das pessoas. Sobretudo daquelas que não conheço.

As poucas amizades que fiz foram todas por acaso. E considero essas amizades muito mais do que consideraria qualquer parente. Exceto alguns. Primos, em geral, porque toda regra tem exceção. Infelizmente.

Prefiro os amigos. Eles não me pedem favor, dinheiro e nem me exigem sacrifícios os quais meu orgulho repudia.

Dia desses, eu peguei ônibus errado e fui parar na periferia da cidade. Uma região inóspita até poucos anos, e assim estaria, não fosse um iluminado alcaide implantar um projeto habitacional.

Depois de idas e vindas por ruas esburacadas e barrentas, o ônibus foi parar dentro de uma propriedade rural, levantando poeira e espantando o gado que pastava próximo à cerca.

É nessas horas que me arrependo de não ter estudado mais. Ando realmente incomodado por isso. Estou cansado de ver certos idiotas que sabem bem menos do que eu, que fizeram bem menos do que já fiz, que podem bem menos do que eu posso, enfim, um bando de cabaços e medíocres, metidos à besta me esnobarem. Ganharem dinheiro e prestígio às minhas custas. Estou cansado. E pra ser sincero arrependido. Passei os últimos anos de minha vida atirando pérolas aos porcos.

Estou ficando cego de um olho, tenho câncer no pâncreas, um tumor na cabeça, e se fizer algum outro exame indicará que tenho diabetes. Pouco. Ainda falta a neoplasia maligna da próstata. E talvez alguma amputação.

E tenho 40 anos, nenhum tostão no bolso, e agora são vinte e duas horas e dois minutos. E sabe de uma coisa o que eu mais lamento, juro por Deus, é saber que vinte anos atrás, há essas horas, eu já tinha tomado uma garrafa de vinho da pior qualidade, meia dúzia de chopes, fumado um maço de Carlton, um raro prazer, e beijado duas ou três menininhas. Na boca.

Agora estou aqui. Trancado nesse maldito quarto, cujas paredes estão mofando, soterrado por livros, cadernos, jornais e papéis e anotações e latas de Coca-Cola, maços de cigarro vazios e amassados sobre a mesa, tocos de cigarro no cinzeiro que, um descuido de minha parte fez cair ao chão há instantes atrás. E ela, ela também está aqui: a imprestável, vadia e repugnante, porém minha fiel companheira esses últimos anos: a solidão.

E poderia não ser assim. Mas eu quis. E olha o que deu. Quis ser bom, quis atirar pérolas aos porcos, quis dar minha inteligência escrevendo para um bando de conformados que algum infeliz em determinado momento do século XVI ousou chamar de: Brasileiros.

Fosse eu um jornalista de direito porque de fato sou, enfim, tivesse tirado, porque neste país, diploma é algo que se tira como qualquer outro documento, e estaria com certeza trabalhando na redação de um desses jornaizinhos boquetas da cidade, ganhando uns trocos pra sustentar o vício, pagando a pensão pros filhos e pra patroa, assim, escrevendo, o lead, materiazinhas pagas, a lojinha do Paulão que vai inaugurar, o aniversário do Romeu, a chamadinha de primeira página pra bajular o prefeito, cinco linhas para o vereador amigo, notas pinçadas da Internet, releases de empresários de artistas e clubes sociais, assessorias de imprensa... E eu diria, com a maior cara de pau e sem nenhum pudor: Editor, veja bem, não esqueça que fui eu que escrevi.

Reportagens? Nada disso, pra que haja, depende do fato inusitado. E uma cidade como esta é terrivelmente desprovida de situações semelhantes. Aqui ninguém se mata na frente das câmeras, lojas não explodem e, vez em quando, apenas, matam uma criança. Por falar nisso...

Mas o maldito dinheiro estaria aqui no bolso. No meu. Tá certo que eu teria de fazer diariamente o que mais abomino que é puxar o saco das pessoas que hoje, talvez amanhã, possam me prestar um favor.

Não por acaso, enquanto escrevo estas linhas, ouço “Where the streets have no name” na versão high society bicha lôca dos garotos da pequena loja.

E meu amigo formado em Geografia preferiu trabalhar de atendente atrás de um balcão. Porque já não acredita neste país, na educação pública, já não acredita nas pessoas, mais preocupadas com a fatura do cartão de crédito.

E há 20 anos tínhamos 20 anos, e bebíamos sábado à noite, e amávamos sábado à noite. E a noite parecia não ter fim.

Há 20 anos, estaríamos dali 20 anos, ricos, belos e malditos. O que sempre desejamos. O que sabemos ser.

Agora são 22 horas e 31 minutos, sábado, setembro, 26, 2009.

Tá. Que estivéssemos sete palmos abaixo do chão. Nossa história aqui estaria pra ser contada por alguém, não por mim, e de modo diferente. Mas seria história do mesmo jeito.

E tenho agora a certeza que seria bem melhor assim.

Um comentário:

  1. Parabéns Jota, e olha que 20 e poucos anos atrás eu fazia o mesmo, vinho, cerveja ,rock e tudo o mais.Você é um escritor incrível cara.Felicidades.

    ResponderExcluir