domingo, 4 de outubro de 2009

BORBOLETA


As paredes do prédio abandonado eram enormes. Havia um portão de ferro maciço à espera de uma demão de zinco. A calçada portuguesa estava deteriorada em vários pontos. Junto à guia a sujeira acumulava-se por toda a extensão da rua de uma esquina a outra. Há 10 anos um artista plástico pendurara-se num balancinho e descera do telhado até o chão pintando a enorme parede com figuras geométricas, abstratas e coloridas. Por último, pintara uma enorme borboleta. Eu achara desperdício senão estupidez afixar uma enorme e bonita borboleta preta com pigmentos amarelos na parede do prédio abandonado. É certo que de qualquer ponto num raio de 1 quilômetro a borboleta podia ser vista. Estática como num vôo eterno.
Sempre penso nisso quando passo por aquele lugar. Onde durante décadas funcionara a cervejaria que para o ufanismo desmedido dos habitantes locais produzia a melhor do Brasil. Muitas vezes desejei ser um pássaro para libertar aquela borboleta. Mas, preocupação maior me causa as roupas que ando perdendo. Quase todas. Engordei muito no último inverno. Minha calça preta, minha camisa cor de chumbo. E as demais, cor de vinho, marrom, cinza, azul marinho. Calças e camisas. As pessoas não entendem porque prefiro as camisas de mangas compridas mesmo no verão. Talvez não saibam que há vários tipos de tecidos. Eu prefiro também os sapatos. Sapatos de cadarço. Mas acontece que meus pés não se acostumam com eles.
Não sabem as pessoas... Ora, muitas coisas elas não sabem sobre tecidos, roupas e sapatos, e borboletas e sobre mim. E convivem comigo. E imaginam me conhecer. Não. Elas não me conhecem. Se me conhecessem, se soubessem me repudiariam. Ainda mais.
Atravesso a rua e caminho até a loja de conveniência do posto. Entro pra comprar um chiclete. E acabo comprando também uma Coca-Cola em lata com os últimos trocados que tinha no bolso. Ora, quando foi que eu tive dinheiro nessa vida como gostaria de ter? Talvez, se o tivesse não estaria mais aqui. Já teria-me desastrado, encontrado o destino debaixo de algum caminhão. Ou estaria de novo naquele inferno. Aquele onde as paredes são pintadas de branco, os homens e as mulheres vestem uniformes brancos e nós vestimos aventais. Brancos. E andamos descalços. Quando não rastejamos.
Tenho observado. Minhas letras tornaram-se miúdas com o passar dos anos. Agora elas enfrentam uma maior dificuldade. Minha mão direita, com a qual escrevo está tesa. Os dedos quase não se movimentam. O lápis não corre solto sobre o papel como antes.
E eu sempre escrevi por assimilação àquilo que sinto. Mas desde alguns dias para cá escrevo apenas o que vejo. E o que lembro. E o que lembro é quase nada. Como a borboleta desbotada pelo tempo que vai desaparecendo da enorme parede aos poucos.
Os sinos da torre de Santa Cruz me avisam que são 11 horas da noite. Atravesso a Avenida Visconde, passo pelo Mercado Municipal onde cruzo com alguns rapazes e moças sentadas nos bancos da praça. Pedem-me um cigarro. Digo-lhes que não fumo. Minto. Tenho dois. Amassados e soltos dentro do bolso da camisa. É pra logo mais. Preciso me acalmar. A luz está cortada e eu preciso trabalhar à luz de vela. E minhas vistas já não servem pra isso. O papel fica ensebado, a ponta do lápis quebra facilmente, o copo d’água esquenta rápido e no jarro não há muita água disponível. E é uma série de coisas desagradáveis com as quais sou obrigado a conviver. E não é por amor à Literatura. Porque eu odeio essas falácias. É porque realmente não consigo sarar dessa doença.
Acabou-se a fita da máquina de escrever. O computador, eu tive de vendê-lo pra pagar dívidas. Não consegui muito dinheiro não. O objeto já estava obsoleto. Já não funcionava como deveria. E graças a Deus que o vizinho já terminou o culto evangélico que todas as terças-feiras ele realiza na sua casa onde reuni um bom número de pessoas. Todas muito gentis, e sempre dispostas a um sorriso. E bem vestidas. Mas acontece que eu não resisto ao mau hálito das pessoas que falam demais e fazem jejum cinco vezes por semana. E eu preciso...
Sabe que enquanto passava pelo Mercado Municipal e cruzava com aqueles rapazes e aquelas moças, eu estava pensando se não poderia terminar de outra maneira as coisas. Sim, afinal, um sujeito de 40 anos que se apaixona por uma de 20. Ora, isso não tem futuro. Nas mãos, evidentemente, de um escritor menos hábil, o que não é o meu caso, já deu pra perceber, não? Eu espero que sim.
Talvez, se ao invés de um coque elegante ela usasse cabelos curtos. E ele, ao invés do smoking, um blazer. Poderiam eles se conhecer na fila do supermercado como nos filmes americanos. E não num salão de baile.
A idéia do amanhecer na cena de abertura é exatamente porque o dia tem o tirano poder de aniquilar todo o encanto da noite. O destino não conhece o ontem. Este poderia ser o título. Mas já usei a maldita frase em algum lugar. Acabo de acender o último cigarro. Levanto-me. A vela já está se apagando. Abro a porta do quarto, apóio no batente e fico a observar o corredor. Tentando com desespero encontrar um modo diferente de escrever tudo o que já foi escrito.
Detesto velórios. Mas têm um que cruza o meu caminho todos os dias. E eu corro para a sala de espera do hospital. Onde a velha moribunda resiste em me deixar. Ela tem um nome que parece um enunciado. Alguns o consideram uma poesia. Eu, uma prosa mal acabada: Literatura. Que para mim ao menos essa noite chamou-se: Borboleta.
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BORBOLETA
Seg, 26 de Outubro de 2009
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