sexta-feira, 30 de outubro de 2009

MENINAS ESCREVEM DIÁRIO, MENINOS ESCREVEM ROMANCE


Enquanto criança, eu quis muito uma máquina de escrever. Dessas que fazem TÁC-TÁC – TATÁC – TÁC. E ZIMBILUBILUM quando você tira a folha do carro. Assim, rapidão.
Você aí...? Não me olhe torto não, viu. Se sua máquina não faz essa barulhada a minha faz. Azar o seu.
Onomatopéias. Quando pensei que as usaria para escrever. No meu ranking de aspectos detestáveis da Literatura ela só perdia para a rima até então.
Estudei Parnasianismo na 6ª. Série. Bilac: Porque o escrever - tanta perícia,
Tanta requer” – Profissão de Fé.

Era legal. Você tem que pensar assim, sabe, quando senta a bunda na carteira da escola. Tem que ser curioso. Então a coisa toda desce bem. Desde Trigonometria até Parnasianismo. Passando por ventos alísios, monções. E amebas, átomos e citoplasmas, méson-pi, Zé de Alencar. Ô coitado! O escritor. Bem entendido. E tudo ficará – melhor não digo – mais fácil, talvez, se você deixar o Lavoisier contente.
Castro Alves. Eis um bom sujeito. O Beraldo do Aquarius também é um bom sujeito. E ambos são poetas. Alves dos Mares e dos Negros. E Beraldo, da informação. Da boa informação. Que na preferência do jornalismo anda meio esquecida.
Eu cresci e não tive a minha máquina de escrever. Não tive carro. Não tive moto. Não tive namorada. Nenhuma medalhinha, sequer de bronze dos Jogos Infantis. Tive sim, vontade. De ir embora. Rumo ao desconhecido. Largar tudo para trás. Família, escola, amigos, religião. Pronto. Solução. Resolvi escrever. Meninas escrevem diários. Meninos escrevem romances. Não lembro quem me disse isso. Deve ter sido durante um sonho. Tantos já houveram. É houveram mesmo? Ou é houve. Depende. No caso em questão é houve. Claro. Tá me dizendo isso o tracinho verde debaixo de houveram.
De fato e de direito nunca aprendi porra nenhuma sobre Língua Portuguesa. O que sei, se sei, foi por assimilação, repetição, conclusão. Geralmente óbvia. Aí o pessoal do CLIRC vai dizer: Como? Então como pode escrever? Ora, sei lá, não perguntem a mim. Eu apenas escrevo. As idéias não mo pertencem. Elas chegam até mim. E sabe-se lá o Capeta porque me escolheram. Azar do Capeta.
Tudo o que sei é que nada sei. Isso é plágio. Vou responder na Justiça por isso. Daqui, eu creio, 200 anos.
Na verdade, eu assimilo, mastigo, aproveito o que me apetece e o que não presta regurgito feito bode velho. Aprendi com Osvald. Bom sujeito o Osvald. Também doidão, diz a história. Mas apreciava um bom uísque. E todo cavalheiro de paletó amassado e gravata fora do lugar e cabelo caindo nos olhos, que preza um bom uísque trata-se de um bom sujeito. E, em nome da classe, revogo desde já qualquer disposição em contrário.
Eu não sei se já lhes disse isso, queridos e pacientes leitores. Mas tenho que colocar o texto na fonte Calibri 16 pra poder enxergá-lo melhor.
Sou do tipo que enxerga tudo o que não precisa. Por exemplo: rostos. Eu os enxergo onde quer que olhe: nuvens, toalhas, azulejos, pisos, vitrôs, pinturas abstratas. Pentelhos. É. Também. Pensaram que não? Pronto, olho, e lá estão. Assim. Sem maiores cerimônias. Gostam de se exibir para mim. Os rostos. Por quê? Alguém pergunte. Eu não! Pensou? De repente eu pergunto. E eles começam a falar comigo. Os rostos. Deus me livre!
Prefiro ouvir ao jogo no rádio. Deito na cama. Apago a luz. E ouço. As onomatopéias dos narradores esportivos. Faz lembrar japonês contando piada. Ninguém ri. Porque todo mundo fica achando que ele ainda vai contar a piada.
Mas agora o que ouço no rádio é o Simple Minds cantar Mandela Day. Lá se vão 21 anos. Eu vestia uma farda verde oliva nessa época. Foi quando conheci o que os poetas parnasianos chamam de amor. Mas essa história eu conto depois. Prometo.
Bom, amanhã é sábado e eu irei ao sebo. Ver se encontro algo que preste pra ler. Pode ser gibi. Ultimamente tem sido melhor e mais interessante que livros porque proporciona uma higiene mental indicada para indivíduos que estão prestes a contornar o Cabo da Boa Esperança.
Quem? Eu? Dá licença, vai! Tão me chamando lá na cozinha.
Foto ilustrativa: John Fante (autor de Pergunte ao Pó; Espere a Primavera Brandini)
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Um comentário:

  1. Boa noite JOTA. li os textos dessa semana aqui no blog, muito bons, sempre perfeitos, é muitobom ler o amigo.

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