domingo, 8 de novembro de 2009

QUANDO PAPAI VOLTOU PRA CASA


Meu nome é Louise. Assim mesmo. Nada de z e de a ao final. Louise. Francês ou inglês? O nome, bem entendido. Olhe, eu prefiro... Ora, deixa isso pra lá. Já vou dizendo: Detesto escrever. Odeio conversar. E se pudesse ficaria trancada no meu quarto durante as vinte e quatro horas do dia. Aqui tenho tudo. Roupas, calçados, celular, perfumes, computador, som, vibrador, ventilador... Cigarros. Dinheiro. Algum dinheiro. Sim, eu tenho. Debaixo do colchão. Ou na gaveta do criado-mudo? Não lembro. Não importa. Eu penso rápido, sabe? Quando me convém, claro. Quando quero. Porque ninguém me convence a fazer o que não quero.
Tenho um namorado e ele se chama Zeca. Tá vendo? Já sou uma escritora. Eu tô mentindo, então eu sou.
E você? É o que?
Cara, fala sério. Olha pra mim e diz: O que você quer da vida?
Eu tava pensando exatamente isso dia desses, enquanto olhava para o espelho do banheiro quando de repente tocou o celular. Era o Zeca. Zeca? Preciso arrumar um nome melhor pra esse sujeito.
Como é que eu vou vender pro cinema os direitos autorais de uma estória cujo namorado da mocinha se chama Zeca. Tá certo que isso é Brasil. Mas, valha-me Deus!
Acabo de receber uma mensagem no Messenger. Como é que afinal se pronuncia isso?
Vou parar de furar as aulas de inglês. Talvez eu aprenda ao menos o Simple Present. Já seria bom negócio. Daria pra constar no currículo: Noções de Inglês. All right!
Meu pai não mora conosco. Ele ainda é casado com minha mãe. No papel. Vivo dizendo para os dois que isso ainda vai dar rolo. Acho que eles se gostam. Mas não o bastante pra viverem juntos. São dois mundos completamente diferentes. Duas substâncias – melhor assim – completamente diferentes. Feitos água e óleo. Não se misturam.
Ele odeia esses meninos com o bonezinho enfiado na cabeça, cadeado pendurado no pescoço e argola espetada na orelha. Diz que sujeito assim não tem gosto pra nada. Não sabem o que é bom. Não tem cultura. Não tem educação. E nenhum conhecimento sobre as coisas da vida.
Diz que se um dia me pegar com um desses, ele mata a nós dois. Primeiro o sujeito.
Mas o meu pai não é esse demônio como parece. Ele tem olhos verdes. É bom pra mim. Preocupa-se demais comigo. Diz que eu tenho que estudar. Que tenho que pensar com a minha cabeça e não com a dos outros. Diz também que no mundo ninguém presta, porque todo mundo corre atrás de seus interesses. Sorriem pra você. E quando você vira as costas, eles te xingam, te desejam mal e se pudessem acabariam com a sua raça e de toda sua família até a quinta geração.
Mas o meu pai me dá grana todos os meses. Por isso ele é um bom sujeito. Eu me esqueço de convidá-lo para almoçar conosco aos finais de semana, mas não me esqueço de atender ao convite da minha tia gorda e antipática, a irmã da minha mãe. Porque, afinal, a geladeira dela está sempre cheia aos finais de semana e no quintal da casa dela tem uma piscina. O antibiótico? Não tem importância. O meu pai compra depois. E a minha mãe vai passar a semana inteira abrindo massa de pastel até meia-noite pra levar algum dinheiro pra casa. Quem mandou ser mãe?
Quanto a mim? Vamos lá, pergunte. Eu sou a filha querida. Chamo-me Louise. Tenho 16 anos. E um meio-irmão que é uma desgraça. Nos dois sentidos. Pra dividir tudo o que ganha comigo. E pra me bater. Ele tem a metade da idade que eu. Mas uma força de leão. Diz que vai ser jogador de futebol. Duvido. Vai ser polícia. Ele adora revólver. Peste, feito o pai dele. Tomara que na minha estória ele seja o mocinho.
E quem será o vilão?
Claro, meu pai. Afinal, para que servem os pais?
No caso dos personagens mocinhas como eu, servem pra me dar dinheiro, pagar as minhas contas, me dar conselhos – ele se esforça coitado, mas o problema é que tenho dois ouvidos, sabe, e o que um escuta, o outro sempre acaba se apoderando, e deixando escapar depois. Que feliz dedução! Compreendi finalmente a finalidade de dois ouvidos.
Mas isso não importa. Eu preciso começar a contar logo a minha estória, antes que você se canse dela leitor. Porque de mim, duvido que vá se cansar.
Minha história começa às 10h15, do dia 14 de setembro de 2009. Sala de reuniões do Conselho Tutelar de minha cidade.
“Vou mandá-la para o Juiz de Menores” – disse o conselheiro, olhando-me muito seriamente por baixo dos óculos de aro de metal.
Ele coçava a barbicha enquanto esperava por minha resposta. E ela demorou dois minutos pra chegar.
“Quando?”
Minha mãe olhou-me furiosa, acomodou a bunda na cadeira desconfortável, e enrolou a alça da bolsa duas ou três vezes, apertando-a como certamente gostaria de apertar meu pescoço naquele instante.
Levantei-me da cadeira e afastei-me da mesa.
“Mande chamar o táxi. Odeio longas caminhadas”.
E retirei-me da sala sem me despedir.
Fiquei na calçada lá fora olhando o movimento da rua, completamente absorta pelo calor insuportável daquela manhã. Altas temperaturas me impediam de pensar direito. Minha mente estava vazia. E nenhuma importância eu dava para a conversa que teria com minha mãe ao chegarmos a nossa casa.
Na sala de reuniões, minutos antes do diálogo derradeiro narrado anteriormente a conversa havia sido outra.
“Seus pais poderão ser presos se você continuar faltando às aulas. Você poderá ser recolhida num abrigo para menores. E terá de conviver com a saudade e a solidão”.
“Boas razões pra se fazer poesia, senhor...?”.
“Milton.”
“Ok. Sr. Milton. Gosta de Literatura?”
A pergunta pareceu surpreendê-lo.
“Meu pai é escritor – achei que devia pô-lo a par do assunto – Escrevia para jornais da cidade como cronista. Até que achou de escrever o que não devia e então, estamos em Rio Claro, sabe como é... Eles o puseram de lado. E sabe, ele sempre trabalhou de graça. Nunca ganhou um tostão com isso. Conversávamos outro dia sobre isso e ele me disse chorando que jamais ganhou um dinheiro sequer com aquilo que melhor saber fazer na vida: escrever.
“Gosta de seu pai?”
“Muito”.
“Como ele é?”.
“Bonito. E inteligente. Claro, é meu pai”.
Nesse momento, o conselheiro olhou para a minha mãe, como se na expressão do olhar dela, tentasse descobrir porque motivo meu pai e ela haviam se separado. Ou... O que os impedia de se reconciliar.
“Sabe, Sr. ...?”.
“Milton”.
“Isto mesmo” – e ajeitei o cabelo com as mãos, enquanto olhava para a minha mãe, porque ela temia que eu dissesse o que ela não gostava que eu dissesse. Mas, tá bom que eu ia perder a oportunidade. Então, eu disse:
“Sabe Sr. Milton – e sorri ante a expectativa dele – A coordenadora pedagógica da escola onde eu estudo não admite que meu pai seja um escritor. Eu disse a ela que sim. E ela me disse que meu pai era um desocupado inconseqüente, um atrasado na vida. Que ele não podia ser considerado um escritor porque não tinha um livro publicado. Eu disse a ela que meu pai tem sim muitos textos publicados em jornais, revistas e sites especializados em literatura, e tem dois sites pessoais. Mas ela insiste que não. Paciência. Há pessoas no mundo que resistem enxergar o óbvio por mais inteligentes que se considerem”.
“Fosse esse todo o problema do mundo, querida” – disse o conselheiro, amavelmente enquanto mexia na sua esferográfica sobre a mesa.
“Tem mais – eu disse – A irmã do meu pai...”.
Aí sim, minha mãe fez menção de retirar-se da sala, mas foi impedida de fazê-lo ao sinal do conselheiro para que permanecesse.
“O que tem a irmã do seu pai?” – disse ele.
“Ela o detesta. Pensa as piores coisas dele. Coisas que na verdade não se justificam porque meu pai é um bom sujeito. Mas ela tem a maldita mania de olhar pras pessoas e querer adivinhar sobre suas vidas. Tira conclusões precipitadas, acusa, ofende, depois aparece pra pedir desculpas. E meu pai se cansou dessa baboseira toda. Dessa falsidade toda. Essa pobreza de espírito. Para atingir ao meu pai, a irmã dele maltrata o pai de ambos, meu avô, que mora com ela. Porque ela sabe a relação de amizade e carinho que um tem pelo outro. E ela tem inveja disso. Porque ela não sabe o que é isso. O que é ter bons sentimentos em relação à outra pessoa. Ela é fria, calculista, insensível. Não ama nem a si mesma. Como pode amar aos outros?”.
“Louise! – interrompeu minha mãe – Agora chega”.
“E por que está me dizendo tudo isto mocinha?” – disse o conselheiro.
“Porque meu pai tem mágoa dela por isso. Hoje, ele sequer consegue olhar nos olhos da própria irmã. E meu pai está no fim da estrada, sabe, Sr. Milton. E ele vai embora com essa mágoa dentro dele. E ele não merece isso porque é um bom sujeito. Ele tem bom coração. Pode ser um derrotado para mim, para o senhor e para todo mundo. Mas como ele diz: E daí? Se a morte iguala a todos. Ele escreveu dia desses em seu caderno de notas: “Nasci chorando. Vou morrer fedendo. Quê glória pode haver nisso?”.
“E você concorda com ele?” – disse o conselheiro.
“Eu ainda não descobri. Tenho apenas 16 anos. Talvez eu descubra quando tiver 44, assim como meu pai”.
O resultado da conversa foi que eu voltei a freqüentar normalmente as aulas. Minha mãe voltou chorando pra casa. E meu pai...
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QUANDO PAPAI VOLTOU PRA CASA
Qui, 05 de Novembro de 2009
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