domingo, 22 de novembro de 2009

O EPÍLOGO DE TÔMAZ ADLER


As frustrações de Tômaz Adler eram duas: não ser músico, e não ser pintor. Com a primeira, até se conformara. Mas, com a segunda, estabelecera uma relação de antipatia e desprezo. Dizia que se fosse pintor produziria rabiscos e seria considerado artista de vanguarda.

Por tudo isto, odiava a Literatura. Porque esta o havia aprisionado. E como toda megera, queria também destruí-lo.

Em princípio, ofereceu-lhe a ilusão de alguns bons textos. Coisa comum e desprovida de novidade, nada mais, nada menos, do que o mais do mesmo, mas que serviu para estimulá-lo e lhe dar confiança, como faria a garota bonita da escola que corresponde com um sorriso tímido ao olhar interessado do garoto que sonha acordado com seu primeiro beijo.

Depois, Tômaz descobriu que além dos contos, poderia escrever romance. Na primeira tentativa, êxito. “Ah! – disse Tômaz – Eu te amo, Literatura!” E, na segunda, uma transa inesquecível: “Literatura, querida, como você é linda!. Não sei viver sem você!”.

Mas então, veio a convivência diária e o namoro de adolescente, tornou-se relação estável. Tômaz atingiu a maturidade. Mas nada de casar. Porque a Literatura é uma dama refinada da alta sociedade e exige dotes vultuosos, algo bem acima, infinitamente acima das possibilidades de Tômaz.

Chegou o momento em que ele já não sabia mais o que fazer. Tão grande se tornara seu amor pela Literatura, que já não lhe bastava mais vê-la aos finais de semana, como um casal de namorado que trabalha e estuda de segunda a sexta-feira. Queria tê-la todos os dias, e vê-la a todo instante. Ouvi-la já não lhe permitia abrandar a saudade.

Chegou o inverno naquele ano. E viera mais intenso do que nos anteriores. Tômaz recolhia-se no inverno. Refletia sobre a vida. E ao fazê-lo, daquela vez, percebeu que embora ainda amasse a Literatura, ela não lhe despertava mais as mesmas emoções.

Tômaz queria novidade. E ao caminhar pela Avenida da Paz, em meio à cerração, daquela manhã de Julho, sentiu que estava por acontecer algo que mudaria sua vida.

Naquela mesma noite, recebeu um telefonema de alguém que conhecia apenas de vista e pelo nome, mas para o qual nunca houvera sido apresentado.

Confirmou, depois, suas expectativas. Aquele senhor de nome Jornalismo era um sujeito encantador, disposto a tudo por uma boa conversa e disposto mesmo a lhe pagar bom dinheiro por uma transa agradável sem compromisso.

Tômaz se deixou seduzir facilmente. Ao lado do Jornalismo, descobriu que podia beber até cair, e ganhar algum dinheiro. Não precisava passar noites inteiras acordado, olhando pras paredes, como fazia junto da Literatura, que o havia ensinado a conviver todos os dias com a eternidade ou a ausência desta.

Com o Jornalismo, a vida nunca era a mesma coisa. Era intensa. Minutos eram preciosos. E as idéias, eram nada perto dos fatos. O sonho não existia. O mundo era real. E, às vezes, por demais real.

Da excitação dos primeiros dias de amor intenso, Tômaz percebeu que havia chegado para ele o momento mais incômodo do ser humano: o de fazer escolhas.

Não poderia amar ao mesmo tempo a Literatura e o Jornalismo.

Passou dias e noites pensando o que fazer. Até que decidiu. Nem um nem outro. Escolheu a si mesmo.

Naquela manhã pegou suas coisas: mochila, par de tênis, muda de roupa. Foi morar numa pensão. Sozinho.

Meses depois, trabalhava como carteiro numa cidadezinha alguns quilômetros distantes da sua.

Nunca mais ouvira falar da Literatura, tão pouco do Jornalismo.

Não seria o Mário de Skarmeta, muito menos o de Favari. Deixara de ser Tômaz. Era apenas um carteiro. Era gente. Sim. Pela primeira vez na vida. E estava disposto a sê-lo até o fim dos seus dias.

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