sábado, 26 de dezembro de 2009

O TEMPO NÃO PÁRA


O rio-clarense ama a cultura, mas não tem o hábito de cultivá-la. Se ninguém disse antes, a frase é minha. Anotem em seus caderninhos, por favor. Patrulheiros ideológicos não se descuidem. Apontem o lápis e registrem o acontecimento. Porque daqui alguns anos esta máxima será motivo de debate.

O Jornal Regional, por sinal, cada vez melhor (um abraço Alba!), publicou no Caderno Acontece, à página 15, na edição especial de quinta-feira, 24, véspera de Natal, matéria intitulada “Publicação Movimentou os meios Culturais”.

Trata-se do Jornal O BETA, publicação voltada para a cultura e o entretenimento que circulou em Rio Claro e região entre 2006 a 2008, do qual, este aprendiz de escritor formou na equipe de redatores ao lado de feras como Ricardo Leão, Sechi, Lourenço Favari, Anselmo L.C, Michelle Dayane, Bruno Nicoletti, Juliana Vieira, Renan Prado, Kathy Rebustini entre outros.

O mentor de O BETA, que saibam todos, foi Favari Filho. Ele idealizou, organizou e fez a coisa acontecer. Sou suspeito pra falar do Lord, pois todos sabem da nossa amizade. Mas, à parte a relação afetiva é preciso dizer da capacidade desse amigo escritor e jornalista. Ele possui uma virtude rara entre aqueles que se metem a produzir cultura e arte. Sabe enxergar a coisa, projetá-la, organizá-la, mobilizar as pessoas à sua volta e enfim, fazer acontecer. O Jornal O BETA é prova disso, assim como o Grupo Auê de Cultura e Artes, recém criado e outras iniciativas suas.

Favari foi o meu primeiro editor. Depois, José Roberto Sant’Ana, do Jornal Cidade e André Luiz Miranda de O Jornal. E se alguém souber o nome do editor do Jornal Diário, no período de 2004 a 2007, por favor, me informem porque ele ou ela, também publicava meus textos, nos tempos em que a imprensa escrita de Rio Claro ainda não havia colocado meu nome no seu caderninho preto. E se alguém souber o motivo disso, por favor, me conte. Prometo guardar segredo.

Espero um dia ver o Favari Filho secretário de cultura de Rio Claro. Não sei quando irá acontecer. Mas acredito muito nessa idéia. Jovem, ousado, dinâmico, bem quisto pelo pessoal que produz arte e cultura nas terras indaiás. E mobilizador. Além de formado em Letras. Por que não? Quando competência e meritocracia pautarem as ações de governo seja qual for o grupo que detenha o poder local, isso poderá acontecer. Afinal, a auspiciosa Secretaria já teve como titular da pasta, entre outros, indivíduos paparicados pela intelectualidade e pela imprensa rioclarense, que pouco ou nada produziram no exercício do cargo e que se gabam de ter no currículo, por exemplo, um cargo diplomático em alguma grandiosa e próspera republiqueta latino-americana, onde as pessoas se matam por um prato de comida e certamente possuem tempo e disposição bastante para adquirir e consumir cultura. Ah, mas é um educador por cujas mãos passaram personalidades da cena rioclarense. Trabalhando em escola particular, onde todos os recursos estão disponíveis e onde ganha-se bem, até eu Jurema. Aviso aos navegantes: Favari coordenou um projeto junto às crianças carentes de uma escola pública da periferia levando-lhes o encanto e a importância da Literatura, da música (sim, o cara também é músico) e do teatro. Quanto ganhou por isso? Algo que ninguém pode pagar: a gratidão e o reconhecimento daquelas crianças.

Agora digam-me que estou puxando o saco do sujeito porque é meu amigo. Não. Estou expondo fatos. E contra fatos não há argumentos. Acham pouco? Pois saibam que o cara é dono de um acervo literário de dar inveja a muita biblioteca pública por sua variedade, importância e organização. E onde se encontram cópias de alguns dos meus originais inéditos que ele gentilmente se propôs a preservar.

Falei do pai da criança, falarei agora um pouco da criança. O BETA foi um menino prodígio que chegou à maturidade talvez antes do tempo. Nós nos reuníamos em princípio nas dependências da Sociedade Veteranos de Rio Claro, gentilmente cedida por sua diretoria para essa finalidade. E depois, passamos a nos reunir na casa dos Favaris. E atravessávamos a noite discutindo idéias, tomando café, preparado pela Dona Maria, e quando o clima pesava saíamos lá fora pra fumar um cigarro e espairecer a mente. Essa foi a primeira fase. A fase lúdica da coisa. Depois, já na segunda fase, O BETA chegou ao formato que eu, pessoalmente, considerava o ideal. E aí, pum, acabou. Por que acabou? Até hoje me perguntam isso. Há algumas versões, todas elas lendas, podem apostar. A única verdadeira: Acabou porque a grana acabou. E não tínhamos os Médici, os Matarazzo, nem o Freitas Valle para nos apoiar.

Não ganhamos, é lógico, dinheiro com isso. O BETA era distribuído gratuitamente. Não tinhamos patrocinadores. Primeiro, por opção. Isso nos proporcionava independência. Depois, por falta de capacidade em consegui-los uma vez que éramos aspirantes a escritores fazendo jornal. Não sabíamos vender. Como podia dar certo? Mas aprendemos muito. E fizemos, acredito, um trabalho de qualidade. Dava tesão fazer aquilo. Era bom demais fazer entre amigos o que se gosta. O BETA tinha um jeito peculiar de fazer entrevistas. Os redatores elaboravam suas próprias perguntas de acordo com suas vontades e seus interesses. Não havia pauta. E assim as entrevistas tornavam-se dinâmicas e interessantes. Desse modo, tivemos contato com rio-clarenses, nascidos ou radicados, que realmente merecem admiração e respeito. Jaime Leitão nos revelou suas crenças e seu horror aos acadêmicos servindo-nos o inigualável Ballantinne’s 12. Paulo Rodrigues nos legou seu testamento ideológico. Sandroni contou-nos sua carreira brilhante que merece destaque. Curinga, o Luiz Carlos Rezende, atual diretor de cultura popular de Rio Claro falou-nos da história e das perspectivas do mal compreendido movimento Hip-Hop. João Paulo Miranda nos deu uma aula de cinema e nos proporcionou uma recepção memorável. E Aldo Zotarelli Jr., por duas vezes, gentilmente nos atendeu para uma ótima entrevista editada na versão derradeira de O BETA que não chegou a ir ao prelo mas que está preservada. Foi quando em primeira mão comentou sobre o seu romance "Névoas" recém publicado e que, naquela oportunidade, estava escrevendo.

Verdade seja dita, ainda que isso incomode certas pessoas. O BETA sugeriu uma revisão na cobertura jornalística da cultura rio-clarense que passou a ter mais espaço e maior atenção por parte dos jornais comerciais.

Mas, já dizia o Renato: "Os bons morrem cedo". Morto e sepultado, talvez O BETA ressucite ao terceiro dia. De que ano, sabe-se lá.

Então fomos abrigados pelo André Miranda que nos abriu espaço em O JORNAL. E aí surgiu a página intitulada BIBOCA. Mas isso é uma outra história...

Acham que agora me derreto em lágrimas? Não. Todos nós que fizemos O BETA continuamos firmes e fortes trabalhando em nossos projetos pessoais. E se voltaremos a nos reunir um dia? Pra fazer um jornal de novo, acho pouco provável. Pra fazer qualquer outra coisa tão boa quanto aquilo? Provavelmente. Porque somos bons mesmos naquilo que fazemos. E somos amigos.

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