quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DESIDERATO


Houve uma tarde em que, ao me lembrar de todas as laudas amassadas, as frases rabiscadas e substituídas por outras; as versões desprezadas que não me satisfizeram; um dia, ao me dar conta de que desde os 17 anos eu tento aprender a escrever, embora desde os 5 anos de idade eu já “escrevinhava”, sentado na escrivaninha, colocada na cozinha lá de casa, enquanto minha mãe cuidava de seus afazeres. Quando me lembro que As Aventuras de Nick Adam’s foi o primeiro livro ao qual me detive para prestar atenção. E vi na capa aquele homem de barba e cabelos brancos, olhar cansado e sofrido; e me perguntei sem entender como era possível que uma pessoa pudesse escrever tanta coisa e tanto assim. Porque uma ocasião, quando eu tinha 9 anos, eu folheei rapidamente aquele livro e não pude compreender isso.

Quando me lembro que sempre fui um aluno nota 5 em Língua Portuguesa; que minhas redações jamais chamaram atenção das professoras e dos colegas de classe, exceto uma vez quando riram daquilo que eu achava fosse um conto de terror.

Às vezes, paro pra pensar por que motivos eu enveredei por esse caminho?

Eu passei os melhores anos e os mais importantes de minha vida tentando aprender a escrever. Por quê?

Alguns arriscam a dizer: Puxou para o pai. Sim. E não. Meu pai se preocupou em virar gente. E virou. Teve uma profissão, foi marido, pai, filho, avô. E professor, quando ensinou crianças cheias de sonho e esperança a jogar futebol. Enfim, fez bem feito, tudo o que eu não fiz. E embora as pessoas conheçam mais a minha escrita do que a dele, essa injustiça talvez o tempo haja de consertar.

Não pense que sou feliz por escrever e publicar e receber elogios ou críticas. É tão pouco. Falta-me vida. Sou um personagem de mim mesmo. Foi o máximo que obtive.

Eu queria muito que não fosse assim, mas, eu olho adiante e não vejo horizonte, não vejo nada. Porque o que não posso ver caminha ao meu lado. Está à minha espera.

Nesses anos todos tive algumas certezas que não resistiram ao tempo e às circunstâncias. Nunca cheguei a ser um escritor, nunca tive um livro publicado. Não conquistei o espaço que sempre desejei. Porque fui buscá-lo sem armas, nu, sem poder lutar do único modo como sei: derrotando inimigos, avançando divisões, rompendo fronteiras.

O Kardecismo foi um freio em minha vida. Impediu-me de fazer inúmeras bobagens, impediu-me de matar e morrer. Convenceu-me de minha eternidade. E ensinou-me que no palco da vida há espetáculo todos os dias e representamos vários senão todos os personagens. Haveremos de ser nobre e plebeu, e quando não, estaremos na coxia, envolvidos em penumbras, abrindo e fechando a cortina para que outros brilhem, porque é o momento deles de brilhar e não o nosso.

Refletindo sobre esta minha vida, pergunto-me como encontrar respostas que não seja nas causas concebidas numa outra existência ou muitas outras antes desta.

Houve uma tarde que, pensei porque motivos eu não plantei a semente lá em cima para cá embaixo somente colher os frutos. E a resposta que obtive é que o criminoso sempre volta à cena do crime.

Hoje, mais do que nunca acredito que eu terei paz e serei feliz, enfim, encontrarei um caminho que me leve a ser apenas mais um, uma gota d’ água no oceano, quando eu deixar de escrever.

Mas seria como despedir-se de um amor. Um amor eterno. E ainda não estou preparado para isso. E se eu escutar o meu coração e olhar nos olhos da minha mente a resposta será de que jamais estarei.

Então o que faço? O que me resta fazer senão seguir adiante? Feliz por ter encontrado no final da minha tarde o brilho de uma luz que se chama Adriana, a melhor e a mais importante coisa que a Literatura me deu. Feliz e satisfeito por ter conquistado leitores. Meia dúzia. Moram todos no meu coração. E é por eles que hoje ainda escrevo.

Sigo adiante. Sigo. Sempre fiz isso. Vi a neve, a chuva, e o sol, e cheguei até aqui. E a Literatura veio comigo, a crença no ser humano muito mais do que em Deus, também. E o amor à natureza. E a certeza de que a vida é um barco em alto-mar, sujeito à calmaria e à tempestade, à abundância e à miséria, e que sabe que o destino não conhece o ontem.

2 comentários:

  1. Como diz a canção do saudoso Gonzaguinha:"Viver!
    E não ter a vergonha
    De ser feliz
    Cantar e cantar e cantar
    A beleza de ser
    Um eterno aprendiz..."

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  2. A vida realmente é um eterno aprendizado, as vezes não entendemos os caminhos a que ela nos leva ou que deixamos ela nos levar. Quando atingimos certa idade (como eu), olhamos para trás e pensamos num monte de coisas que poderiamos ter feito e não fizemos. Sabemos que existe aquele negocio chamado "livre arbitrio", mas o que não sabemos é que se o resultado da escolha vai ser bom ou não. A única coisa que sei é que temos muitíssimo que aprender, qualquer decisão que tomarmos sempre ficará uma sombra de dúvida sobre algumas coisas, somos humanos falíveis até o talo!

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