sábado, 12 de dezembro de 2009

ENVELHEÇO NA CIDADE


Lembro-me como se fosse hoje.

Não encontro maneira menos original de se começar uma narrativa. Portanto, vai essa mesmo.

Lembro-me como se fosse hoje... Havia esperança. Um motivo. Ou melhor, todos, para acreditar que as coisas pudessem ser diferentes. Já naquele tempo não eram nada boas. Mas aos 15 anos olha-se adiante e encontra-se um caminho. Aos 40 encontra-se um muro. E não se sabe como, e não se tem como ultrapassá-lo.

Normalmente, aos 15 anos, olha-se para os lados e encontra-se o pai e a mãe e isto dá segurança e, de alguma forma, certeza, de que se conseguirá com o tempo realizar tudo o que se deseja. Encontram-se os amigos, e eles costumam ser o melhor refúgio. Encontram-se também os irmãos mais velhos e, apesar da companhia inconveniente que eles geralmente representam também servem de estímulo para que sejam superados. São pequenos demais para serem muros. Porque aquele que é grande e bom sabe que é, ainda que seja mais novo.

Mas o monstro a dominar e vencer não está dentro de casa, está lá fora. Além das quatro paredes do aconchego do lar. E esse monstro se chama vida. Ali não basta apenas ser bom. É preciso ser fera. Insaciável. É preciso derrubar oponentes, conquistar o respeito de possíveis adversários. Nem que para isso seja preciso usar a força e o medo.

Mas, o bom que não gosta de briga, não gosta de pedir favores, e bajular ninguém é um derrotado. Por melhor que seja moralmente e naquilo que faça. Um derrotado. Porque neste mundo, quem não desembainhar a sua espada e não transpassar o inimigo será sempre um derrotado.

Normalmente se descobre isso com 20 anos. Mas até aceitar essa desprezível realidade leva mais vinte. Mas aí se depara com o muro a frente. E nada se encontra seja qual for a direção para que se olhe. E já não se tem força, motivo, um sequer para acreditar que as coisas possam ser diferentes. Para imaginar por mais idiota que seja que é possível ultrapassar o muro.

Então o derrotado torna-se aquele, o único talvez, capaz de compreender e aceitar o mistério da vida humana. É a sua recompensa.

Para ler ouvindo "Heaven and Hell" - Vangelis (1975)

3 comentários:

  1. Texto belo e forte, onde consegue demonstrar o que é a vida realmente, escrevi um conto "Passos no quintal" que fala sobre os monstros do outro lado do muro, mas na visão de uma criança bem pequena.Parabéns amigo.Arnoldo Pimentel

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  2. Amigo, que tal pular o muro?Sei que é possivel e capaz de se encontrar algo apaziguador do outro lado...ou talvez um outro muro ainda mais alto... a vida é assim mesmo...abraços

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  3. Eu conheço esse muro, e muitas vezes cheguei a desanimar com ele, mas sempre volto a luta e de uma certa forma consigo transpassa-lo, só que logo aparece outro...O destino é um pedreiro insaciável!

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