quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

QUEBRE O LÁPIS


Não escrevam. Começavam assim suas aulas. Um livro - dizia - tem que ser um machado para o mar congelado dentro de nós. A literatura só é digna desse nome quando descongela o sangue de quem lê". Não fui eu quem disse, explicava sem constrangimento. Foi o Kafka. Então está dito. Tenho pensado muito ultimamente se ainda vale a pena, senhores. Da maneira como tudo caminha ainda haverá Faculdade para Escritores. Se já não existe.

Merda! - esbravejava, batendo com o punho fechado no balcão do bar, onde, com seus amigos intelectuais costumava se reunir toda sexta-feira, até altas horas da noite.

Escrever para ele sempre fora um ato instintivo, irracional. Não pensava sobre o que escrevia. Dizia ver e ouvir. E escrevia. Não sabia fazer de outra maneira. Não sabia elaborar as coisas, não tinha paciência para isso. Soava-lhe como perda de tempo, esforço desnecessário. Era como repetir uma lição já aprendida. Refazer um caminho já conhecido. Para quê? Achava que escrevia porque os demônios, de alguma forma, precisavam se alimentar. Assim como a noite precisa das estrelas para ser conhecida. E admirada. O que seria do Grande Arquiteto do Universo não fosse o barro de que somos feitos? - filosofava com a latinha de Coca-Cola na mão - Onde Ele iria montar o seu teatro? Como?

Blasfêmia. À fogueira com ele! - diriam os mais exaltados

Vivesse na Idade Média não teria chegado até ali. Já teria sido cozinhado no caldeirão da Santa Madre. Se não fora. Sabe-se lá. Quando ouvia dobrarem aqueles sinos... E escutava aqueles passos... E aqueles cânticos.

Não me culpem - se desesperava - Não me sigam! Eu sou um louco a procura de si mesmo. O mundo para mim é um sanatório. A vida um estado de letargia. Lobotomia.

Não tenho vícios. Desculpem, é verdade. Não fumo. Não bebo. Não me drogo. Não preciso disso. Escrevo. Já é muito.

E os amigos tinham para com ele olhos de piedade. Os demais, de gozação.

Todas essas pessoas que dizem: Façam isso ou aquilo. - Nesse instante, era como se a ameaça atingisse a todos - Se eu as conhecesse, se estivessem ao alcance de minhas mãos, eu...

Era o ápice de sua aula. Digo, de seu desabafo.

Para quê? - perguntava-se para cada um de seus amigos com olhar ensandecido.

Vamos, façam a pergunta que me atormenta!

Mas ninguém ousava respondê-lo. Enquanto ele, rumo ao banheiro, ia tropeçando nas cadeiras com a latinha de Coca-Cola na mão.


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