terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CORREDOR

Para que a vida faça sentido é preciso ter saudade. Não sei por qual razão pensei justamente nisto quando arranquei do carro da máquina de escrever a última lauda daquela noite.
O dia passara sem que o telefone houvesse tocado uma única vez. Estranho. Não deveria ser assim. As pessoas que escrevem contos não se lembram desse detalhe. Qual? Mais adiante. Espere. Pague pra ver.
Geralmente ocorre quando se atravessa o corredor, até o fim e se depara com o espelho de moldura colorida. O final do caminho, surpresa, é você mesmo. Você começa e termina em você. Alguns chamam a isto de vida. Outros chamam de faca, cama e mesa. Só depende de quantos anos se tem. A quantidade de passos não importa. Ao final do corredor a conta não fecha e os passos não conferem, e a sensação é exatamente igual àquela do início da jornada.
Difícil? Não mais do que ler Malone Morre depois de Dostoiévski. Fica aquela sensação de vazio inabitável, vontade de quebrar o espelho, porque, afinal, tem-se a certeza de que alguma coisa existe atrás do espelho.  Alguma coisa. Parede, geralmente.
E elas me perseguem as paredes. Tão altas e tão extensas que já se tornaram muros de Jerusalém. E eu, Saladino, os encontro à noite, quando vou me deitar tentando dormir, e pela manhã, ao despertar, olhar moribundo, espírito atormentado a carregar nas costas um saco de carne e ossos e alguma porção de massa etérea cinzenta comumente conhecida como mente.
Lá estão os muros. Pichados como sempre. Frases de efeito moral. Ótimas para um escritor: 1) Você tudo pode. 2) Desde que seja diante desta máquina de escrever, e dentro da sua mente. 3) Você nada pode além destes muros. 4)Você pode ser todos que quiser ser, até a ponta dos seus dedos que coloca o teclado em movimento. 5) E nenhum, e ninguém, além destes muros.
Porque eles são os bons, os corretos, os que vestem sabedoria  e não me refiro aos muros. Cheios de pose, exímios esgrimistas na modalidade: técnicas de persuasão. Você não. Tem apenas o seu olhar. Quieto, imóvel, atento. Um olhar. Envolvido pelo silêncio eterno e imutável que provoca certo desconforto naqueles que, em cima do muro, disfarçados de amigos cordiais e benevolentes resolvem expiá-lo. Porque o consideram um ser estranho, hostil e, portanto, curioso e interessante para ser detalhadamente observado com ares de cobiça e inveja.
E eles o imaginam um ser inteligente. Consideram-no anjo. E se perdem na ternura do seu olhar quando ousam observá-lo à distância. Não sabem e sequer imaginam, por exemplo, quantos nomes você tem. Um para cada dia da semana. Um para acender o cigarro. E outro para sorver o gole do veneno prazeroso que mata pouco a pouco envolvido em dois cubos de gelo. Dois. Não mais.
Então já amanhece o dia. E se o caminho que o leva ao final do corredor já terminou resta-lhe outro. É feito de chão batido, alguns pedregulhos, coberto de primaveras mortas e folhas secas. Galhos e troncos de árvores, caídos e levados pela chuva a alguma distância, que você imagina percorrer, só, com o teu olhar sereno, quieto e imutável, porque lhe faltam pernas e vontade. E esperança. Imaginou que pudesse encontrá-la ao arrancar a última lauda da noite do carro da máquina de escrever. Mas, se havia se tornou cinzas com o toco do cigarro que o tempo consome sobre o cinzeiro. Onde seu olhar se perde, e suas esperanças agora são depositadas, como um cadáver baixado à sepultura.
É Natal e o que isso importa? Você se esqueceu mais uma vez de comprar os presentes. Inclusive o do aniversariante. Havia dinheiro e cartões de crédito e débito na sua carteira, talão de cheque em um dos bolsos da calça. Havia. Só não havia aquilo que você agora a pouco transformara em cinzas, que o vento arranca da eternidade do seu olhar quieto e leva para longe. Longe. Feito você quando deu o primeiro passo por aquele corredor em direção ao espelho. Mesmo sabendo o que encontraria ao final da trajetória. Algo que já neste instante está desfeito em mil pedaços no chão, enquanto sua mão está coberta de sangue.
Você esquece-se dos muros que o cercam e coloca outra lauda, nova, no carro da máquina de escrever. E então começa a primeira linha, a primeira frase, a mais verdadeira possível. E a palavra que vem à tona e se repete vezes e mais vezes é: saudade. Faz sentido. Faz?

Texto publicado na edição No. 85 do Jornal Cidade Livre, em 21/12/2010.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Adeus, Primavera

Sonhei com Allen Ginsberg lendo Howl para um bando de babacas abarrotando-se em um auditório. Acordei vomitando. Nada mal. Vera Fischer quase me levou ao suicídio dia desses. Descobri que ela já escreveu 10 livros. Dez? Sim. Mais do que eu. Não aceito.
Decepções. Tem sido rotina por esses dias de meu deus.
“I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked...” - Assim o guru Allen começa o seu célebre poema marco da Contracultura que, por sinal completa se não errei nos cálculos 50 anos. A tradução de Howl? Procurem-na. Mas lhes darei uma colher de chá, finados leitores. Diz mais ou menos o seguinte: Eu vi os melhores da minha geração destruídos pela loucura, famigerados, histéricos, nus, perdendo-se na aurora pelas ruas dos negros buscando uma dose violenta. Encontraram-na certamente. Afinal, busque e acharás. Vale pra todos. Ginsberg, menino oprimido dominado por estranhos, segundo o Google. Não assino embaixo. Não porque desconfio de tudo e de todos. Mas é que simplesmente não faz o tipo. Alguém consegue imaginar um menino debaixo daquele barbão, aqueles olhos ensandecidos de tão introspectivos, tímidos, inquisidores. Por Deus, o que não faz um par de óculos! Allen serviu-me de consolo, dia desses. Nem tanto por seu Howl, mas por seu barrigão. O meu não chega à mesma proporção, mas está a caminho. Pensei que se talvez voltasse aos bons e velhos Hollywood a coisa poderia mudar de ares e eu voltaria a aparentar aquela figura esbelta, esguia, espadaúda que mui bem combina com o par de olhos azuis tão cobiçados pela concorrência e o andar desleixado como quem vai adiante sem jamais ter desejado o primeiro passo. 
Gogol, Dostoiévski e Tolstói formam a trindade avassaladora da literatura russa. Sabiam? Eu também não. Aprendi dia desses. E não estava lendo jornal. Embora estivesse sentado no vaso. Gogol era o mais divertido. Lembrei-me dos finados porque estou lendo pela ducentésima qüinquagésima vez as agruras do Sr. Raskolnikóv (deve ter um “h” no meio disso tudo). Aquela parte sabe em que, logo no início ele vai tomar dinheiro emprestado da velha imunda e rabugenta. Rublo e meio. O preço do pecado. Do ódio contido. Aprendi com Fiódor, amigo umbralino de longa data a dizer eu odeio às pessoas com outras palavras. A esmurrá-las com afagos literários, a demonstrar-lhes com lirismos poéticos o quanto me são insignificantes e inoportunas em minha vida.
Não entregue tudo mastigadinho ao leitor, faça-o pensar e inquirir. O leitor deve odiar o autor, pra que a coisa faça sentido. Primeira lição de Química. Leiam as primeiras páginas das aventuras de Bandini e saberão do que estou falando. Se existe um papel social destinado ao escritor é o de promover escândalos. Perdoe-me Monsieur Dennis, perdoe-me o Esteta, perdoe-me Massenet. Entre suas teorias sublimes e o inferno de Dante eu fico com a poesia. E enfio pé na bunda bem dado em todos vocês.
Mas a coisa está ficando mesmo muito chata. A poesia saiu do papel e se perdeu na performance, no visual, no abstrato. A alma da poesia é a letra, o sangue é a força da palavra que ela contém. Que pulsa nas veias e oxigena o cérebro e faz viver. Entreguem-se aos demônios se querem escrever. Os anjos não conhecem o Inferno. Há de se pagar um preço pela ousadia da aventura humana. Há de se entregar a vida ao mármore se o que se busca é a verdade. Não aquela que está impregnada no papel, mas a que se agita na alma, no subconsciente, e aspira vida de carne e osso; aspira aplauso da platéia, formada por aqueles que querem, mas não podem ser. Uns, porque não tem coragem. Outros, porque simplesmente não são capazes. Outros ainda, porque não nasceram para isso. Batam palmas, por favor. O gelo derrete em meio a duas medidas do bom scotch. As costas doem e a cabeça gira, a respiração falta, os remédios acabaram e os demônios aqui estão. Outra vez. São persistentes. Olá, senhores, sejam bem-vindos.
Vou levantar-me. E botar de novo o pé na estrada. Meu nome é Jack.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

METÁFORAS RISCAM O CÉU

O quanto você sabe? O que pensa? De que substância é feito o amor que imagina carregar dentro de si?

Aos incomodados que se recusam bater em retirada nada tem graça porque nada é proibido, todos os excessos são tolerados, não há muro para se pular ou derrubar, não há fronteiras a atravessar, tudo se tornou perto, junto e rápido, já passou.

Mesmo assim, ainda há analfabetos, gente que morrerá de fome sem jamais saber o que é Deus. Doentes morrendo nos corredores dos hospitais. E não estamos em guerra.

Loucos não são mais os poetas, são os traficantes e quem os sustenta.

Rebeldes não são os músicos, mas os infelizes que insistem em acreditar nos espertalhões que se apoderaram de todos os princípios religiosos pra satisfazer o egoísmo e o orgulho, deles e da classe abominável quem representam.

Mesmo assim, as leis existem, sempre existiram. Leis humanas e leis espirituais. Mas lei demais significa ordem e justiça de menos, porque tudo se perde num mar poluído de direitos que visa tão somente diminuir a importância dos deveres.

Um decênio de modernidade do novo século. Muita coisa mudou. Onde? Se nós ainda somos os mesmos.

Como será a geração que chega para nos substituir? Que tela pintará no céu da eternidade?

Percorremos nosso caminho, fizemos nossa parte. E muito mal feito.

Somos soldados que ora levantamos acampamento e voltaremos para casa com a mochila nas costas e sem medalha no peito, sem histórias pra contar. E pior de tudo, sem lágrimas para derramar nos ombros da mamãe. Porque não há motivos que a justifiquem.

Eu tenho 40 anos. E você?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

JEALOUS GUY

"Se os sonhos não terminassem não seriam sonhos" - JCJr.

Imagine


John Lennon

Imagine não haver o paraíso
É fácil se você tentar
Nem inferno abaixo de nós
Acima de nós, só o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje
Imagine que não há nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião, também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz
Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só



Imagine que não ha posses

Eu me pergunto se você pode

Sem a necessidade de ganância ou fome

Uma irmandade dos homens



Imagine todas as pessoas

Partilhando todo o mundo



Você pode dizer que eu sou um sonhador

Mas eu não sou o único

Espero que um dia você junte-se a nós

E o mundo será como um só

domingo, 28 de novembro de 2010

Perdendo a vida diante das luzes

Se você ficar esperando que o tempo passe


Se os teus olhos não apontarem um caminho

Se você achar que a vida faz acontecer

Se lhe faltar a coragem

E o destemor

Pra pagar o preço

Que a felicidade exige

Então logo você perceberá

Que o seu mundo se tornou pequeno

Que as paredes em volta lhe sufocam

Que se olhar para cima não verá o céu



Se você perceber uma inquietação

A fazer um estrago dentro de si

E lhe revelar sentimentos

E lhe mostrar uma tua face

Que você jamais acreditou pudesse existir

Se chegar um momento em sua vida

Que você deve escolher entre ficar ou partir

E se lhe falta a coragem pra tomar a decisão

Que a felicidade exige

Então você terá a certeza

Que o tempo passou do mesmo modo

E que seu mundo se tornou pequeno

Que os olhares em volta lhe sufocam

Que se olhar adiante não...

Encontrará o caminho.

sábado, 27 de novembro de 2010

Losing in the life

Chega. Eu não preciso disso. Eu escrevo. Se não com esse maldito aparelho, com qualquer outro de qualquer outro idiota que se sujeite a tanto. Enfim, eu escrevo. É minha desgraça e minha sina. Paciência. Há de ser sempre assim. Paciência. Eu escrevo. Eu existo. E foda-se a vida. E foda-se a humanidade. E foda-se o mundo. Quem quiser atravessar o rio até a outra margem, atingir o céu... precisa fechar os olhos...atirar-se de encontro ao nada que é a vida... sem ilusões de sobrevivência. sem concessões.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

ETAPAS

Hoje acordei abraçado a uma convicção: pretendo dedicar-me mais àquilo que a Literatura pode de melhor oferecer: a leitura.

É que não tive tempo para isso durante todos esses anos, o que, aliás, considero uma grande injustiça, porque nada mais prazeroso do que viajar nas páginas de um bom livro. Desculpe mas o adjetivo se faz indispensável mesmo àquele que, como este reles escrevinhador despreza a categoria.

Engraçado que, para alguns especialistas, pretensos doutores em Literatura, ler muito contribui para se tornar um bom escritor. Ousei desmenti-los. Adoro fazer isso. O tempo, implacável Juiz decidirá se atingi ao meu objetivo.

Busquei obstinadamente a rara habilidade de conduzir a pena desde os meus 17 anos, desde que os miseráveis de Hugo e os crimes e castigos de Dostoievski fez estragos irremediáveis no pouco que restava de minha responsabilidade perante a vida.

Não há de se embrenhar pelo deserto ou pela floresta negra sem ao menos uma bússola. Quem disse isso? Eu. Claro, se ninguém já o dissera antes. Esta máxima é válida ao menos para aqueles que tenham vocação para o suicídio involuntário. E o norte que tal bússola oferece eu encontrei na técnica da qual o jornalismo se utiliza.

Saber, portanto, fazer a mira, apertar o gatilho e acertar o alvo me permitiu matar algumas codorninhas e estas me serviram de repasto durante minha juventude. Mas tudo, e mesmo a ousadia, a coragem e a vontade irresponsavelmente maravilhosa de provocar também. Então, aos 20 anos, eu percebi que precisava me afastar do jornalismo se quisesse mesmo ser um bom escritor que é alguma coisa completamente diferente de ser capaz de escrever bem. Às vezes me arrependo pela escolha que fiz. Podia hoje ganhar uns trocos bem mais generosos do que os que ganho atualmente.

Bem, devo admitir. Vou precisar de pelo menos mais uma dúzia de encarnações como esta para enfim conseguir ser um bom escritor. Daqueles que realmente fazem diferença entre os tantos que há por aí, por toda parte, e pra não exagerar, a cada centímetro quadrado de existência humana.

Tentei sim aceitar que as coisas podem ter o mesmo valor a partir de determinada época da vida. Mas, em verdade, isso não acontece. O tempo passa para todos. Para quem está na platéia o tempo até pode nunca passar. Mas o artista sabe quando a personagem e a mentira da qual vive passa a pesar sobre seus ombros.

Quando se senta à frente da tela de um computador e ao invés de se sair escrevendo o que vem à mente se pergunta: Por quê? É sinal de que a coisa toda não funciona mais como deveria.

Mas, por ora ainda funciona. Não a pleno vapor. Lentamente. Com a décima parte da sua potencialidade.

A Literatura é uma dama mundana parida pela mentira. E descobre-se com o tempo que ela é capaz de operar dois milagres em nossas vidas: a alegria por conhecê-la e a satisfação por abandoná-la. Fui agraciado com a primeira. Acabo ainda me convencendo da segunda.

O engraçado é que para ser admitido ao clube eu precisei consumir milhares de horas, dias e páginas, das quais restaram 97 e é onde está tudo aquilo que eu pretendia dizer. Acabo de receber o telegrama que traz a notícia há muito esperada por mim: Bem-Vindo ao Clube.


“A única coisa que justifica a existência humana é a capacidade que todos têm, ainda que adormecida, de transformar ódio em amor”. – J. Costa Jr.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

AS ALMAS NUAS DE MODIGLIANI

Há dois tipos de artistas: Os que são artistas e os que são geniais artistas. Há dois tipos de injustiça que se comete contra os geniais artistas, uma vez que são eles que permanecem na história. Cobrar-lhes coerência quanto às suas convicções, seu trabalho e sua opção política, religiosa ou mesmo a ausência destas. E, ainda, buscar em sua condição humana a perfeição encontrada na arte que produzem.

Não por acaso, é raríssimo encontrar felicidade nas pessoas inteligentes. A frase é atribuída ao escritor Ernest Hemingway, ele também, inteligente, incompreendido e infeliz. Sabia do que estava falando.

Por sua vez, Amedeo Modigliani (Livorno/ITA 1884 – Paris/FRA 1920) também sabia ao afirmar que “quando conhecer sua alma pintarei seus olhos”.

De fato, a forma, a condição, a aparência humana apenas exprime, traduz, reflete, como queiram, a alma, do que ela é feita, como é, como se sente, se chora ou se ri, em que acredita ou desacredita. Porque a alma tem vida. E a vida é de fato a alma. O corpo é apenas expressão desta vida.

Note-se que Modigliani compreendia bem isso. E era um amante inveterado, viciado em haxixe, alcoólatra, e gênio da pintura.

Um iluminado depravado. Tal contradição é insuportável para os que não entendem nada da arte da vida. Porque viver é também uma arte. É a Arte Real, em sua pura essência, de modo que pintar um quadro, escrever um romance, elaborar um poema, ou muitos, não é senão pincelar e rabiscar um instante que se eterniza da arte de viver. Que será admirado por muitos e odiado por outros, e passará indiferente aos olhos e ao coração da maioria.

Intolerável também para alguns é a certeza de que nem todos podem ser artistas e outros muito menos podem ser geniais. Porque se todos o fossem não haveria a platéia, a crítica e o artista e a arte perderia o sentido. Os sinos dobram para todos, sim, mas quem os coloca em movimento são apenas os que sabem chegar até ele.

Se não amasse como amou, se não vivesse como viveu, Modigliani não teria sido o artista que foi. Porque só se é capaz de mudar a vida quando se aceita a pagar o preço que isso exige.

Talvez por esse motivo, o Maior dentre todos morreu pendurado em uma cruz sob o olhar indiferente daqueles que deveriam amá-lo e agradecê-lo. Morreu assim, talvez, para demonstrar que nesta vida e neste mundo não há vitória possível sem dor e sofrimento. A vida exige esforço, dedicação e respeito para consigo e para com o semelhante. A genialidade exige sacrifício e renúncia. E justamente essa disposição, essa aceitação é que faz diferença entre uns e outros.

Modigliani já nasceu humilhado devido à perseguição sofrida por sua família de origem judia e arruinada em dívidas. E, enquanto criança viveu sérios problemas de saúde, dentre eles, tifo, pleurisia e tuberculose que o acompanharia a vida toda, e essa foi uma das razões para que a família se mudasse para Paris, onde o filho poderia ser mais bem tratado. O menino Amedeo já fazia desenhos e pinturas desde muito cedo, o que demonstraria o seu talento nato adquirido em existências anteriores. Ou alguém ainda acredita na história do aqui começa aqui termina?
Todavia, o menino cresceu, e a necessidade de pintar era maior que a de ganhar dinheiro com a pintura. Uma tela de Modigliani custava a vender,  apesar de todos os esforços de seu marchand, o poeta polonês Leopold Zborowski. Recentemente, “A Bela Romana” óleo sobre tela de 1917 de sua autoria, foi arrematada em Nova York por US$68 milhões, superando uma anterior, cujo preço alcançou as cifras de US$43 milhões. Mais uma demonstração de que os artistas de gênio estão sempre à frente do seu tempo. Oportuno lembrar que por ocasião da 1ª. Guerra mundial (1914-1918), a cidade de Paris, na França reuniu no bairro de Montparnasse, o que havia de melhor e mais interessante na cena cultural e artística do mundo no século XX. Ali estavam Modigliani, Picasso, Utrillo, Kisling, Miró, dentre outros da pintura, assim como, da Literatura, nomes como Joyce, Cocteau, Pound, Breton, Hemingway, o casal Zelda e Scott Fitzgerald e um tal Valentin Louis, mais conhecido como Marcel Proust.

Esperar que pessoas assim tivessem uma vida normal é perda de tempo. Porque elas amam mais do que podem e vivem para a arte mais do que devem. Modigliani não foi diferente. Amou Jeanne Hébuterne, sua musa inspiradora que, ao se dar conta de que ele jamais seria como ela sonhava e como exigia a sociedade da época, o aceitou como de fato ele era. E mais do que ninguém desejou que ele fosse feliz ao seu lado; fosse um vitorioso como, por exemplo, Picasso. Mas o espanhol não ia além do que seus olhos podiam ver. Modigliani, sim. Por isso, pintava almas. Nuas.

*Publicado no Jornal Cidade Livre, edição 77, no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 28/11/2010 e no site http://www.autores.com.br/

domingo, 14 de novembro de 2010

CONFESSIONÁRIO

Não há colorido em minhas lembranças. Há o cinza, o opaco, o sépia, o transparente. Há o que não se vê embora se sinta, e por essa razão, atormenta. É como a dor contida da qual se busca fugir, em desespero, pelas ruas molhadas de chuva e de sangue, entre mortalhas, escombros e esperança destruída. Minha vida é uma aspiração interrompida no engano de que são feitos os sonhos. É um adágio de Albinoni ao cair da noite.

Do apartamento onde morrera Verlaine eu vi os alemães desfilarem. Seus rostos pintados de palidez, seu destemor e arrogância saltando dos olhos. Minha mente está cansada e meu espírito anseia por liberdade. Não me pergunte meu nome. Que importam os nomes? Os nomes se perdem na comunhão de indiferenças de que é feito a última morada o merecido descanso, seja ele Père Lachaise ou o Batistinha.

Já não perco mais as minhas noites de sono a me perguntar se não conheci nada nesta vida que não seja as letras e os livros. Desisti da ideia que durante muito tempo me convenceu de que de fato não existo porque não sou único, todavia, muitos, espalhados na dor, na revolta, no inconformismo e na súplica sufocada das muitas vidas com as quais me deparei, e de tantas outras que vieram me visitar e acabaram ficando. Dê-se a elas o nome que quiserem. Eu as chamo de personagens. Sou aquele que viveu da arte e nela se perdeu. O italiano, o francês, o judeu, o americano e o português... o búlgaro. Sou todos eles, cada um a seu tempo. Hoje, neste país do Cruzeiro não sou nada. Desci da montanha que muitos chamam de orgulho. Vim buscar o que nunca tive dentro de mim: o amor à vida e o devido valor das coisas que realmente importam porque são verdadeiras e eternas, as únicas, as virtudes morais. Sou como um afresco de Michelangelo descolado do teto. Caído no chão e pisado pela indiferença daqueles que outrora o admiravam. E o amavam. Sou Jean que veio a procura do seu dia de liberdade. Alma miserável, que um dia se acreditou bonita e perfumada. Ainda que, de fato, por alguns momentos, alguns, tenha sido.

*Trecho de Bem-Vindo ao Clube, romance deste autor em fase de revisão. (Todos os direitos reservados ao autor).

domingo, 7 de novembro de 2010

SETE DIAS SEM VER A CONCHETTA

Os jornais anunciam: País perde 56 bilhões de reais por ano com má gestão dos recursos da educação. Outra: MEC aplica Enem com erros no cartão de resposta e perguntas repetidas. Pois é, não temos o que comemorar embora as estatísticas, as planilhas, os números, ah os números, nos desminta. Nada pode haver de pior que esse terrível diagnóstico. Não pode? Pode sim: “A livre expressão está sob ataque”, palavras de Alejandro Aguirre, presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa. Em entrevista, ele comenta sobre a morte de 123 jornalistas ocorridas este ano em países que não estão em guerra. Sobre a tentativa de controlar o trabalho da imprensa no Brasil, ele repudia a ideia e sugere que para corrigir os erros da imprensa é preciso mais liberdade e não mais controle do governo.

Como se vê, não demora e daqui algum tempo o que restará para os Costa e os Mariones da vida é escrever coisas assim: batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, o Juninho quando dorme põe a mão no coração. Ou melhor: eu te amo, a vida é bela, o mundo é lindo.

Bares e boates, botecos e afins, lá vamos nós. Feito Álvaro de Campos, passaremos nossas tardes, à sombra de uma parede, ao pé de uma porta que dá vista para o infinito. Olhar fito no horizonte poético, sentados à mesa e, acompanhados de um bom trago e um ótimo gole, a companhia agradável e insubstituível da solidão e do vento na cara, iremos buscar o inconformismo, a indignação e a revolta que nos move a vontade insana e doentia de escrever. A mesma que os patrulheiros ideológicos querem doutrinar e, quando se admitem incapazes (custa muito a eles fazê-los) querem reprimir e converter.

Aqui, banana pra vocês. Não me dobro. Tenho cara, RG. CPF, carteirinha do Círculo Operário, do Sinam, do Sudão (opa, SUS), que mais eu tenho? Ah, lembrei, algumas notas rotas de dois e de cinco, e parcas moedinhas escondidas nos bolsos furados das calças. Moedinhas de 5 e 10 cent’s que escorrem pelas pernas, feito aquela coisa nojenta e repugnante que acaba escapando no meio da noite quando fico mais de 7 dias sem ver a Conchetta.

Mais? Queres mais? Sim. Tenho uma usina de textos na mente pronto para serem gozados no papel, digo na tela, com o estilo jocoso, indigno, pejorativo e repudiado desse cronista maldito, aprendiz de poeta e fazedor de novelas jamais publicadas.

Devo, para a desgraça imaculada de Madeleusa aproveitar o tempo, porque tempo, jóia preciosa, é o que de menos tenho. Mônica sugere que vou até os 44, vencido finalmente pela hepatite e agora pelo diabetes. Má notícia, eu achava que iria até os 46. Mas talvez isso seja muito tempo considerando os presságios, as dores da carne, as decepções da alma. E o resultado do exame da próstata, leia-se e entenda-se: PSA, um tipo de exame de sangue que sai daqui alguns dias. Nada a temer. Tudo já estava no roteiro das encarnações compulsórias programada pelos insensíveis desafetos lá de cima, quando descemos, eu e a rempa que me acompanha a este inferno há 39 anos.

Acho que passarei a régua de vez na vida e nos sonhos, antes que alguém o faça por mim. A amiga Rosana informa em seu atencioso e-mail que os patrulheiros estrelados não satisfeitos com a Lei da Mordaça que apenas adormece nas gavetas palacianas do Planalto preparam para breve o despertar do monstro com sua cara bisonha, horrenda, seu fedor, e seus tentáculos. E, não satisfeitos, preparam mais uma: querem restringir o uso dos Blogs. Oh, cambada, como se isto fosse possível. Passem o ferrolho nessa porta, seus idiotas fantasiados de intelligentsia e, outras portas serão abertas porque não sei se já lhes disseram, mas, com o advento da Internet já não há mais como reprimir a liberdade de expressão como querem vossas sabedorias.

Este país tá ficando muito chato e se as partes não fumarem logo o cachimbo da paz caminhamos para nos tornamos um Irã mais cedo do que nosso profeta que se despede do poder gostaria ou imagina. Ao invés de nos unirmos estamos nos dividindo. Criando um abismo que separa: de um lado, os que acreditam em valores universais como o pensamento livre, a liberdade de ideias e opiniões que, admitamos, são expressadas, mas jamais consideradas. E de outro lado, a turma do Poder, cada vez maior e mais desprovida de humildade e lucidez, para o qual, fora da cartilha pregada por eles não há salvação. Fundamentalismo religioso, ainda não se vê. Mas, fundamentalismo político, é para onde se caminha. E isso é repugnante e temerário.

Vamos ver em que vai dar a coisa. Mas, adianto, se eu for obrigado desenterrar do porão o velho mimeógrafo não hesitarei em fazê-lo. Ou vou lá tirar os meus xérox com a Claudinha. Sem minhas ideias que na verdade não são minhas, mas de muitos que não tem coragem nem estímulo para aproveitar um espaço como este, a meia dúzia de fiéis leitores que me prestigiam não ficarão sem tais delícias gozopopéias. Prometo. Ainda tô muito novo pra ler Ubaldo. Vou continuar escrevendo. Mais um pouco. Um pouco menos. Mas, sempre escrevendo.

Pra encerrar o papo porque já são 5 da manhã, os galos cantam e os olhos ardem, lembro-lhes que há duas maneiras de se fazer Literatura: Uma é escrever para os leitores de sua geração, para os críticos da próxima e para os historiadores de todo sempre, como dizia o finado Scott. A outra é escrever para o patrão. Exatamente por isso, há duas maneiras de se fazer jornal: uma, é fazendo jornalismo. A outra é redigir, fotografar, noticiar, informar e opinar. Para quem? Sabes a resposta.



* Texto publicado na edição No. 73 do Jornal Cidade Livre

A TORCIDA QUE TEM UM TIME

Alguém conhece uma torcida que vê seu time perder uma final de campeonato por 4x0 e mesmo assim o consagra?

Alguém conhece uma torcida que, ainda na derrota, reconhece e aplaude o trabalho honesto, honrado, decente de jogadores, comissão técnica, diretoria?

Alguém já ouviu falar em uma torcida que, se desloca em grande número para outra cidade para apoiar o seu time, mesmo sabendo que o jogo já tem as cartas marcadas e é bem recebida pelo povo hospitaleiro daquela cidade, pelo clube amigo, irmão daquela cidade e por seus torcedores simpáticos e acolhedores.

Alguém já viu uma torcida que, fazendo uso dos seus direitos garantidos pela abençoada democracia não tem medo e nem vergonha de expor os seus mais legítimos e verdadeiros sentimentos, suas sinceras convicções seja ao poder público que a decepciona, seja às autoridades que a prejudicam, seja à temida entidade máxima do futebol de São Paulo?

O dia 07 de novembro entrará para a história do futebol como o dia em que a torcida sofrida e injustiçada do interior paulista se vestiu de vermelho e verde, se fez representar por cerca de 2000 pessoas presentes ao aconchegante estádio Barão de Serra Negra em Piracicaba; ganhou vida, forma, cheiro e cor e palavra na voz e no coração de 2000 velistas.

É chegado o momento das autoridades, da classe política de Rio Claro tomarem vergonha na cara e passarem a vestir a camisa, tomar as dores e cerrar fileiras com as coisas e a gente de Rio Claro, a cidade que os elege, que os acolhe e que lhes atribui cargos e funções para os quais deveriam se sentir honrados e agradecidos.

É chegado o momento da Federação que se diz paulista e não apenas paulistana de Futebol realmente voltar a olhar com bons olhos, com carinho pelos clubes do interior deste estado pujante, celeiro de craques, rico em história e tradição futebolística, e torcida, porque atrás de um são-paulino, um palmeirense, um santista, um corinthiano, há um velista, um quinzista, um são-joanino, um americanense, um galista de limeira, um ponte-pretano...

07 de novembro de 2010. Ano da libertação, ano dos 100 anos, ano do título outorgado por uma coletividade destemida, gigante, no tamanho e no coração e que realmente veste a camisa do clube que ama. Ano do Velo Clube. O time glorioso e centenário que merece mais respeito e consideração. Todo time pode dizer que tem uma torcida. Mas nem toda torcida pode dizer que tem um time. A do Velo Clube pode.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FINADOS

Não lamente os mortos. Nem hoje, nem amanhã. Não chore por eles. E se pensar neles, o faça com alegria, e esperança. Eles se sentem mortos, se nós realmente acreditarmos que eles estejam. Não dificulte as coisas, nem pra você e nem pra eles. Deixe-os seguir o caminho. Deixe-os em paz. Aos deprimidos, uma saída é escrever. E sei do que estou falando. Continue a escrever. Dialogar com o nada, também é uma forma de comunicar-se. Afinal o que é o nada senão alguma coisa que apenas não pode ser vista ou tocada. Mas pode ser sentida. E se pode, é por que existe. Na pior das hipóteses, o nada são 4 letras.



PÈRE LÈCHAISE


Quem deseja as minhas cinzas?


Quem apaga o fogo que agora queima minh’alma?


Quem pode olhar para mim com ternura?


Haverá alguém que possa me entender?


E aceitar as coisas que fiz?


Quando cai o pano


O sonho terminado


Resta apenas esperar


As ofensas que virão


Nada disso importa


Ainda há poesia no meu coração


É nela que me refugio


Um manto com o qual


Eu esconda a vergonha


Que outros me impõem


Esta presença agora me assusta


Esta luz ofusca o meu olhar


Esta voz que soa como as águas do rio


Como o vento que passa


E as aves no céu que não posso ver


Em torno de mim um imenso gramado, um canteiro de flores


Não desejo a escuridão, apenas quis falar sobre ela


Sob meus pés o orvalho da noite


Adiante o silêncio


E dentro, o nada: Quatro letras.

Poema de J. Costa Jr.




















segunda-feira, 1 de novembro de 2010

HABEMUS DILMA!

Consta nos anais da História que, por volta de 1 mil e bolinhas aC, o Conde de Bostaebastenberg, dirigiu-se à recém empossada Rainha Madeleusa da seguinte maneira: Minha cara, como devo chamá-la? E ela, do alto da pose que o cargo lhe impunha respondeu com os olhos fitos no horizonte: Sua dona. Então o nobre arruinado riu amareladamente, ao que a realeza emendou: sua irmã... sua esposa – e de repente o sorriso foi desaparecendo do semblante do conde – sua mãe. Dependerá evidentemente – ela continuou – do momento e da ocasião.

O 40º. Presidente da história da República brasileira é uma mulher. E promete ser a presidenta de todos. Difícil acreditar quando tais palavras saem da boca de um petista. A menos que ele se chame Luis Inácio Lula da Silva. O legado do presidente poderá ser compreendido na medida em que seus 8 anos de governo se distanciarem no tempo. A fórmula mágica de Lula foi aumentar a ração dos galos donos do terreiro e dar pirulitos aos pintinhos. Reformas, nenhuma. Solução nos graves problemas de saúde e ensino público, nada. E se estes problemas são sentidos no sudeste, piora nas regiões norte e nordeste do país. Então a pergunta que fica é: E daí? – Realmente, porque nestas regiões, a candidata de Lula nadou como diria o caipira, de braçada. Ora, cara pálida, quer dizer que aquela gente sofrida do mundão do país, pouco se importa se não há médicos e remédios nos postos de saúde, se um simples exame laboratorial leva meses para ser feito. Se, em casos de extrema urgência é preciso botar o doente nas costas e bater de porta em porta nos hospitais públicos, geralmente distantes naquelas plagas, centenas de quilômetros um do outro. Ou simplesmente entregar o doente às preces do Seu Pedro de Alexina. Porque, já dizia Pimpão de Trás os Montes: terra deu terra come

A latente aspiração de poder da região sul do Brasil, novamente não pôde contar com o apoio dos mineiros, como fora prometido por seu senador. Nenhuma surpresa. Afinal, os mineiros sempre viraram as costas para as causas mais importantes da nação. Os Inconfidentes que o digam. O que não os impede, todavia, de serem bajulados pelos historiadores e cientistas políticos como os artífices da liberdade e da democracia no Brasil. Ah, me conta outra vai!

Até São Paulo, exceto a capital, e algumas cidades cuja maioria do eleitorado não se submete às imposições dos governantes, como Rio Claro, traiu a esperança daqueles que acreditam que governar é mais do que proporcionar pão e circo ao povo, agradar aos coleguinhas e perseguir os inimigos.

Em seu primeiro pronunciamento, após o pleito eleitoral, a presidenta, disse estender a mão à oposição. Bom seria fosse verdade, porque se sabe que isso não se dará.

O Brasil precisa de conciliação, união? Sim. Muito mais agora quando a diferença de apenas 12% do eleitorado em favor da candidata eleita demonstra que considerável parcela da sociedade brasileira, quase a metade, está insatisfeita com alguma coisa senão muitas e deseja mudanças.

À parte a maioria esmagadora que terá no Parlamento, ao menos de início, o novo governo precisará lançar mão do diálogo. E então haverá oportunidade de saber se a declarada discípula aprendeu de fato com o Mestre.

Tem-se a nítida impressão que os 56% de eleitores que optaram pela presidenta eleita, o fizeram porque não puderam por força de lei optar novamente pelo presidente que se retira de cena.

Um dos benefícios mais salutares da democracia é a alternância de poder que ela permite. A maioria do povo eleitor, e não o povo, como insiste em declarar os vencedores, optou, entretanto, pela continuidade assumindo todos os riscos que tal opção implica.

Resta torcer para que o novo governo tenha a mesma força e credibilidade que o anterior para enfrentar os desafios que terá pela frente, o mais significativo, de início, a guerra cambial deflagrada no mundo. E, na seqüência, a dívida interna que atinge números estratosféricos e se constitui em mais uma conta que alguém um dia haverá de pagar. Advinhe quem? Resta rezar finalmente para que o novo governo tenha a coragem que faltou ao anterior para de fato promover as reformas de que o país necessita para se ver livre das amarras que impedem o seu melhor e maior desenvolvimento.

Será preciso mesmo muita torcida. E muita reza.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

EU NÃO VOTO EM DILMA

Eu não voto em Dilma. Por vários motivos.

Porque sou contra o aborto, porque repudio a intenção de colocar mordaça na boca da imprensa. Porque me causa dúvidas uma pessoa que ao longo do tempo muda tanto de cara e de opinião, ao que parece, conforme a conveniência. E porque deploro ser patrulhado pelos pirilampos, os sanguessugas vermelhos estrelados que atuam no silêncio e nas sombras, nos espreitam e levantam vozes, toda vez que nos dispomos a escrever algo que lhes incomoda porque diz a verdade.

Fosse Lula o candidato, sim, eu votaria nele. Mas Lula não é o candidato.

Se eleita, Dilma apenas estará esquentando uma cadeira que, naturalmente, pertenceria a José Dirceu, a eminência parda do poder petista, que, ao contrário do que muitos pensam e outros tantos afirmam, continua mais vivo e atuante do que nunca.

Sabe-se, afinal, o que pensam os marqueteiros que colocam pérolas e poesias na boca de Dilma. Mas o que ela realmente pensa ninguém sabe.

Dilma é o boneco ventríloquo do circo. Perdoem-me os palhaços, os realmente artistas que ganham a vida sob a lona e as luzes da ribalta.

Votar em Dilma, não significa votar em Lula. Bom seria se fosse, mas não é.

Se as viúvas do Lula se contentam com a cereja do pudim, eu não.

Chega-se ao final da campanha apontada por especialistas como a pior da história.

Mas não é só isso. O sistema já está estabelecido. Ele continua privilegiando uns poucos em detrimento de muitos. E os primeiros estão cada vez mais importantes, soberanos e ricos. Com que dinheiro? Com o nosso. Que até eles chegam, em boa parte, através dos impostos que pagamos. Em outra parte, com a especulação, porque já dizia a vovó, dinheiro faz dinheiro. Para nós, pobres, pobres mesmo, e mortais, restam migalhas da festa da qual nunca participamos e se depender da vontade deles, jamais participaremos. E o mais deprimente, feito os miseráveis que vagavam em torno do palácio de D. João VI em noites de banquete e festim, nos contentamos com estas migalhas que nos impede de morrer, e nos permite continuar sonhando. Sonhando... Enquanto eles vivem. E se deliciam.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ÓTICA

O bem é uma mentira. Ninguém de fato é bom. Afinal, somos competidores entre nós, genuinamente guerreiros, vencedores e vencidos, e a vitória só existe aos nossos olhos se nos oferecer um oponente derrotado.

O bem até pode ser um sonho, porque isto é o que de melhor podemos fazer: sonhar. Mas jamais será realidade, enquanto existir a espécie humana sobre a terra.

Em guarda, soldado. Em guarda!

Tem sido assim quase diariamente. Toda vez que se propõe a fazer algo de bom na vida, a acrescentar um tijolinho na grande obra da evolução que atende pelos nomes de amor, esperança, fé, razão, há de se encontrar dificuldades. Muros se levantarão do nada diante de nós. Vozes contrárias ensurdecerão nossos ouvidos, pensamentos disseminarão a loucura, em nós e ao redor de nós. É claro. Há os que se contentam com as sombras. Acham que nada existe além delas. E querem que sob as sombras, ao lado deles, estejamos. Uns, porque gostam de nós. Outros, porque nos odeiam.

Se fracos, vacilantes, seguimos com eles. Terá sido nossa escolha. Errada, é verdade. Porém, mais uma escolha errada. Mais um caminho sem destino.
Cansados, chegará o momento em que nos lembraremos que além das sombras, existe a luz. E sentiremos saudade da paz que a luz proporciona. Desejaremos essa paz. E nesse instante, nesse exato instante, mãos se estenderão para nós. Mãos firmes; suaves, tranqüilas. E que escolha faremos? Continuar nas sombras? Ou nos abrigarmos sob a luz?

Aqueles que mais se elevam se tornam os alvos mais fáceis de serem atingidos. Podem ser vistos a qualquer distância por aqueles que lhe desejam o mal. Mas, a boa notícia: também por aqueles que lhe desejam o bem.

O caminho é longo, sinuoso, difícil, parece eterno, porque assim são as montanhas. Evoluir, crescer espiritualmente, fortalecer a fé é oportunidade que a vida dá a todos. Por isso é natural que, durante a subida, nos encontremos com outros, caídos, como nós. E com aqueles que estão retornando, e outros ainda, que, assim como nós, estão novamente refazendo o caminho.

Podemos sim levar nosso cajado, e este é a esperança, levar provisões, e estas são as virtudes morais, levar o cobertor, e este será a fé. Podemos e devemos levar a água e esta é o amor, sem o qual, nada podemos. Mas podemos e devemos orar e vigiar. Sempre. Como soldados do bom combate.

Esqueça, afinal, de pensar em Deus para questioná-lo. Pense nele para agradecer. Não apenas por tudo o que você já viu e possui. Mas pela vida que você tem. É algo que te pertence e ninguém pode tirar. É algo que você tem hoje e terá daqui a mil anos, um milhão de anos. Você existe! Compreenda realmente isso. Perceba e sinta isso! É o primeiro passo, e, ainda assim, o decisivo, para se começar a conhecer a felicidade.



domingo, 24 de outubro de 2010

E O VELÃO, O MAIS QUERIDO, VOLTOU!

Os 14 anos de sofrimento na Segunda Divisão do futebol paulista chegaram ao fim para a Associação Esportiva Velo Clube Rio-clarense.


Deus sabe quantas vezes escrevi este parágrafo e tive que mandá-lo à lixeira do computador. Dessa vez não. O sofrimento, o desgosto, a humilhação acabou.

Era injusto demais para um time centenário, tão querido e tradicional permanecer tanto tempo no Umbral do futebol de São Paulo.

A instituição Velo Clube se redimiu neste ano de sucessivos dissabores, pelas mãos de um presidente que, mais do que tudo, é velista de coração. Homem íntegro, cuja vida é um exemplo de superação e esforço, de crença inabalável no trabalho e na maneira de se conduzir, seja na área esportiva, profissional, social ou religiosa, com lisura, com ética, decência, com respeito ao semelhante, mas, igualmente, com competência. José Pedro de Paula Caraça, o filho do seu Paulo, o nosso tio Álvaro e da dona Suzana teve a ousadia de acreditar em um sonho que muitos davam por impossível. Expôs sua meta, agregou seus pares, pessoas possuidoras das mesmas virtudes que ele. Como João Marcondelli, Danilo Dezan, Braminha, Pimentel, Cerri, Ivo, Bertinho e outros. E antes de formar um time vencedor dentro de campo, outro fora formado fora dele: a Diretoria que hoje conduz os destinos do Velo Clube e seus colaboradores.

Depois, o tiro certeiro, na mosca, na contratação de uma comissão técnica, comandada pelo campeoníssimo técnico João Valim, o preparador físico Juliano, e os demais que trabalham em harmonia, de modo sério, determinado, e competente, sem os estrelismos tão próprios de alguns ilusionistas que ostentam imagem de profissionais, tão consistentes quanto uma porcelana. Uma comissão técnica que treina, orienta, comanda com respeito ao ser humano e ao profissional.

Um trabalho assim, tão bem planejado e conduzido só poderia mesmo resultar na formação de um bom elenco, uma ótima equipe, que, dentro de campo, foi dissipando desconfianças, dúvidas, e vencendo, e convencendo, atingindo objetivos, até triunfar como há muito tempo não se via o time da Rua 3, o time do Seu Benito, do Seu Álvaro Pinto Lopes.

Pudesse o leitor ver ou imaginar quantas vezes esse texto foi interrompido porque na medida em que vai sendo escrito, as mãos tremem e os olhos embaçam, saberia o amor que vai aqui dentro por esse time que é o mais querido, sim, da cidade de São João Batista.

Merece todo o aplauso também a imprensa de Rio Claro, que vestiu a camisa rubro-verde porque soube compreender a importância da instituição Velo Clube para a Cidade Azul que tem alma e sangue vermelha e verde.

Aqui, nestas linhas, não está um escritor de 39 anos, jornalista free-lance. Está um menino que nas tardes de domingo ia com seu pai, seu irmão, seus amigos e vizinhos pra ver o Velo jogar e vencer. Está o jovem de 22 anos, que dependurado no alambrado atrás do gol da Santa Casa, com seus amigos, vibrava a cada gol do Pirulito, acreditando que o sonho interrompido em 1979, pudesse ser revivido.

Talvez agora, tanto tempo depois, o sonho esteja recomeçando.

O primeiro passo foi dado. O grito de guerra não pode parar: Vamo subi Velo! Vamos sim. Até a Série A-1. O Gigante acordou.

Fotos: Time de 2010 que conquistou o Acesso à Série A-3; Torcedores na Geral do Velão;  Técnico João Vallim; Time de 1978, que conquistou o Acesso à Divisão Especial (A-1).

* Artigo publicado na edição No. 69 do Jornal Cidade Livre.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ROCK FEMININO - CONCURSO LITERÁRIO

Já estão abertas as inscrições para o concurso literário Rock Feminino.

Acesse: www.rockfeminino.org/literario.php  e saiba mais sobre o assunto.

sábado, 16 de outubro de 2010

PORQUE NÃO ME ILUDO

Fácil. Estamos a dias de eleger não um novo presidente da república, muito menos um projeto político. Mas um jingle. Qual será o melhor? O de Serra? Ou o de Dilma?

Estava ouvindo o jogo do meu Palmeiras, quando, no intervalo, as ondas do rádio foram invadidas por mensagens idiotas, mentirosas, depreciativas e digo mais, ultrajante à consciência e aos ouvidos do ouvinte.

Culpa da emissora? Não. Culpa da indiferença da sociedade brasileira para com o seu direito de dizer simplesmente NÃO.

Não ao dinheiro na cueca, às eminências pardas do poder, né Dirceu? Não à educação pública medíocre. Não às CPIs da Saúde que terminam em nada, sinal que todos devem, e menosprezam a confiança dos eleitores. Não às reportagens motivadas sabe-se lá por quais outros interesses senão o de iludir, publicadas em revistas de credibilidade.

Não às promessas de campanha, baseadas no fio do bigode.

Discute-se a prática do aborto. Como se este fosse o único assunto importante em pauta no país.

Estamos no segundo turno das eleições presidenciais. Alguém sabe o que pretendem fazer os candidatos, se eleitos, além das epifanias e utopias criadas pelas mentes diabólicas de seus marqueteiros? Não. Porque nem eles sabem. Porque na verdade não são eles que fazem as coisas acontecerem, embora sejam os que apareçam para ser pedra e para ser vidraça conforme a situação e a conveniência.

Pessoas de boa-fé se iludem com histórias mal-contadas, boatos, estatísticas de melhores e piores, porque precisam acreditar em alguma coisa.

A expressiva abstenção de eleitores, no primeiro turno, que teve a merecida atenção por parte dos cientistas políticos e parte da imprensa é um indicativo de que considerável parcela da população brasileira já se deu por vencida.

Nós estamos no mato sem cachorro. Literalmente. Seja qual for o eleito, o que precisa mudar não irá mudar. As reformas tributárias, trabalhistas e judiciárias, pra citar algumas, jamais sairão da gaveta. A população continuará pagando o que não deve, e, portanto, financiando a roubalheira promovida pelos corruptos. Trabalhadores e empresas continuarão separados por um abismo de diferenças inconciliáveis. E a sociedade continuará se vendo obrigada a garantir os direitos de quem não cumpre com seus deveres, ou seja, transformando, pela inoperância e contradição das leis, marginais em vítimas. Tudo para o bandido, nada para as pessoas de bem.

Candidatos a presidente da república são farinhas do mesmo saco. Ponta de um iceberg monstruoso e horroroso de feio, e, pior, destruidor. Candidatos à presidente da república são, embora não pareçam exatamente iguais. Diferentes apenas no modo de vestir e falar. E mentir.

Projeto de poder não combina, por natureza, com projeto de nação. Porque o primeiro exige a submissão do segundo, algo inaceitável porque significa que poucos continuarão mandando em muitos, ao invés de representá-los.

* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 16/10/2010.

Foto e ilustração: Reprodução.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

VIVA AS CRIANÇAS

Eu me lembro com alegria e lágrimas nos olhos. Não é preciso ser escritor para construir uma frase como esta sabendo o que ela significa. Afinal todos nós, jovens idealistas e cheios de sonhos e convicções, adultos pragmáticos e senhores de si, idosos sapientes e donos de olhar calmo e palavras confortadoras nas horas mais necessárias, tem uma história pra contar. Verdade? Sim. Todos um dia foram crianças.

Escrevi certa ocasião: Nasci chorando e vou morrer fedendo. Que glória pode haver nisso? O tempo, ah, sempre ele, me fez descobrir e compreender o outro lado da moeda. O de que é preciso valorizar cada fase desse milagre o único que jamais será compreendido: a vida. Nesse dia da criança, bom seria se nós adultos, fossemos buscar a criança que trazemos guardada em alguma gaveta de nossa memória, nosso arquivo espiritual.

Vivenciam-se as primeiras experiências, experimentam-se as primeiras sensações, fazem-se as primeiras descobertas, têm-se as primeiras decepções, enfim, descobre-se um pouco, só um pouco, o que é viver, enquanto crianças. E elas podem ser levadas, porém ternas e generosas, como Tom Sawyer ou Huckleberry Fin do titio Mark Twain, escritor excepcional tão copiado até hoje pelos autores infanto-juvenis.

O educador Piaget e sua Teoria Cognitiva devem ter contribuído de alguma forma para que indivíduos da estirpe de Sawyer e Fin, pra ser sincero, caro leitor, como esteve que vos escreve, se livraram de reguadas na cabeça e da temida palmatória. Piaget estudou os próprios filhos para propor a existência de quatro estágios do desenvolvimento cognitivo do ser humano que são o sensório-motor, o pré-operacional, o operatório concreto e o operatório formal. Bendito Piaget.

No campo religioso, duas definições sobre a infância despertam a atenção e curiosidade. Na primeira delas, a mais tradicional e, portanto, mais aceita, crianças são anjos, livres do pecado através do batismo. Bom seria fosse verdade. Porque a teoria espírita diz exatamente o contrário: crianças são espíritos, que já possuem uma bagagem intelectual e moral e, portanto, possuidoras de virtudes e defeitos, adquiridos em vidas anteriores.

O que diz a razão? Ora, ela diz que uma criança que vem a falecer não possuiu tempo o suficiente para ser boa ou má, e, portanto, qual seria o seu mérito para merecer o céu ou o seu demérito para merecer o inferno. Do mesmo modo, uma criança, como a filhinha deste que vos escreve, estimado leitor, que faleceu aos 4 meses de vida, o que teria feito ela de ruim nesta sua tão efêmera vida pra sofrer tanto como sofreu em virtude dos seus inúmeros e insanáveis problemas de nascença?

Mas vamos nos ater no sonho que a criança é capaz de produzir na cabeça de um ser humano antenado com as coisas boas da vida, com as causas que realmente mereçam valor e atenção. Refiro-me a Monteiro Lobato. Esse ícone, referência positiva da cultura brasileira tão esquecida como tantos outros. Nas páginas do seu Sítio do Pica-Pau Amarelo, as peripécias de Viscondes Sabugosianos que ensinam o bem através da ciência, e as más-criações de uma boneca que mostra como evitar o mal.

Lembro-me a primeira vez em que saí a brincar. Tinha 5 anos. E ficava pendurado na janela da sala que dava para a rua, olhando com inveja e interesse os outros meninos maiores que eu a correr, a pular e a gritar felizes. Meu pai, entretido com livros contábeis em seu expediente na Casa Farani, e, portanto, algum anjo bom deve ter soprado ao ouvido de minha mãe: “Deixe-o ir”. E ela deixou. Ainda que preocupada com o filhinho doente que tomava todas as noites generosa dose de Comital.

Criança é assim. Às vezes demora a ver seu sonho realizado. E, algumas vezes, por mãos inesperadas, como a de Dona Maísa que, diferentemente de todos os demais professores, acreditou que aquele seu aluno, de olhar perdido, lento no raciocínio e completamente disperso do mundo à sua volta, fosse capaz de aprender a escrever. Conseguiu. Hoje ele escreve. Acabou de fazê-lo mais uma vez.



sábado, 9 de outubro de 2010

OUTUBRO NEGRO

Atualmente, fanáticos religiosos, desprovidos de mínima coerência e racionalidade, acreditam queimar espíritos maus, na verdade espíritos ignorantes, desinformados e ludibriados que, em troca de alguma vantagem, atormentam a vida de encarnados, por sinal, nenhum pouco santinhos, como se imaginam.

O assunto merece reflexão se considerarmos que, no século XIX, queimavam-se, apenas livros. Em Barcelona, em 09 de outubro de 1861, cerca de 300 livros com temática espírita foram queimados, em praça pública, por ordem e graça do Bispo de Sevilha, episódio que passou à história como o Auto-de-fé de Barcelona.

Eram 10 e 30 da manhã, quando se deu o fato, na presença de, além do Bispo, um padre, um notário, um escrevente, e três funcionários da alfândega (onde os livros foram apreendidos), acompanhados de uma pequena multidão, que, para o desgosto de sua Eminência vaiava a todos estes, aos gritos de “Abaixo a Inquisição”.

O tiro saiu pela culatra, porque tal estupidez acabou despertando um interesse ainda maior das pessoas pelos assuntos espíritas dos quais tratavam os livros.

Sobre o episódio merece registro o livro Auto-de-fé de Barcelona de Florentino Barrera, onde é possível encontrar a citação do poeta alemão Henrich Heine de que “Onde se queimam livros acabam se queimando homens”. Caso da Espanha, em cujo solo se verificou cenas dramáticas e repugnantes ao tempo da Inquisição durante a Idade Média.

A Espanha, por sinal, é um país bonito, de cultura milenar, e que herdou à humanidade gênios das artes como Goya, Picasso e Cervantes, mas parece ter a sina de protagonizar aberrações como, por exemplo, as touradas, onde animais ingênuos são sacrificados sob os olhares do público extasiado, e, ainda, a festa de San Firmino, em que embriagados correm pelas ruas de Pamplona, perseguidos por touros ensandecidos, não porque esta seja a natureza animal – dos touros – mas, porque foram induzidos pela ignorância humana a se comportarem assim.

Episódio semelhante ao grotesco Auto-de-fé de Barcelona seria protagonizado na Alemanha, por Adolf Hitler, que, motivado pela insensatez que lhe era peculiar, mandou acender uma fogueira de livros, em Berlim, numa tentativa de, talvez, demonstrar a soberania intelectual da raça ariana.

Também merece registro o incêndio, que causara a destruição da Biblioteca de Alexandria, criada por Ptolomeu Sóter, comandante do Egito, após a morte, em 323 a.C, de Alexandre, o Grande. É conhecido um texto do dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht, intitulado “A Queima dos Livros”, onde ele escreve sobre um autor que vendo vários livros serem empilhados para formar uma fogueira, descobre que entre os quais não se encontre os seus e assim se exprime indignado, conforme a tradução de Paulo César de Souza: “Queimem-me! Não me façam uma coisa dessas. Não me deixem de lado. Eu não relatei sempre a verdade em meus livros? E agora me tratam como um mentiroso! Eu lhes ordeno: Queimem-me!”

Como se percebe, a humanidade parece viver atormentada por demônios de toda espécie, mesmo que na forma de livros. Mas os livros existem para esclarecer as mentes e não o contrário. O triste episódio do Auto-de-fé de Barcelona demonstra isso. Hoje, os livros com temática espírita estão entre os mais procurados e lidos e servem como base para obras cinematográficas de grande repercussão.

* Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, na edição de 09/10/2010, à pág.2.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

É PRA ACABAR

Pra início de conversa, o Bahia foi campeão brasileiro naquele ano. Muita coisa aconteceu naquele ano que passou despercebida aos olhos da maioria das pessoas. Coisas importantes, você sabia? Muito importante. Não estou me referindo ao Bahia, evidentemente. Também não desejo mencionar o fato de que naquele ano assisti a Rain Man, com outros 6 ou 5 ou 4 eu não me lembro bem, espectadores, no extinto Cine Excelsior.

Por falar nisso, devo confessar: nunca sei se a grafia de espectador é realmente com “s” de sapo ou “x” de expectorante. E se extinto, é mesmo com “x” de x-miséria ou será com “s” mesmo, de mesmo. Entendeste né?

Ah! Que isso importa às 3 da manhã? Se ninguém sabe, ou não se lembra, eu não sei, eu... – espera aí vou tomar um golinho – sim, melhor agora. Pois bem. Eu dizia que nunca sei ao certo o que eu dizia. É isso, não? Diga-me que sim espelho!

Mas acontece que na verdade, naquele ano, foi naquele ano que as coisas mudaram. Sim, as coisas mudaram. Se eu tivesse 20 anos, eu escreveria que foi naquele ano que conheci aquele senhor bonito, envolvente, de nome pequeno e difícil de ser pronunciado; aquele senhor avassalador, que destrói tudo por onde passa. Mas aos 40 anos, eu escrevo sem nenhuma cerimônia que foi naquele ano que as coisas mudaram.

Porque as coisas evidentemente mudam. Eu percebo isso toda vez que olho no espelho a cada manhã.

Até de nome a gente muda. Abrevia o nome, exclui o prenome. Só ontem fui descobrir que meu último nome não é nome. Significa apenas: o mais novo. Mas acontece que ninguém me chama de: Oh, Mais Novo, por favor, quer pagar o que me deve? É mesmo muito cabuloso ser cobrado assim, na rua, com tanta veemência e nenhuma cortesia, enquanto os carros descem a Avenida 1 e sobem a Rua 8 em pleno meio-dia, aquela infinidade maldita de carros, naquelas ruas e avenida feitas para charrete.

O finado Oscar, amigo de longa data, dizia: Pode o homem perder tudo, até a dignidade, menos a pose. Do que se depreende que nenhuma vergonha leva o sujeito a passar fome, sentir dor, ser humilhado pelo tempo e as circunstâncias a cada instante, desde que se tenha um sorriso cínico e um olhar de altivez no rosto.

Naquele ano, ao qual me refiro... Tá lembrado né? Bem, naquele ano, Cazuza, o poeta, já estava doente. Senna seria campeão mundial, às tais horas e tantos minutos do dia tal, mês tanto, e ano qual, como fiz questão de anotar em uma das minhas agendas. Minha mãe ainda arrastava por este mundo, seu corpo frágil e carcomido. E a fortaleza Papai ainda não havia sido tomada pelo cupim da família. Eu ainda conversava com meus irmãos (não me faça rir), eu tinha amigos (alguns, como sempre), e meu mundo, devo dizer sem nenhum constrangimento era bem maior do que as quatro paredes de um quarto pintado de rosa e que agora me sufocam enquanto escrevo estas linhas. A DT 125, preta, era a moto que eu sonhava ter. E “Sob o Manto da Noite” era o livro que eu sonhava escrever. Escrevi. Vinte anos depois. Nada mal. Agora, sonho publicá-lo. Mais 20 anos. Tarefa para os herdeiros.

Mas volto a falar daquele senhor que conheci naquele ano que você, esperto e inteligente que é, estimado, digo, finado leitor, sabe do qual estou falando. Todo mundo, por exemplo, falava da perestroika da titia velha ou da vizinha, que logo faria cair o muro do alemão.

E em 5 de outubro daquele ano ao qual me refiro desde o início dessa nossa conversa, o doutor Ulisses, o rio-clarense (tá bom, me rendo aos súditos) o rio-clarense Doutor Ulisses Guimarães, diante de um plenário lotado do Congresso Nacional, disse: “Declaro promulgada o documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça social do Brasil”. E concluiu com a profética e assustadora frase: “Que Deus nos ajude que isso se cumpra”. Sabia ele da dificuldade de incutir valores sociais e democráticos, lei e ordem, na consciência de uma nação parida pela covardia e os interesses escusos de nobres arruinados e contaminada, desde seus primeiros dias, pelo vírus letal da corrupção como nos revelam Eduardo Bueno e Laurentino Gomes.

Mas volto a falar daquele outro senhor que conheci naquele ano. Embora pertencesse ao gênero masculino, ele tinha a imagem doce e bela que os homens tanto admiram e necessitam. E seu nome era...

Óh desculpe-me, infelizmente não posso. Por dever de ofício, e respeito à condição civil da ilustre dama, não posso declinar o seu nome. Posso, entretanto, afirmar que está gravado em meu coração. E ali permanecerá até que este pobre e desvalido coração vire, como diria Dos Anjos, banquete de vermes e baratas à luz de velas.

Certamente o leitor se veria livre destas linhas mal traçadas que a curiosidade ociosa o leva a percorrer, porque este cronista, estaria agora, exatamente às 13 e 26 da tarde, desta segunda-feira, 04 de outubro, entretido entre livros e relatórios contábeis, ou audiências públicas e tramites processuais, em um escritório ou perante o mui douto meritíssimo doutor juiz, não houvesse surgido esse senhor, digo essa dama, em sua vida há exatamente 22 anos, ou seja, o ano ao qual me refiro como o atento leitor já deve ter compreendido. Ela o trouxe de volta ao mundo. E o fez compreender que mais vale um coração tranqüilo que uma mente afortunada. Ela, que, para este cronista, atende simplesmente pelo nome de Amor. Esse senhor bonito, envolvente, de nome pequeno e difícil de ser pronunciado; avassalador e que destrói tudo por onde passa.

Entendeste né? Espero que sim.

*Texto publicado na edição No. 63 do Jornal Cidade Livre.
Foto ilustrativa: Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em cena do filme Casablanca (1942) de Michael Curtiz.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A IMPORTÂNCIA DO SEGUNDO TURNO

Para o bem da nação brasileira e para que prossiga a discussão sobre temas atuais e importantes como a corrupção que envergonha as pessoas honestas e põe ralo, ou melhor, bolso abaixo, os bilhões de reais que se paga de impostos todos os anos neste país – é bom que haja segundo turno para as eleições que se aproximam. Por que há muitas coisas ainda a serem explicadas, como por exemplo: como é que a candidata X tornou-se, por assim dizer, bonita e jovial, da noite para o dia? Como é que tudo pode ir tão bem como diz a propaganda, se a educação e a saúde públicas vão mal, se o transporte público é um caos, se o déficit habitacional continua apontando índices preocupantes, se a divida interna aumenta dia-a-dia, se o país continua a servir como chocadeira para o dinheiro alheio que não lhe pertence, enfim, ia me esquecendo, do caso Erenice, ah, deixa pra lá.
Talvez não seja racional e razoável, mas talvez seja ingenuidade, dar mais um “cheque em branco” para aqueles, que, feito todos os seus antecessores continuaram atacando o bolso dos realmente trabalhadores deste país, por meio de impostos, tributos, taxas de juros exorbitantes e nada, rigorosamente nada devolveram em troca. Porque uma coisa é ter crédito para comprar e fazer dívida. Outra coisa é ter salário justo para comprar sem dever sequer obrigação. Esse direito e essa dignidade, nem eles, nem seus antecessores proporcionaram. Então, como é que pode ter melhorado a vida, se pra se possuir alguma coisa é preciso passar anos endividado e cheio de preocupação?
Na verdade não melhorou como poderia e deveria. E percebe-se isso facilmente quando se é obrigado a chegar às 09 da noite de sábado em um pronto atendimento de hospital público e sair de lá por volta de 4 ou 5 da manhã, com uma receita aviada por um clínico geral, cujos remedinhos vão fazer a dor passar por alguns dias senão algumas horas, até que se precise voltar lá, puto de raiva e de dor, porque o exame demora entre 90 e 180 dias, em sendo otimista, e sem o bendito, não se consegue se tratar da doença e se ver livre das dores, que faz perder dia de serviço, de aula, e que tanto incomoda porque torna horrível a vida. Enquanto isso, eles discutem de quem é a culpa, se da União, se do Estado, ou se do Município. Eu mandei a verba, eu não recebi. Então onde está a grana? Ninguém responde. A dor? Deixa-a por aí mesmo, porque há de trazer muitos votos das pessoas de boa fé e cheias de esperança.
Nem mesmo no governo colorido (cala-te boca) se verificou tantos escândalos e tanta prática de corrupção a se considerar as denúncias feitas quase diariamente por setores da imprensa. É algo que enoja qualquer pessoa que se pauta pela conduta moral e ética. A pedra virou vidraça. O cordeiro, uma vez no poder, se mostrou tão feroz quanto o lobo. Mas avisa: cuidado com o que se escreve e se diz, porque de repente, pode-se ser atingido (geralmente pelas costas) pela ira, e pela vingança daqueles que se incomodam com estas e outras verdades. E vivem os seus dias a “patrulhar” e, feitos agentes da KGB, a espionar a vida alheia.
Logo, e não se ensinará nas escolas o hino nacional, e sim o mantra: “Eu nego. Eu nego. Tudo mentira. Mentira. Mentira”, apregoado pelos quatro cantos por quem hoje se considera dono do país e da verdade e se esquece ou não admite que a alternância de poder é um dos maiores e mais salutares bens da democracia.
Vê-se, não sem espanto, que todos aqueles que cerraram fileiras até pouco tempo com os que se acham na situação, hoje se colocam na condição de opositores, ainda que mantenham o mesmo discurso agressivo, acusatório e difamante tão bem utilizado para se conquistar o poder: ninguém presta, não é assim que se faz, fulano é ladrão, vamos botar todo mundo na cadeia depois das eleições... – porque sabem que esse discurso de denegrir a imagem e a pessoa do adversário ainda encontra, por incrível que pareça, respaldo em uma sociedade cuja significativa fatia do eleitorado, é formada, infelizmente, por analfabetos funcionais que sequer se lembram em quem votaram nas últimas eleições, mas que se deliciam e se inebriam quando favorecidos pelas práticas assistencialistas que ao invés de levantá-los moralmente e resgatá-los para o importante segmento produtivo da sociedade, os mantém submissos, eternos devedores de favores, que mais se assemelham às esmolas.
Vê-se com tristeza que o mais alto mandatário da nação se declara com orgulho presidente de alguns e não de todos numa absoluta e repugnante demonstração de que, para ele, chegou a hora da revanche. Claro, a política, segundo ele deixa demonstrar nos seus inúmeros e infelizes pronunciamentos é sem dúvida uma partida de futebol.
Nada disso. Nada disso. É tudo mentira. E o que supostamente seja verdade, é culpa da imprensa. Haverá de ser, sempre, para aqueles que vêem seus interesses contrariados pelo sagrado dever de informar e o legítimo direito de opinar dos quais a imprensa por obrigação moral jamais deve abster-se.
Merece ao menos uma reflexão mais profunda a possibilidade de eleger presidente da república alguém que teria uma extensa e deplorável ficha criminal.
Qual a diferença entre situação e oposição? Somos nós. Será que sabemos e compreendemos a importância disso? A resposta? Só no dia 3.

*Artigo publicado no Editorial do Jornal Diário do Rio Claro, em 02/10/2010, pág.02.