quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

*1919 - +2010

São poucos os escritores que valem a pena. E, agora, mais um levantou acampamento. O Apanhador no Campo de Centeio.

RABISCOS E CUSPES

Por que no Brasil a literatura de ficção não forma leitores? Pergunta impertinente, incômoda e fácil de ser respondida.


Na lista dos “Mais Vendidos”, publicada semanalmente no caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo, encontra-se de tudo, mas bem pouco autores brasileiros e, portanto, menos ainda, enredos, personagens e narrativas, com as quais, em tese, o leitor encontraria afinidades.

Têm-se a impressão que o leitor brasileiro não se vê representado por seus autores, daí seu desinteresse por literatura de ficção.

Ainda que os intelectuais que se consideram guardiões perpétuos da literatura nacional, torçam o nariz, mas a realidade é que a literatura espírita, por exemplo, vai de vento em popa. E por quê? Porque o leitor encontra afinidades com os dramas ali narrados e com a vida dos personagens retratados. Mal comparando, a mesma empatia se verifica entre telespectadores e telenovelas.

A literatura americana, por exemplo, encontrou seu rumo, quando rompeu com a literatura inglesa no período pós Guerra da Independência (1775 a 1783). Nessa época, surgiu James Finemore Cooper narrando a saga Os Pioneiros, ficção que logo cairia no gosto popular porque retratava a realidade do povo americano da época.

João Ubaldo Ribeiro nos fala da síndrome de vira-lata da qual padecemos. Entretanto, bons escritores brasileiros não faltam. Aliás, jamais faltaram. O problema é que a literatura já na escola é apresentada à criança como bicho de sete cabeças, produzida por lunáticos alienados, potenciais suicidas, quando não beberrões deprimidos. Pode até ser verdade, em parte, mas essa é apenas a ponta do iceberg. Não se discute a literatura, em sala de aula, como forma de entender as origens de nossa formação social e política e os caminhos que estas tomaram ao longo dos tempos. Atem-se apenas à enfadonha análise da sintaxe, ao estudo minucioso da gramática. Fragmentam-se textos, tornando-os sem sentido, apenas para explicar a conjugação do verbo, a colocação do pronome e do sujeito, a pontuação e a ortografia corretas, e blá-blá-blá, blá-blá-blá...

As grandes editoras brasileiras, por razões comerciais, investem em autores e obras estrangeiras consideradas Best seller’s esperando com isso garantir a venda desses lançamentos. Até aí tudo bem. Ocorre que não se interessam em revelar autores nacionais que retratam temas nacionais. Pois, se a literatura, porque assim dizem os doutores em Letras, deve tratar de temas universais, nada impede que o faça com as cores, as coisas e as pessoas de nosso país.

Autores que representem o que representaram em seu tempo, Érico Veríssimo, Lima Barreto, Machado de Assis, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado e tantos outros, precisam surgir. Mas é claro que não cairão do céu, precisam ser descobertos, precisam ter oportunidades para tanto. Não bastam concursos literários esporádicos que, a exemplo daqueles para preenchimento de cargos públicos, contemplam apenas os bafejados pela $orte e os queridinhos e amigos da turma.

Estamos órfãos de autores e de livros que falam sobre nós. Atravessamos o século XX, já percorremos quase um decênio do XXI e a pergunta que se faz é: quem e como retratou, através da literatura de ficção, a sociedade brasileira nos últimos 40 anos? Os cronistas dos jornais diários e das revistas semanais? Sim. Mas é muito pouco. É quase nada. Os autores de tele-novelas? Estes apenas traçam uma visão deturpada de parte de nossa realidade para simplesmente atender aos interesses comerciais das emissoras pelas quais são pagos. E bem.

Enquanto isso, nós continuaremos achando nas prateleiras das livrarias públicas e privadas a menina que roubava livros, o caçador de pipas, o guardião de memórias, a sombra do vento, a distância entre nós, a neve, o passado, as travessuras da menina má e até o código de da Vinci. Convenhamos, tem tudo a ver conosco. Ou somos apenas um país musical, e, portanto, morte aos escritores, e, portanto, ainda, padeceremos sempre da síndrome de vira lata ubaldiana. Ou que o tempo, as editoras e o Estado, através do Ministério da Cultura me desmintam. Duvido.

*Publicado na imprensa escrita de Rio Claro em 28/07/2007.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

MANUSCRITOS DA CONSCIÊNCIA MORTA



O inconveniente é aquele que com palavras ou atitudes causa o constrangimento alheio. Concedo-me o direito de sê-lo agora.

Há momentos únicos na história da humanidade. O advento do cristianismo, as idéias iluministas, a revelação dos espíritos através das experiências, estudos e pesquisas do pedagogo e cientista francês Allan Kardec, a teoria Darwiniana, a Reforma Protestante, pra citarmos alguns.
Quando disse Jesus a Simão Pedro que este era uma pedra sobre a qual construiria sua igreja, certamente não se referia aos templos grandiosos, aos ritos e às hierarquias que, ao invés de unir desagregam. Porque Jesus, ao invés de construir um templo e sentar-se em confortável cadeira aveludada e reunir seleto número de bajuladores e outros tantos parasitas em torno de si, foi à luta, caminhou pelos desertos, subiu as montanhas, bateu às portas, foi desprezado, xingado, incompreendido e mesmo assim só fez coisas boas, só falou sobre amor, perdão, renúncia, e já naquele tempo, estas virtudes não interessavam à maioria das pessoas.
Na história da humanidade é sempre assim: iluminados apontam caminhos, descortinam verdades para que espertos se apropriem destas e as utilizem em favor próprio e daqueles que representam. Ocorreu com o cristianismo, que, nas suas origens não vestiu os paramentos de nenhuma religião, porque o cristianismo é na sua essência a própria religião. Ele veio para o homem, mas não veio do homem.
A redenção humana é individual, porque somos individualidades. Mas podemos caminhar juntos. O mérito ou demérito pertence a cada um. O que não impede, ao contrário, incita, a nos ajudarmos. As estrelas são únicas, mas elas se acham no mesmo firmamento.
No tempo em que os católicos derramavam sangue inocente sob o pretexto de preservar orgulho e tradição veio ao mundo Francisco de Assis para resgatar o cristianismo primitivo, leia-se: amor incondicional, perdão e renúncia. E onde se manifestou a luz de Francisco, que, dizem alguns, anteriormente atendera pelo nome de João, O Evangelista? No meio católico, para também demonstrar, com seu bom exemplo, o equívoco cometido por este.
Caminhamos para o caos e o fazemos entorpecidos pelas ilusões. A natureza ameaçada por nossa ignorância e nosso egoísmo. Que adiantará todo o progresso intelectual? Toda a riqueza que possa ser produzida? Os ritos religiosos para que servem? Deus precisa sair do papel e da boca dos homens e ganhar a mente e o coração destes.
Precisamos de religião? De quem nos conduza? Por que? Se a mais de 2000 mil anos um homem chamado Jesus acendeu uma luz dentro de cada um de nós. Então por que ainda insistimos em caminhar no escuro? Estudemos, trabalhemos, e que cada um de nós respeite e ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

*Publicado na imprensa escrita de Rio Claro em 16/05/2007.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

DÉBORA


Visitar o túmulo da mãe lhe representava tarefa penosa. Olhar aquele monte de tijolos, ornamentado por azulejos antigos e imaginá-la ali dentro, dormindo o sono eterno, enquanto esperava a justiça de Deus, não conseguia. A mãe não estava ali. E Débora não sabia onde. Daí sentir-se ridícula ao visitar aquele túmulo. Se orasse, pensasse ou falasse qualquer coisa, como tentara as poucas vezes que ali estivera, seria em vão, estava certa disso. Nenhuma atitude que tomasse faria com que sentisse novamente a presença da mãe. O que a incomodava. E muito.


Ao cair da noite, no caminho de volta para casa, dava-lhe náusea a certeza de que encontraria o pai, sentado na poltrona da sala, com a camisa desabotoada, para fora da calça, e os pés fedorentos, à espera do chinelo, que ela, submissa, lhe calçaria. Aturar aquele gordo roliço, sempre mal humorado, incapaz de um gesto de simpatia, implicando com tudo, desde o jeito dela falar até o modo como se sentava e a roupa que vestia. Suportá-lo. Dia após outro. Levantar às quatro e meia da manhã, esquentar o leite, cortar o pão e servi-lo. Tarefas que durante anos couberam à dedicada mãe, agora lhe pertenciam. Assim como apanhar o jornal na área, entregá-lo em mãos, colocar-se de lado, tal como prestimosa serviçal. Disposta a ceder-lhe aos caprichos e beijá-lo na boca, quando ele saía para trabalhar. Vê-lo partir, desaparecer na poeira e na distância, implorando a Deus para que não voltasse nunca.
Às primeiras luzes da manhã, Débora já estava no quintal, tratando dos passarinhos. Depois, sentava-se no pilar do rancho, fechava os olhos, e encontrava paz. E eram aqueles os únicos momentos que se sentia feliz: quando estava em paz. Longe do pai. Longe do mundo e das pessoas. À parte os momentos de solidão e nada tinha o poder de acalmar-lhe o espírito.
De repente, como se voltasse de um estado de êxtase, via-se lavando no tanque as roupas imundas do pai. Enquanto a roupa secava no varal e os canários dobravam disputando entre si sua atenção, Débora preparava o almoço, que apesar de todo empenho, jamais agradava aquele homem, que Deus, por razões que desconhecia e abominava, havia feito cruzar-lhe caminho na condição de pai. Tinha de esperá-lo empanturrar-se antes para poder sentar-se à mesa, e, sozinha, alimentar-se.
Pai e filha não tinham o hábito de conversar senão o necessário. Sequer aos domingos, quando juntos, iam a primeira missa do dia. Isolados sob o mesmo teto. Digladiando-se em pensamentos, desejos e olhares.

À tarde, Débora cuidava da limpeza da casa. Aos finais de semana, sobrava-lhe algum tempo para escutar programas de rádio. Este era o remédio que a mantinha viva, embora a doença, que era a companhia do pai, já houvesse lhe debilitado terrivelmente a alma, fazendo-a perder a fé, os sonhos e a capacidade de suportar as indiferenças da vida que sempre acometem as pessoas sensíveis. Com o passar dos anos, criara para si um mundo paralelo, feito de solidão e silêncio onde vivia a maior parte do tempo. Mas agora estava cansada. Não podia sequer olhar-se no espelho. Não podia descabelar-se como tantas vezes quisera. Não podia nem mesmo despir-se e sair correndo pelas ruas, feito uma louca possuída. Nada podia. O pai a proibira de tudo. Tornando-a incapaz de rebelar-se, de lhe dizer não. Ele a convencera com o tempo que a mãe morrera por sua culpa.
Aos quinze anos Débora fugira de casa com o namorado. Duas semanas passaram em Santos, pegando onda, conhecendo o mundo, descobrindo o prazer que na tola ingenuidade dos seus quinze anos imaginavam ser amor. Passara aqueles dias sem dar notícias, sequer para dizer onde estava. E enquanto estivera fora, a mãe morrera e o pai, ferido em seu orgulho, trocara o trabalho de empilhadeirista pelos bares da vida. Até que um amigo, compadecido, lhe emprestara o caminhão para viajar e ganhar uns fretes, até conseguisse arrumar outro emprego, o que, considerando os seus quarenta e seis anos, seria difícil. Ao volante de um caminhão, Gumercindo, o pai de Débora, muitas vezes acreditara estar vendo a filha naquelas meninas com as quais cruzava nos postos de beira de estrada, nos bordéis que costumava freqüentar e nos restaurantes onde ele era servido com privilégio por atenciosas garçonetes, a custa de generosas gorjetas.

Distante do pai, na praia, quer fosse perto das ondas ou sentada nas pedras da orla, Débora mantinha-se longe das pessoas, porque estava convencida de que a humanidade em beleza e sabedoria atendia pelo nome de Marquinho, o seu namorado. Ele dizia amá-la. E tentava demonstrar-lhe isto. Até que uma noite, Marquinho aproxima-se e toca-lhe o corpo com o carinho de um anjo e lhe faz promessas que, ambos sabem, jamais serão cumpridas. Com 15 anos, Débora acorda pela manhã, ao marulho das ondas, das aves e da civilização atrás de si. Acorda, acreditando ter conhecido finalmente o amor.
Nos dias que se seguem ambos procuram com desespero preservar aquele sentimento. Em seus corações, bate um vento forte e destruidor que se chama realidade. Faz estragos. Leva consigo a esperança de que aqueles dias poderiam ser eternos. Não há dinheiro. Sequer para um refrigerante. É preciso voltar. E o fazem.
Eles conseguem carona na estrada, no pé da Serra, próximo à Cubatão. Já era noite quando o motorista, alegando fome e cansaço, pára no acostamento de um posto. Débora permanece no carro, enquanto o namorado e o motorista vão até o banheiro e depois à lanchonete. Ela os observa à distância. Desconfiada, vê quando eles se afastam do posto, tomando o rumo do matagal logo atrás. Minutos depois, Marquinho retorna sozinho, com as chaves do carro na mão, rindo, achando ter feito grande coisa, julgando-se herói.
Revoltada, sem poder acreditar no que ele havia feito Débora, o deixara ali mesmo. Tomara o acostamento da estrada, ouvindo os desaforos com os quais ele retribuía todo o carinho e o amor que dela recebera naquelas duas semanas.
Dias e noites ela caminhara pelo acostamento. Alguns motoristas paravam para lhe oferecer carona, mas recusava, e estava disposta a fazê-lo até que algum menos comportado a obrigasse a entrar no veículo.
Numa tarde nublada e de relâmpagos que rasgavam o céu prometendo chuva a qualquer instante, cansada e faminta, Débora caiu desfalecida no acostamento de uma rodovia.
Minutos depois, um caminhão que passara já indo distante, diminuíra a velocidade aos poucos até parar. O motorista descera e armado de revólver que trazia escondido na cintura aproximara-se com cautela, tentando identificar à distância quem era a pessoa caída.
Não tivera dúvida nem receio de socorrê-la quando reconhecera Débora, sua filha. Todavia, preocupado com as aparências e o pensamento das pessoas que não lhe davam de comer nem lhe pagavam as contas, mas se achavam no direito de opinar sobre sua vida, Gumercindo tivera o cuidado de chegar tarde da noite em casa, para que não fossem ele e a filha, surpreendido pelo olhar curioso e a boca maldita dos vizinhos.
Pusera-a deitada na cama, e no dia seguinte não fora trabalhar, esperando que Débora acordasse.
Ao ver o pai, parado ao pé da porta, o olhar compenetrado nela, seus olhos se encheram de lágrimas, temia o pior castigo. Esperou encontrar o velho cinto de couro na mão do pai, mas, ao invés disto, ele, segurava um retrato da esposa. Então, Débora percebeu que não era apenas ela que, naquele momento, tinha lágrimas nos olhos.

Desprezo e subordinação, este fora o castigo que recebera. O pai a culpara pela morte da mãe, e jamais a perdoara por isso.
Os anos passaram, dezesseis anos, aqueles que poderiam ser os melhores de sua vida. Agora Débora tinha 31 e nenhuma lembrança nenhuma boa recordação, nem dos momentos lúdicos vividos intensamente com Marquinho.
Não suportava mais tal situação. Naquela tarde, enquanto enxugava-se após tomar banho, olhou-se no espelho, e de seus olhos verteram lágrimas ao reparar as primeiras rugas. Mesmo chorando, continuou olhando-se no espelho, afastou-se para que pudesse se observar por inteira. Percebeu que a cintura apresentava flacidez. As coxas das pernas, onde Marquinho certa vez escrevera um poema em que prometia amá-la para sempre, revelavam sinais de celulite. O cabelo, que chegava à cintura, quebradiço, sem brilho, sem volume, tão diferente do que fora um dia, porque já demonstravam os primeiros fios brancos.
O tempo passara, e Débora não vivera. Senão nos seus sonhos mais inconfessáveis; e desejos mais reprimidos. Refugiara-se num mundo impenetrável para outros. O silêncio da solidão, único lugar onde era feliz, porque encontrava paz. Longe do mundo real e das pessoas. Dentro de si mesma.
Nua, deitou-se na cama. Ao tocar sua parte mais íntima, o fogo alastrou-se por todo corpo, incendiando-lhe o desejo. Viu-se dominada por um tremor como se um botão de rosa vermelha desabrochasse dentro de si. E compreendeu com certa alegria que, embora rejeitada, atormentada e esquecida, por todos e por si mesma, ainda era mulher.
De repente lembrou-se de Marquinho, o namoradinho, o único homem que conhecera. Lembrou-se do sorriso e do olhar desapontado dele ao perceber que ela reprovara a sua infeliz atitude, que ele, movido pela ousadia, julgava uma atitude heróica. Débora nunca mais o vira. Não sentira falta dele. Mas a partir de agora estava disposta a resgatar as boas lembranças que ele lhe proporcionara. As boas. Pois que eram as únicas.
Ainda molhada, deitara na cama, onde permanecera durante horas. Depois se levantara e, antes de tomar banho, abrira a janela do quarto, para que pudesse ser envolvida pela brisa refrescante.
Queria que aquela tarde não terminasse nunca. Elevar-se até o céu, de corpo e alma, e perder-se na escuridão da noite que já se aproximava.
O único momento bonito de sua vida não fora senão ilusão. Durante dezesseis anos pensara assim. Mas a partir daquele instante não pensaria mais.
Já era madrugada quando fora até a sala. A velha televisão estava ligada, fora do ar. O pai, sentado na poltrona. Jornais e revistas espalhados pelo sofá. Garrafas de cerveja sobre a mesinha de centro. No chão, ao lado da poltrona, uma travessa de plástico com restos de pipocas.

Débora parou a frente do pai. Estava nua. Tomou-lhe a mão, e fez com que ele a acariciasse. Tão profundo era o estado de embriaguez do pai, que ele sequer dera conta do que estava acontecendo. A mão do pai era forte. E gelada.
Afastou-se dele. E ao abandoná-lo, sentira-se quites com o pai e com a vida.
Eram quase dez horas da manhã seguinte quando chegara ao cemitério. Não perdera tempo procurando a foto da mãe, que jamais havia sido colocada.
No túmulo, ao lado, apanhou uma rosa de um buquê ali deixado. Aspirou o perfume da rosa e a levou de encontro ao peito. Fechou os olhos. Lá estava para pedir perdão à mãe. E pela primeira vez, sentira a presença dela. Que outro alguém se preocuparia em convencê-la de que não deveria sentir remorso pelo que fizera.
Voltara a pé para casa. Dias depois, vendera o imóvel e se desfizera do mobiliário e dos pertences do pai por um preço módico. Afinal não era grande coisa.
No dia em que completara 32 anos, recebera o dinheiro do seguro que o pai lhe deixara. Nenhum dinheiro compensaria o que tirara dela aqueles anos todos: a liberdade; a capacidade de sonhar e ter esperança.

Tivera vontade de rasgar o cheque e defecar sobre o mesmo ao recebê-lo das mãos do agente da seguradora. Mas precisaria daquele dinheiro. Serviria para manter-se por alguns anos. Pois embora já houvesse queimado aqueles malditos vestidos, e melhorado muito a aparência, olhando-se no espelho, todavia, lembrava-se de que não tinha estudo, não tinha profissão, não tinha emprego. Não queria viver à sombra de um homem. Não suportaria de novo. Não fora para isso que viera ao mundo. Queria começar a viver. Acreditar que isto era possível.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

MEA CULPA

Quem me conhece amiúde, quem lê os meus textos, imagina que sou destemido, ousado e, por vezes, senão sempre, arrogante. Má notícia. Não conhecem metade da reza. Sou tímido, inseguro e tenho medo terrível de tudo a minha volta.


Cada olhar que me encontra pode ser um inimigo a me espreitar. Quando mais jovem, porque jovem sempre sou, porque assim é meu espírito, eu exorcizava meus demônios e espantava meus medos nos braços da noite, no acalento da brisa da manhã, borrifado de perfumes que não eram os meus, e sorvido por goles de delírio e prazer que não me pertenciam. Mas o trem da vida continua a seguir o seu destino e se a gente não pula pra fora sempre chega à próxima estação.

Agora que escrevo estas linhas, estou linkado no youtube ouvindo Loves come quiclky. Noites e mais noites ao embalo desta música. E de outras. Ali, naquele mármore de indiferença, desprezo e revolta forjou-se o escritor, que escreve linhas como estas, na busca insana por espantar para longe de si todos os seus medos. E a dúvida cruel persiste. A um passo de distância da liberdade. Um movimento. E de repente tudo se desfaz, se desmancha e a vida se deforma e ganha contornos de Munch. E olhar de Cortázar.

Faz frio e a noite chega. O medo é como chama ardente que envolve, domina e consome. Os sinos não irão tocar esta noite. Talvez o façam pela manhã. O copo se quebrou e o líquido é precioso demais para ser sorvido de maneira tão vulgar. Por isso talvez eu adormeça esta noite. Talvez.

As roupas estão sobre a cama, a toalha no chão, o gato no telhado, a lauda, em branco, no carro da máquina de escrever, esperando... esperando a sintonia, o momento em que tudo conspira a favor, o momento em que se deflagra a revolta, que se faz a rebelião. E que se liberta o ódio. Rage!

Alguém me convenceu que bastariam palavras para a minha vingança.

Há de pagar por isso.

*Leia comentários deste texto e outros do autor em:

MEA CULPA
Sáb, 13 de Junho de 2009
© 2010 - Autores.com.br

domingo, 24 de janeiro de 2010

PRÓXIMA PARADA...?

Ando por lugares onde ninguém me conhece. Não sou notado. E me lembro quem sou. Sem nenhum remorso ou arrependimento.

RELATÓRIO

A pior notícia da minha vida eu tive aos 17 anos. Não. Não foi quando minha mãe morreu ou minha filha nasceu doente, ou aquela filha da puta apareceu grávida. Foi quando eu soube o que acontecia àqueles que se suicidam. Porque vou lhes dizer uma coisa, dependesse de mim, eu não teria vindo pra essa merda. Vim porque me chutaram cá pra baixo, me enxovalharam de onde eu estava belo e formoso, inspirando idiotas que se acreditam artistas a escrever poemas, prosas e letras de música. Eu estava muito satisfeito e feliz onde estava, até que uns caras vestidos de branco chegaram dizendo e mandando, estúpidos, sequer sugeriram, foram logo mandando como se mandassem na minha vida. Então, depois de duas tentativas frustradas, deles, não minhas, eu vim.


Meu plano era sair daqui logo, e isso seria fácil até demais, não fosse quando me disseram e me mostraram o que acontece àqueles que levantam acampamento antes de obter baixa do Grande General. E bastou que eu lesse um livro: O Livro dos Espíritos. Serei mais preciso: Questão 957. Eis toda a coisa. Então meus planos foram por água abaixo.

Resolvi então fazer o que já fizera outras vezes, e fazia lá onde eu estava: resolvi escrever. Abri minha caixa de pandora, minha mala de instrumentos de tortura alheia e comecei a dor forma e conteúdo ao que eu via, sentia, me lembrava, enfim, aqueles elementos que apenas os magos das Letras (curvo-me Alteza!) sabem manipular.

Porque as letras são símbolos para alguns e códigos para outros, mas todos se acreditam conhecedores do mistério. Tolos. Nada disso. Deus é um só. E escritores e poetas – e prestem bem atenção os que me lêem e me ouvem nesse instante – escritores e poetas não são todos. A honra é reservada a poucos.

Aqui um parêntese: Refiro-me a escritores, aqueles que criam e não os outros que são apenas datilógrafos, reprodutores de idéias alheias, porque nada criam.

Eu, por exemplo, não sou esse bonzinho que muitos acreditam. E não sei por que o fazem se não lhes dei motivo para tanto. Sou ruim. Lamacento. Leviano. Letal. Não tem nenhum de vocês idéia de quem eu sou. E do que sou capaz. A maldade sem a inteligência é estupidez. Por isso cursei as melhores universidades e tive como Mestres muitos daqueles que a humanidade hoje admira, idolatra e estuda sem saber quem de fato são.

Escrevo para provocar ilusão, enganar, escrevo para ferir, escrevo porque é a revolta que move o meu pensamento, que faz circular o sangue em minhas veias. Escrevo pra tirar um sarro da cara de vocês todos. É por isso que escrevo. Revolta é meu nome. Ódio é meu sobrenome. Mas eu sou bom naquilo que sei fazer como poucos. E isso pra mim é o que basta. Eu sei quem sou.

No mesmo livro ao qual me refiro neste relatório também está escrito que a maioria dos artistas repudia as suas obras, quando já estão do lado de lá, de onde vim, e as suas obras aqui permanecem para ser admiradas por ignorantes que imaginam saber compreendê-las. E vilipendiadas por facínoras que à custa delas se enriquecem. Mas, para um artista que já levantou o acampamento o que significa uma sua obra? Não significa nada. Porque o artista, o escritor, o poeta, jamais terminam, jamais se esgotam, eles se renovam, sempre. E continuam a escrever. Vede a mim. Vede?

Portanto, não percam o seu tempo com isso. Vão cuidar dos seus afazeres e suas necessidades de réprobos que sois.

Deixem a Literatura na plataforma da estação da vida na qual todos chegam e partem. E sigam adiante. Não queiram levar esse enorme e pesado baú consigo. Porque mesmo se o fizerem não conseguirão abri-lo.

Muito bem. Aqui se dá por concluída a minha jornada. E eu não poderia – a vocês que me foram tão gentis – deixar de revelar a minha verdadeira identidade. Agora sabeis quem sou.

Senhoras e senhores passem bem.


Lebt wohl

Nota do Autor: Amigos leitores e escritores. Agora bebam um copo d’água para se acalmarem do susto. Esta é uma obra de ficção. Escrita na 1ª. Pessoa do singular de modo a se obter maior densidade dramática na narrativa. Certamente compreenderão isso. Assim espero.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

HAITI: A DOR DE NÓS TODOS

A tragédia haitiana está na Internet, jornais, rádios e tevês do mundo. Nove milhões de pessoas, 80% delas vivendo, segundo a ONU, em condições de miserabilidade. Ditaduras tiranas que levaram o país a guerra civil de conseqüências devastadoras. Tempestades tropicais, fome, doenças, falta de condições sanitárias, habitações desumanas, pessoas comendo biscoitos feitos de barro. E agora, um terremoto sem precedentes dizimando mais de 100 mil vidas humanas e o pouco que restava de um país arrasado. Estima-se mais de 3 milhões de desabrigados.

Por que tudo isso?
Há várias maneiras de se enxergar essa situação. Nesta mensagem psicografada em 24/10/2008, às 23h15, Deus nos permitiu encontrássemos duas:
Aos olhos humanos:
Sucesso e fracasso, são lucros e perdas
Vida e morte, o início e o fim
Revolta, é estímulo
Fé, promissória que se resgata
Conhecimento, a melhor espada
Moral, é virtude que se vende
Verdade é ouro de tolo
Esperança, é bebida sem álcool
Caridade, é investimento com retorno garantido
Amor, o caminho de mão única
E perdão, o espelho partido


Aos olhos do espírito, porém:
Sucesso e fracasso são aprendizados
Vida e morte apenas  etapas
Lágrimas e risos burilamento
Revolta é água parada
Fé combustível inesgotável
Conhecimento é riqueza que se adquire
Moral o melhor escudo
Verdade o maior guarda-chuva
Esperança é como o vento que impulsiona
Caridade é o alicerce necessário
Amor o único caminho
E perdão a porta que jamais se fecha 
São chegados tempos de transformações. Nada pode o homem contra as leis da natureza, imutáveis e perfeitas. Estas leis, às quais o homem está sujeito, contribuirão para o seu resgate moral. As tragédias coletivas verificadas no Brasil, recentemente e agora no Haiti tem qual objetivo todos nos perguntamos? A questão 737 do Livro dos Espíritos nos esclarece:
“Com que objetivo Deus atinge a Humanidade
por meio de flagelos destruidores? Para fazê-la
avançar mais depressa. Não vos dissemos que a
destruição é necessária para a regeneração moral
dos Espíritos, que adquirem, a cada nova existência,
um novo grau de grau de perfeição? É preciso
ver o fim para lhe apreciar os resultados. Não os
julgais senão sob o vosso ponto de vista pessoal e
os chamais de flagelos por causa do prejuízo que
vos ocasionam. Mas esses transtornos são, freqüentemente,
necessários para fazer alcançar, mais
prontamente, uma ordem melhor de coisas, e em
alguns anos, o que exigiria séculos”.
Oportuno lembrar que pode o homem refletir o caminho que escolheu para seguir. Sempre é tempo de mudar o rumo de nossas vidas, sempre é tempo de recomeçar. Ao observamos os fenômenos da natureza podemos compreender isso.
Não obstante o mundo precisa de uma atmosfera melhor onde impere a fraternidade. E isso pode começar a acontecer se dedicarmos um minuto de nossas vidas à oração que fortalece e esclarece o espírito e o ajuda a melhorar-se em todos os sentidos.
Orai e vigiai nos ensinou o Mestre, e mesmo Ele, perfeito que é, jamais se descuidou disso.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

À MODA DA CASA – PIZZA EM BRASÍLIA


*Artigo publicado no site do JORNAL RIO CLAROhttp://www.jornalrioclaro.com.br/categoria/j-costa-jr/
O que se salva na política brasileira? Pouca coisa. Ou quase nada. Através da imprensa, acompanhamos estarrecidos, porém, conformados, mais um escândalo se transformar em pizza pelas mãos hábeis do governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal.
Hoje, sem partido político, o governador pertencia ao DEM (Democratas) quando a notícia de um suposto “Mensalinho” em seu governo veio à tona.
Mas, Arruda, que em termos de habilidades ilusionistas é capaz de deixar Houdini, Copperfield e até Mister M no chinelo, quis convencer que as imagens gravadas por câmera secreta que o mostram recebendo dinheiro ilícito, na verdade, não passam de um mal entendido. Por sinal, terrível mal entendido. Que o obrigou a proferir discursos comoventes de teor Mea Culpa e até a se desfiliar do partido que o abrigava. Partido que, por sinal, prega a moralidade e a lisura com a coisa pública pelos quatro cantos do país, mas que não se constrangeu em receber em suas fileiras, o ex-senador Arruda, assumido exímio violador de painéis de votação do Senado.
Agora, lança mão das armas que possui e, através de sua influência, por incrível que pareça ainda significativa, define e manipula comissões que tratarão de desfenetrar todos os pedidos de impeachment dirigidos contra ele.
No vácuo do governador, o presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Leonardo Prudente, que, apesar de todas as manifestações públicas contrárias, reassume sua posição de destaque e a primeira medida que toma é fechar ao povo a casa do povo, ele que é – será que ele sabe disso? – representante do povo, eleito pelo povo. Não, acho que ele não sabe. Ou, assim como a maioria dos políticos deste país, é desprovido da virtude que diferencia as pessoas de boas e más intenções: a vergonha.
Em um primeiro momento, percebe-se que Renan Calheiros e José Sarney fizeram escola; que Collor, apesar de toda sua pseudo-inteligência, prepotência e esperteza, foi na verdade, um idiota, que, agora tenta recuperar o tempo perdido; que Maluf, por sua arrogância e auto-suficiência natural e origem estrangeira, foi boi-de-piranha, e que nós todos, eleitores e cidadãos somos um bando de otários incultos que nos preocupamos em saber quem morrerá no capítulo final da novela das 9, quem vai pra roça na Fazenda, e quem são os participantes do novo Babacas e Bobocas, digo, Big Brother, ou ainda, sobre o escabroso Plano Nacional de Direitos Humanos, defendido com unhas e dentes pelo Secretário Paulo Vannuchi, que promete fazer beiçinho se o mesmo não for aprovado na íntegra pelo presidente Lula, em cujas mãos a batata assa. Mas não nos interessamos e não nos preocupamos nenhum pouco em selecionar, através do voto, aqueles que farão as leis que interferem diretamente em nossas vidas e decidirão os destinos do nosso dinheiro ganho honestamente, diferentemente de alguns, com o suor do nosso trabalho.
Todavia, a triste história da corrupção em nosso país, que, a continuar nosso descaso enquanto cidadãos, ela renderá ainda muitos capítulos, começa bem antes. No momento em que o espermatozóide encontra o óvulo e dá origem a esse ser chamado Brasil. Basta ler a 1808, livro do jornalista e escritor Laurentino Gomes. Ali se encontra o código genético dessa classe que faz os brasileiros ter vergonha de si mesmos: a classe política. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

ARTE EM DESENCANTO


Não me lembro ao certo se foi o poeta concretista Ferreira Gullar quem disse: “Quando tudo é arte nada é arte”.
A arte do grafite, quando praticada por pessoas inteligentes é admirável. Não é, entretanto, o que se tem observado em Rio Claro.
Depois de longo tempo, o bairro da Santa Cruz volta a sofrer ataque dos pichadores.
Desta feita, as vítimas foram o Grêmio Recreativo, a Sociedade Veteranos e uma casa localizada na rua 10 com avenida 08 que está para alugar, portanto inabitada.
Lamentável a atitude dessas pessoas que, imaginando expressarem sua arte nada mais fazem do que emporcalhar a cidade e faltar com o respeito com o patrimônio alheio.
Nada contra os adeptos do grafite, mas duvido que pratiquem sua pseudo-arte nas paredes e fachadas de suas casas.
Deve haver um lugar e uma maneira mais adequada para isso. Se não, que os praticantes do grafite se organizem e reivindiquem.
Talvez a instalação de um grande mural em via pública de grande movimento fosse solução. A viabilidade desta alternativa ou outra merece estudo.
Se a intenção é transgredir, chamar a atenção para determinada causa, façam-no apresentando idéias de maneira clara e objetiva, e em lugares adequados, não se utilizando de um espaço que não lhes pertence.
Quando praticada assim, a arte deixa de ser um estímulo, uma forma de expressão dos valores humanos e passa a ser tão somente uma ofensa gratuita.
A tentar entender o nada que o grafite em mãos inábeis expressa é preferível ler a Tabacaria de Álvaro de Campos.
Foto ilustrativa 

domingo, 10 de janeiro de 2010

ALMA ERRANTE


O amor inspira poetas. E os poetas inspiram a humanidade. E a humanidade não percebe que as dores e os prazeres que causa e as sombras que provoca e a luz que derrama mundo a fora, é poesia.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Diários de Bicicleta (Publicado a partir de hoje, neste Blog, aos sábados).

Finalmente, depois de vários dias, o sol desponta na alvorada da Cidade Azul. Pulei da cama cedo, uma heresia em se tratando de um sábado e fui até ao Jardim Público, na região central da cidade, hábito que mantenho desde os tempos em que pelas mãos carinhosas de meu pai, em manhãs como esta, ia até a Banca do Edgard, local hoje ocupado por um simpático e eficiente engraxate, saber se já havia chegado a nova edição do Recruta Zero, comilão de pizzas.
Ao caminhar pelo Jardim, encontrei num dos bancos a edição de hoje de o Tribuna, ali esquecida por algum descuidado leitor, e, depois de matar o tempo – jornal hoje em dia serve pra isso – encontrei com o amigo Paulo Grael que sempre nos proporciona uma conversa agradável e edificante.
No Tribuna, li interessante artigo de Maria Amélia Gardenal, o Paulo Francis de saias  das Letras Rio-clarense, em que a habilidosa cronista comenta sobre a mais nova investida da elite intelectual de Rio Claro. Agora, querem porque querem que Rio Claro tenha a réplica da Torre Eiffel. Não. Não pense besteira de mim, finado leitor. Foi apenas um cafezinho que tomei hoje pela manhã. Trata-se disso mesmo: uma réplica da Torre Eiffel, a ser instalada em um dos pontos de maior movimento de veículos e pedestres da Terra dos Indaiás (E velistas!).
Não é tanto pelo desperdício do dinheiro público, porque esse problema – sai governo entra governo – parece mesmo sem solução, porque os governos nada mais são do que o reflexo do sistema que impera.
O que causa espanto, senão revolta, é o ridículo que representaria a instalação de uma réplica da garbosa e mundialmente conhecida e admirada Torre Eiffel em terras rio-clarenses, que, afinal, tem tudo haver com a França. Somos vizinhos do Asterix, sabiam?

Valha-me Deus! Seria melhor prestar homenagem mais digna ao poeta Florideu Gervásio do que aquele monumento esquisito e indecifrável a ele erigido ao lado da monumental imagem do Anjo da Concórdia.
Porque não instituir a semana Jovelina Moratelli de Letras, para resgatar o nome de uma das melhores cronistas de Rio Claro, que hoje mora no céu, mas que durante muitos anos ela publicou no Jornal Diário do Rio Claro, suas crônicas embasadas nos inquestionáveis valores morais, que hoje em dia incomoda tanta gente.
É que uma réplica da Torre Eiffel lá ficará exposta para todo sempre, ou pelo menos até que a Profecia Maia se cumpra, e eternizará o nome dos ilustres mentores da idéia. E, convenhamos, eles merecem esta glória.
Espero ansioso pelo comentário que L. Favari certamente fará em seu impagável MEGAFONE S.A (http://lourencofavari.blogspot.com/).
Como diria minha saudosa mãe: “Quem pariu Mateus que crie”. Porque eu, com toda a sinceridade, não me sujeito nem mesmo a embalar a peste.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ENTRE NUVENS


"Nós ainda passaremos muitas vezes sob a chuva. Mas agora sabemos que depois dela vem o arco-íris. E, se a chuva for forte, sabemos onde nos abrigar" - J. Costa Jr.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

A notícia dada sem grande destaque nas páginas internas do centenário Jornal Diário do Rio Claro, na edição de hoje, chama a atenção pelo inusitado. O reaparecimento, depois de 178 anos (Rio Claro conta 182) da Sociedade do Bem Comum. Essa como aquela surge de maneira misteriosa. Segundo informe do jornal seis cidadãos insatisfeitos com os rumos da administração pública reuniram-se em ato solene em 01 de dezembro de 2009 com tal finalidade. Em seu 1º. Álbum de Rio Claro, editado em 1922, conta-nos o Dr. José Romeu Ferraz, que fora o reorganizador do diretório político do Partido Social Progressista de Rio Claro, e chefe da Casa Civil do governador Lucas Nogueira Garcez (1931-1982),  que a Sociedade do Bem Comum original foi criada em 1832, por vinte e oito dos mais ilustres homens de Ribeirão Claro (a antiga denominação da cidade) na casa do Capitão Estevam Cardoso de Negreiros com o objetivo de defender os interesses e promover o progresso local. Após anos de atuação constante e realizadora desapareceu definitivamente em 03 de janeiro de 1839, após três anos de inatividade. Na derradeira sessão o acontecimento de maior destaque, conforme nos relata o Dr. Ferraz, foi da posse do Padre Manoel Rosa de Carvalho como vigário em substituição ao padre Delphino da Silva Barbosa, um dos fundadores de Rio Claro. Coube ao Padre Rosa levar adiante a construção da Igreja Matriz (a primeira). O Padre Delphino, que, doente, permanecera em Rio Claro, morreria no ano seguinte.
No período de sua existência, a Sociedade do Bem Comum, a original, supriu a ausência das ações em benefício de Rio Claro, por parte do governo estadual (à época província) e também do governo municipal que se via impossibilitado de fazê-lo por falta de recursos.  Por isso teve atuação decisiva nas melhorias da qualidade de vida reclamada pelos rio-clarenses naquele tempo. Desapareceu quando os poderes constituídos passaram a ver Rio Claro com outros olhos devido o aumento significativo da população.
Especula-se que, com outros nomes e sob outras “bandeiras” e ideologias, a Sociedade do Bem Comum jamais deixou de existir em Rio Claro, interferindo na vida cultural e política da cidade, em alguns momentos, de maneira decisiva.

Se a nova obterá êxito, se é uma reinvenção da original, só o tempo dirá. Desejamos, contudo, boa sorte. E que esta boa sorte signifique verdadeiramente o mesmo para toda Rio Claro, e não apenas para alguns.
Foto ilustrativa: Igreja Matriz de São João Batista de Rio Claro/SP, cuja construção foi aspiração da Sociedade do Bem Comum de Rio Claro.  Fonte: http://www.visiterioclaro.com.br/

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

TESTAMENTO






Os artistas, invariavelmente, sucumbem à sua missão, na Terra. Muitos  se deixam levar pelo orgulho e egoísmo, e se perdem no vício do álcool, da promiscuidade e das drogas. E quando não do suicídio.
Bateram à porta e pediram. E lhes foi dado. Mas o erro fatal que cometem é pensar que podem tudo. E que tudo vem deles e não através deles.
Hábeis mensageiros que antes de chegar ao destino param pra tomar um porre de convencimento. Acham-se bons. Possuidores de virtudes e sabedoria que não lhes pertencem.
Nenhuma acusação. Apenas constatação. Já estive entre eles. Por isso atualmente estou em "regime semi-aberto". Porque Deus sabe o estrago que eu seria capaz de fazer.
Mas isso não me constrange. Ao contrário, me serve de estímulo. Dá-me oportunidade de saber que sei fazer mais do que empunhar uma espada, digo um lápis. E isto, caríssimo, creia-me é deveras consolador.
Deixemos de lado as palavras rebuscadas que para nada servem. Voltemos atenções e pensamentos para o nosso eu interior. É nele que se encontram todos os nossos anseios e expectativas. Ali o medo nos espreita. Ali a res do chão encontra-se a nossa importância.
À nossa frente, dois caminhos a escolher: Ser um intermediário do Mais Alto. Ou ser uma caixa de ressonância do nosso passado, e daqueles que partiram antes de nós e dos que esperam ávidos para voltar.
Que cada um faça a sua escolha. Conscientes de que a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória.
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TESTAMENTO
Seg, 04 de Janeiro de 2010
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domingo, 3 de janeiro de 2010

PRIMEIROS ERROS

Não poderá o leitor jamais ter a idéia da importância do fato. Mas, pela primeira vez, pelo menos que eu me lembre, não errei o meu nome ao digitá-lo. Nunca fui um exímio digitador. Se tivesse dinheiro contrataria uma secretaria para a desgraçada tarefa de tornar legíveis os meus manuscritos.

Muitas outras coisas eu teria feito na vida se tivesse dinheiro. Mas eu nunca tive. Não ao menos dessa vez.
Nada disso é importante no momento. E não é sobre isso que eu quero falar. Não.
É que não imaginava que vinte anos depois iria sentir a mesma dor lancinante rasgar o meu peito.
Bons escritores são aqueles que têm o triste hábito de perder suas disputas para com a vida. Seja no amor, na saúde, no tempo. O derradeiro é uma derrota inevitável e não se constitui privilégio. O anterior é uma questão de escolha. Considerando, é claro, que no baralho da vida, bons escritores jamais têm o curinga nas mãos. E o primeiro... Bem, este não é uma disputa, é geralmente uma tragédia, onde não há vencedores. Pessoas comuns transformam isso em lágrimas. Bons escritores transformam em palavras.
Diga-me quem souber como se faz para escrever sobre dor e perda sem faltar com a dignidade. Diga-me, por favor, porque não sou um bom escritor.
Ante a derrota têm-se duas opções: Ou se depõe às armas ou se diz adeus à esperança, mira-se o futuro e segue-se o caminho adiante, até onde for possível, sem olhar para trás.
Pois a vida demonstra, é o que me resta a fazer. Nem Jesus Cristo desejou a cruz. Mas enfrentou-a.
É vitória perder com dignidade? Não acho que seja. Aos 19 anos pode ser até poesia e um motivo para escrever. Vinte anos depois é o fel que se tem de beber. Não para matar a sede. Mas para começar a morrer.
Bons escritores tendem a exacerbar tudo. Senão com as palavras, mas com sentimentos. Os excessos que a razão dispensa sem remorso na palavra escrita, a vida se apodera sem cerimônias.
Acontece com o homem quando nada preenche o vazio do seu coração. Nem mesmo a noite que tudo permite e oferece.
O terrível, o deprimente não é olhar para o relógio digital do computador e ver que já são 11 da noite, mais um domingo, o primeiro do ano, que se vai. Mas, saber que outros virão do mesmo modo, e do mesmo modo passarão e até quando puderem levarão consigo o pouco de esperança que ainda resta.
Bons escritores ao lerem o coração alheio decifram a mente de seus donos. E fazem milagres na vida de outros. De todos os outros. Menos nas suas.
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PRIMEIROS ERROS
Sáb, 09 de Janeiro de 2010
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DALVA DE OLIVEIRA: RAINHA SEM REINO


A Rede Globo traz a partir de segunda-feira, 04, a minissérie “DALVA E HERIVELTO” assinada por Maria Adelaide Amaral. No elenco, a sempre competente Adriana Esteves, no papel da cantora Dalva de Oliveira e Fábio “Ex-Muito Louco” Assunção de talento igualmente inquestionável, senão o melhor ator de sua geração, interpretando o compositor Herivelto Martins.
A idéia é mostrar o tórrido e tumultuado romance entre a rio-clarense (opa, perdão Dalva) e Herivelto.
É possível que o telespectador logo perceba de que já na década de 40 tudo valia a pena no mundo artístico para chamar a atenção do público e assim vender mais alguns disquinhos.
Dalva de Oliveira, como todos sabem (o quê?!) nasceu em Rio Claro/SP. Embora não gostasse muito de lembrar-se disso, exceto da sua infância, mas isso não conta, porque, da infância, geralmente (claro, há exceções) todo mundo gosta de lembrar.
Ela torcia o nariz para Rio Claro e com toda a razão, porque, em verdade, e Dalva tinha consciência disso, os formadores de opinião da época (leia-se: os desocupados do Jardim Público – ah, eles continuam existindo!), os homens mui-cultos da imprensa radiofônica e escrita, e, claro, eles, os padres, e as comadres das janelas dos casarões da região central da cidade, enfim, todo mundo, vai, diga logo de uma vez, tinha inveja dela e achavam na pureza dos seus corações e mentes que ela, Dalva de Oliveira, por ser artista, era um mau exemplo made in Rio Claro produzido para o mundo.
Mas, o tempo, é o senhor da razão. Passados décadas, ninguém se lembra daquelas pessoas, a maioria de nós, graças a Deus, sequer sabe que existiram. Dalva, por sua vez, merece uma minissérie da TV Globo. O que convenhamos se não é o bastante para homenageá-la, também não é pouca coisa.
Rio Claro, desse modo, carrega consigo, o remorso incurável de ter renegado aquela que pode ter sido a sua filha mais ilustre. Diferentemente de Ulisses Guimarães, ela realmente nasceu neste chão abençoado de São João Batista do Ribeirão Claro.
Aliás, pensando bem, é próprio de Rio Claro renegar os seus. Por alguma razão idiota, em determinada época de sua história, a Câmara Rio-clarense retirou o São João Batista do nome da cidade reduzindo-o simplesmente a Rio Claro. Não me consta que São Carlos, São José do Rio Preto, São José dos Campos, São Paulo, pra citar algumas cidades, tenham feito o mesmo. E, por ironia do destino, são cidades que alcançaram um progresso jamais visto nem de perto por Rio Claro.
Mas, falemos de Dalva de Oliveira, a maior cantora brasileira da Época de Ouro do Rádio.
A melhor definição para a relação de amor e ódio entre Dalva e os rio-clarenses, foi dada recentemente pelo ilustre advogado Dr. Jouber Turolla, que, além de fã assumido, possui vasto material de pesquisa sobre a cantora. Ele assim se expressa: “Rio Claro sempre teve o perfil de cidade conservadora. Na década de 40, o artista era visto com discriminação. Era o caso de Dalva de Oliveira, de origem humilde e mulata. Esse conservadorismo, na verdade, escondia certa inveja”.
Pois se Dalva desfraldou a Bandeira Branca para o seu grande amor, Rio Claro, condoída e cheia de remorso e arrependimento tenta fazer o mesmo há muito tempo sem jamais conseguir. E certamente jamais conseguirá. Porque já é tarde. Perdeu-se a oportunidade. A cidade precisa deixar o seu orgulho de lado, característica que lhe é peculiar, e homenagear e respeitar os seus filhos enquanto são vivos.
Em meados dessa década que chega ao seu final, o prefeito Claudio de Mauro, que durante sua administração, procurou incentivar bastante a produção cultural da Cidade Azul, urbanizou um espaço ocioso existente ao lado de um dos cruzamentos mais movimentados da cidade tornando-o uma praça moderna, bonita e agradável de freqüentar, a qual deu o nome de Dalva de Oliveira.
Era hábito – não sei se atualmente acontece – as pessoas reunirem-se ali aos domingos, aos finais de tarde, para fazer serestas e relembrarem antigos sucessos da era de ouro do rádio brasileiro, período que Dalva de Oliveira, por seu talento excepcional, fora soberana.
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DALVA DE OLIVEIRA: RAINHA SEM REINO
Dom, 03 de Janeiro de 2010
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sábado, 2 de janeiro de 2010

ASSIM, POR QUÊ?

Acabo de ler Por que estou assim? – romance espírita psicografado por Pedro Santiago, de autoria do espírito Dizzi Akibah, publicado pela Editora EME do Centro Espírita Mensageiros da Esperança de Capivari/SP (www.editoraeme.com.br).  É a história de Julian, jovem francês, órfão de pai, filho de mãe prestimosa e amável (Genoveve) que se engaja na Primeira Cruzada motivado pela possibilidade de se enriquecer através das pilhagens, prática comum durante as guerras daquele tempo, onde os vencedores roubavam tudo o que podiam dos vencidos até mesmo as roupas. Julian obtém o seu intento, guiado por um espírito obsessor que dele se utiliza com único objetivo de se vingar de um antigo desafeto. Mas Julian acaba permanecendo em Jerusalém e se apaixonando por Haddad moça de boa índole e afeita aos princípios cristãos. Ela resiste às investidas de Julian. E este, encontra na mãe de Haddad uma aliada para o seu projeto de conquistar a jovem. Traído, Julian acaba preso e se suicida. Oito séculos depois, ressurge no plano físico, na capital federal do Brasil, numa família humilde, como Deolindo. Portador de deficiências físicas, Deolindo aprende a ler e escrever por intermédio de Leda, jovem que é filha dos proprietários das terras onde vive a família de Deolindo. Leda não é senão Genoveve a mãe que ele rejeitara no passado. Sentindo-se útil finalmente, Deolindo encontra na escrita motivação para superar as limitações do corpo físico, e encontrar resposta para o seu sofrimento.
A Literatura Espírita é a que mais desperta interesse  no Brasil, principalmente entre o público feminino. Só a editora EME possui mais de 400 títulos em seu catálogo. Estima-se que no país existam cerca de 20 mil títulos que tratam sobre o assunto.
Surgido na França, através do codificador Allan Kardec, em 1857, O Livro dos Espíritos inaugurou esse gênero literário. A obra básica de Kardec é constituída além deste citado de outros quatro títulos: O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865), A Gênese (1868).
No Brasil, a partir do médium Francisco Candido Xavier (1910-2002) que, psicografou 412 obras e vendeu cerca de 20 milhões de livros, que a Literatura Espírita ganhou projeção e destaque.
A maior razão, dentre tantas, para que esse gênero literário encontre receptividade tão grande entre os brasileiros é porque traz no seu bojo uma mensagem consoladora de esperança e paz. Em geral, são histórias de pessoas que após muito sofrimento percebem a importância dos princípios cristãos e dos valores morais que estes ensinam os únicos realmente capazes de proporcionarem a felicidade duradoura almejada por todos.
Num primeiro momento, para aqueles que jamais tiveram contato com a Doutrina Espírita Kardecista uma literatura desse gênero que fala sobre reencarnação e aprimoramento moral através do esforço, pode até assustar. Todavia, não nos esqueçamos que as obras como O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien (1892-1973) e a saga Harry Potter  de J. K. Rowling (1965-) trata de temas baseados no sobrenatural. Com uma diferença: são fantasias. A Literatura Espírita é relato de casos reais. E por isso mesmo é que conforta e dá esperança, porque igualmente às fantasias mostra que o bem sempre vence. E vai mais fundo, demonstra que o mal, não é senão um estado de ignorância transitória. E que a Luz vem do alto, e por essa razão ilumina a todos.

Pedro Santiago, que psicografou Por que estou assim? é natural de Serrinha, no estado da Bahia. Jornalista, radialista aposentado dedica-se à divulgação da Doutrina Espírita proferindo palestras. Desde 1990, psicografa obras literárias sob a orientação do espírito Dizzi Akibah. Dentre elas: a duologia Raboni, além de Laços de Amor Eterno, Sem Nunca Dizer Adeus e Um Dia no Passado.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

DR. PROLEGÔMENOS




Na pena dos autores brasileiros os charutos são sempre cubanos.
Não, seu burro, teclas, não penas. Quem ainda escreve com bico de pena? Quem acende velas, sobre a mesa, amontoada de papéis e mais papéis, que o vento passará a noite toda tentando apagar.
Agora, o rádio está ligado, e nosso herói, diante do computador. Mas ele não é Shakeaspere. Jamais terá uma livraria com seu nome. Suas aspirações literárias, desprovidas de sanidade, jamais serão concretizadas, e ele, ao amanhecer do dia, após o intenso e descomunal esforço daquela noite, realmente aceitará o vaticínio de que suas ficções jamais serão lidas.
Qual seu nome? Quê importa!
Adolphe, bispo de Argel, faria melhor uso das palavras.
De minha parte, apenas tento entender, enquanto escrevo, que cinismo mais absurdo o desse jovem!
Da janela de seu apartamento, ele observa a passeata na Paulista. Vai quebrar o pau, pensa.
Levantou há instantes pra ir ao banheiro, e resolveu dar uma espiada lá embaixo. Soubera sobre o incidente pela Internet, antes de se entregar à sessão diária de masoquismo: escrever sua tese de doutorado. Às vezes, sentia-se um leão. Devorava a pilha de livros acadêmicos nos quais pesquisava; redigia duas laudas, três, quatro laudas, num piscar de olhos, sempre bebendo água, no copo colocado na mesa ao seu alcance. Sabe que depois dos 30, irrigará os neurônios com cafeína. É o que faz todo mundo. Café, depois dos 30.
Volta para o computador, e jamais aquela cadeira giratória, lhe parecera tão desconfortável. Talvez fosse bom colocar os pés sobre a mesa. Mas se a doutora chega e o surpreende nessa posição, pronto, terá de comer lanche no jantar. De novo.
Toca o telefone. A supervisora da escola reclama dos meninos. É quando ele se pergunta: Filhos, pra quê? Achava mesmo que a desgraça da vida era os bilhões de seres humanos que habitam o globo. Bastariam milhões. E haveria, certamente, casa, comida, e emprego para todos.
Esta deprimente e não menos revoltante situação o fazia abençoar os dois mil e duzentos reais que lhe rendiam todos os meses aquela bolsa de estudos. Ainda que o mês, muitas vezes, tinha sessenta, noventa dias.
A doutora, sua esposa, gastou 990 reais com cartões de crédito, conforme as faturas. De repente, tal infeliz pensamento, furtou-lhe a concentração.
Concentração, método, disciplina. Que gangue! Eram irmãos? Univitilíneos? Claro, só poderiam ser. Desprezíveis!
Vá dizer a Modiglianni que ele precisaria de lucidez para produzir suas telas. Vá!
Pouco importa. O problema era como pagaria o cartão aquele mês?
Os parágrafos, as idéias, as palavras, vão se danar, ele pensava. A tese ? Idem. E a banca examinadora? Que morram todos.
Deletou o que havia escrito naquela tarde, e foi pra Avenida Paulista comemorar mais um Reveillon. Afinal, sentia-se alguém, quando era apenas mais um idiota perdido na multidão.

O VÍCIO QUE LIBERTA


"Livro bom é um texto bom. E texto bom não conhece o tempo". - J. Costa Jr.

Ilustração: http://marcosfmatos.blog.uol.com.br/arch2008-06-01_2008-06-30.html

2009


Que parte sem deixar saudade