terça-feira, 26 de janeiro de 2010

DÉBORA


Visitar o túmulo da mãe lhe representava tarefa penosa. Olhar aquele monte de tijolos, ornamentado por azulejos antigos e imaginá-la ali dentro, dormindo o sono eterno, enquanto esperava a justiça de Deus, não conseguia. A mãe não estava ali. E Débora não sabia onde. Daí sentir-se ridícula ao visitar aquele túmulo. Se orasse, pensasse ou falasse qualquer coisa, como tentara as poucas vezes que ali estivera, seria em vão, estava certa disso. Nenhuma atitude que tomasse faria com que sentisse novamente a presença da mãe. O que a incomodava. E muito.


Ao cair da noite, no caminho de volta para casa, dava-lhe náusea a certeza de que encontraria o pai, sentado na poltrona da sala, com a camisa desabotoada, para fora da calça, e os pés fedorentos, à espera do chinelo, que ela, submissa, lhe calçaria. Aturar aquele gordo roliço, sempre mal humorado, incapaz de um gesto de simpatia, implicando com tudo, desde o jeito dela falar até o modo como se sentava e a roupa que vestia. Suportá-lo. Dia após outro. Levantar às quatro e meia da manhã, esquentar o leite, cortar o pão e servi-lo. Tarefas que durante anos couberam à dedicada mãe, agora lhe pertenciam. Assim como apanhar o jornal na área, entregá-lo em mãos, colocar-se de lado, tal como prestimosa serviçal. Disposta a ceder-lhe aos caprichos e beijá-lo na boca, quando ele saía para trabalhar. Vê-lo partir, desaparecer na poeira e na distância, implorando a Deus para que não voltasse nunca.
Às primeiras luzes da manhã, Débora já estava no quintal, tratando dos passarinhos. Depois, sentava-se no pilar do rancho, fechava os olhos, e encontrava paz. E eram aqueles os únicos momentos que se sentia feliz: quando estava em paz. Longe do pai. Longe do mundo e das pessoas. À parte os momentos de solidão e nada tinha o poder de acalmar-lhe o espírito.
De repente, como se voltasse de um estado de êxtase, via-se lavando no tanque as roupas imundas do pai. Enquanto a roupa secava no varal e os canários dobravam disputando entre si sua atenção, Débora preparava o almoço, que apesar de todo empenho, jamais agradava aquele homem, que Deus, por razões que desconhecia e abominava, havia feito cruzar-lhe caminho na condição de pai. Tinha de esperá-lo empanturrar-se antes para poder sentar-se à mesa, e, sozinha, alimentar-se.
Pai e filha não tinham o hábito de conversar senão o necessário. Sequer aos domingos, quando juntos, iam a primeira missa do dia. Isolados sob o mesmo teto. Digladiando-se em pensamentos, desejos e olhares.

À tarde, Débora cuidava da limpeza da casa. Aos finais de semana, sobrava-lhe algum tempo para escutar programas de rádio. Este era o remédio que a mantinha viva, embora a doença, que era a companhia do pai, já houvesse lhe debilitado terrivelmente a alma, fazendo-a perder a fé, os sonhos e a capacidade de suportar as indiferenças da vida que sempre acometem as pessoas sensíveis. Com o passar dos anos, criara para si um mundo paralelo, feito de solidão e silêncio onde vivia a maior parte do tempo. Mas agora estava cansada. Não podia sequer olhar-se no espelho. Não podia descabelar-se como tantas vezes quisera. Não podia nem mesmo despir-se e sair correndo pelas ruas, feito uma louca possuída. Nada podia. O pai a proibira de tudo. Tornando-a incapaz de rebelar-se, de lhe dizer não. Ele a convencera com o tempo que a mãe morrera por sua culpa.
Aos quinze anos Débora fugira de casa com o namorado. Duas semanas passaram em Santos, pegando onda, conhecendo o mundo, descobrindo o prazer que na tola ingenuidade dos seus quinze anos imaginavam ser amor. Passara aqueles dias sem dar notícias, sequer para dizer onde estava. E enquanto estivera fora, a mãe morrera e o pai, ferido em seu orgulho, trocara o trabalho de empilhadeirista pelos bares da vida. Até que um amigo, compadecido, lhe emprestara o caminhão para viajar e ganhar uns fretes, até conseguisse arrumar outro emprego, o que, considerando os seus quarenta e seis anos, seria difícil. Ao volante de um caminhão, Gumercindo, o pai de Débora, muitas vezes acreditara estar vendo a filha naquelas meninas com as quais cruzava nos postos de beira de estrada, nos bordéis que costumava freqüentar e nos restaurantes onde ele era servido com privilégio por atenciosas garçonetes, a custa de generosas gorjetas.

Distante do pai, na praia, quer fosse perto das ondas ou sentada nas pedras da orla, Débora mantinha-se longe das pessoas, porque estava convencida de que a humanidade em beleza e sabedoria atendia pelo nome de Marquinho, o seu namorado. Ele dizia amá-la. E tentava demonstrar-lhe isto. Até que uma noite, Marquinho aproxima-se e toca-lhe o corpo com o carinho de um anjo e lhe faz promessas que, ambos sabem, jamais serão cumpridas. Com 15 anos, Débora acorda pela manhã, ao marulho das ondas, das aves e da civilização atrás de si. Acorda, acreditando ter conhecido finalmente o amor.
Nos dias que se seguem ambos procuram com desespero preservar aquele sentimento. Em seus corações, bate um vento forte e destruidor que se chama realidade. Faz estragos. Leva consigo a esperança de que aqueles dias poderiam ser eternos. Não há dinheiro. Sequer para um refrigerante. É preciso voltar. E o fazem.
Eles conseguem carona na estrada, no pé da Serra, próximo à Cubatão. Já era noite quando o motorista, alegando fome e cansaço, pára no acostamento de um posto. Débora permanece no carro, enquanto o namorado e o motorista vão até o banheiro e depois à lanchonete. Ela os observa à distância. Desconfiada, vê quando eles se afastam do posto, tomando o rumo do matagal logo atrás. Minutos depois, Marquinho retorna sozinho, com as chaves do carro na mão, rindo, achando ter feito grande coisa, julgando-se herói.
Revoltada, sem poder acreditar no que ele havia feito Débora, o deixara ali mesmo. Tomara o acostamento da estrada, ouvindo os desaforos com os quais ele retribuía todo o carinho e o amor que dela recebera naquelas duas semanas.
Dias e noites ela caminhara pelo acostamento. Alguns motoristas paravam para lhe oferecer carona, mas recusava, e estava disposta a fazê-lo até que algum menos comportado a obrigasse a entrar no veículo.
Numa tarde nublada e de relâmpagos que rasgavam o céu prometendo chuva a qualquer instante, cansada e faminta, Débora caiu desfalecida no acostamento de uma rodovia.
Minutos depois, um caminhão que passara já indo distante, diminuíra a velocidade aos poucos até parar. O motorista descera e armado de revólver que trazia escondido na cintura aproximara-se com cautela, tentando identificar à distância quem era a pessoa caída.
Não tivera dúvida nem receio de socorrê-la quando reconhecera Débora, sua filha. Todavia, preocupado com as aparências e o pensamento das pessoas que não lhe davam de comer nem lhe pagavam as contas, mas se achavam no direito de opinar sobre sua vida, Gumercindo tivera o cuidado de chegar tarde da noite em casa, para que não fossem ele e a filha, surpreendido pelo olhar curioso e a boca maldita dos vizinhos.
Pusera-a deitada na cama, e no dia seguinte não fora trabalhar, esperando que Débora acordasse.
Ao ver o pai, parado ao pé da porta, o olhar compenetrado nela, seus olhos se encheram de lágrimas, temia o pior castigo. Esperou encontrar o velho cinto de couro na mão do pai, mas, ao invés disto, ele, segurava um retrato da esposa. Então, Débora percebeu que não era apenas ela que, naquele momento, tinha lágrimas nos olhos.

Desprezo e subordinação, este fora o castigo que recebera. O pai a culpara pela morte da mãe, e jamais a perdoara por isso.
Os anos passaram, dezesseis anos, aqueles que poderiam ser os melhores de sua vida. Agora Débora tinha 31 e nenhuma lembrança nenhuma boa recordação, nem dos momentos lúdicos vividos intensamente com Marquinho.
Não suportava mais tal situação. Naquela tarde, enquanto enxugava-se após tomar banho, olhou-se no espelho, e de seus olhos verteram lágrimas ao reparar as primeiras rugas. Mesmo chorando, continuou olhando-se no espelho, afastou-se para que pudesse se observar por inteira. Percebeu que a cintura apresentava flacidez. As coxas das pernas, onde Marquinho certa vez escrevera um poema em que prometia amá-la para sempre, revelavam sinais de celulite. O cabelo, que chegava à cintura, quebradiço, sem brilho, sem volume, tão diferente do que fora um dia, porque já demonstravam os primeiros fios brancos.
O tempo passara, e Débora não vivera. Senão nos seus sonhos mais inconfessáveis; e desejos mais reprimidos. Refugiara-se num mundo impenetrável para outros. O silêncio da solidão, único lugar onde era feliz, porque encontrava paz. Longe do mundo real e das pessoas. Dentro de si mesma.
Nua, deitou-se na cama. Ao tocar sua parte mais íntima, o fogo alastrou-se por todo corpo, incendiando-lhe o desejo. Viu-se dominada por um tremor como se um botão de rosa vermelha desabrochasse dentro de si. E compreendeu com certa alegria que, embora rejeitada, atormentada e esquecida, por todos e por si mesma, ainda era mulher.
De repente lembrou-se de Marquinho, o namoradinho, o único homem que conhecera. Lembrou-se do sorriso e do olhar desapontado dele ao perceber que ela reprovara a sua infeliz atitude, que ele, movido pela ousadia, julgava uma atitude heróica. Débora nunca mais o vira. Não sentira falta dele. Mas a partir de agora estava disposta a resgatar as boas lembranças que ele lhe proporcionara. As boas. Pois que eram as únicas.
Ainda molhada, deitara na cama, onde permanecera durante horas. Depois se levantara e, antes de tomar banho, abrira a janela do quarto, para que pudesse ser envolvida pela brisa refrescante.
Queria que aquela tarde não terminasse nunca. Elevar-se até o céu, de corpo e alma, e perder-se na escuridão da noite que já se aproximava.
O único momento bonito de sua vida não fora senão ilusão. Durante dezesseis anos pensara assim. Mas a partir daquele instante não pensaria mais.
Já era madrugada quando fora até a sala. A velha televisão estava ligada, fora do ar. O pai, sentado na poltrona. Jornais e revistas espalhados pelo sofá. Garrafas de cerveja sobre a mesinha de centro. No chão, ao lado da poltrona, uma travessa de plástico com restos de pipocas.

Débora parou a frente do pai. Estava nua. Tomou-lhe a mão, e fez com que ele a acariciasse. Tão profundo era o estado de embriaguez do pai, que ele sequer dera conta do que estava acontecendo. A mão do pai era forte. E gelada.
Afastou-se dele. E ao abandoná-lo, sentira-se quites com o pai e com a vida.
Eram quase dez horas da manhã seguinte quando chegara ao cemitério. Não perdera tempo procurando a foto da mãe, que jamais havia sido colocada.
No túmulo, ao lado, apanhou uma rosa de um buquê ali deixado. Aspirou o perfume da rosa e a levou de encontro ao peito. Fechou os olhos. Lá estava para pedir perdão à mãe. E pela primeira vez, sentira a presença dela. Que outro alguém se preocuparia em convencê-la de que não deveria sentir remorso pelo que fizera.
Voltara a pé para casa. Dias depois, vendera o imóvel e se desfizera do mobiliário e dos pertences do pai por um preço módico. Afinal não era grande coisa.
No dia em que completara 32 anos, recebera o dinheiro do seguro que o pai lhe deixara. Nenhum dinheiro compensaria o que tirara dela aqueles anos todos: a liberdade; a capacidade de sonhar e ter esperança.

Tivera vontade de rasgar o cheque e defecar sobre o mesmo ao recebê-lo das mãos do agente da seguradora. Mas precisaria daquele dinheiro. Serviria para manter-se por alguns anos. Pois embora já houvesse queimado aqueles malditos vestidos, e melhorado muito a aparência, olhando-se no espelho, todavia, lembrava-se de que não tinha estudo, não tinha profissão, não tinha emprego. Não queria viver à sombra de um homem. Não suportaria de novo. Não fora para isso que viera ao mundo. Queria começar a viver. Acreditar que isto era possível.

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