sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

DR. PROLEGÔMENOS




Na pena dos autores brasileiros os charutos são sempre cubanos.
Não, seu burro, teclas, não penas. Quem ainda escreve com bico de pena? Quem acende velas, sobre a mesa, amontoada de papéis e mais papéis, que o vento passará a noite toda tentando apagar.
Agora, o rádio está ligado, e nosso herói, diante do computador. Mas ele não é Shakeaspere. Jamais terá uma livraria com seu nome. Suas aspirações literárias, desprovidas de sanidade, jamais serão concretizadas, e ele, ao amanhecer do dia, após o intenso e descomunal esforço daquela noite, realmente aceitará o vaticínio de que suas ficções jamais serão lidas.
Qual seu nome? Quê importa!
Adolphe, bispo de Argel, faria melhor uso das palavras.
De minha parte, apenas tento entender, enquanto escrevo, que cinismo mais absurdo o desse jovem!
Da janela de seu apartamento, ele observa a passeata na Paulista. Vai quebrar o pau, pensa.
Levantou há instantes pra ir ao banheiro, e resolveu dar uma espiada lá embaixo. Soubera sobre o incidente pela Internet, antes de se entregar à sessão diária de masoquismo: escrever sua tese de doutorado. Às vezes, sentia-se um leão. Devorava a pilha de livros acadêmicos nos quais pesquisava; redigia duas laudas, três, quatro laudas, num piscar de olhos, sempre bebendo água, no copo colocado na mesa ao seu alcance. Sabe que depois dos 30, irrigará os neurônios com cafeína. É o que faz todo mundo. Café, depois dos 30.
Volta para o computador, e jamais aquela cadeira giratória, lhe parecera tão desconfortável. Talvez fosse bom colocar os pés sobre a mesa. Mas se a doutora chega e o surpreende nessa posição, pronto, terá de comer lanche no jantar. De novo.
Toca o telefone. A supervisora da escola reclama dos meninos. É quando ele se pergunta: Filhos, pra quê? Achava mesmo que a desgraça da vida era os bilhões de seres humanos que habitam o globo. Bastariam milhões. E haveria, certamente, casa, comida, e emprego para todos.
Esta deprimente e não menos revoltante situação o fazia abençoar os dois mil e duzentos reais que lhe rendiam todos os meses aquela bolsa de estudos. Ainda que o mês, muitas vezes, tinha sessenta, noventa dias.
A doutora, sua esposa, gastou 990 reais com cartões de crédito, conforme as faturas. De repente, tal infeliz pensamento, furtou-lhe a concentração.
Concentração, método, disciplina. Que gangue! Eram irmãos? Univitilíneos? Claro, só poderiam ser. Desprezíveis!
Vá dizer a Modiglianni que ele precisaria de lucidez para produzir suas telas. Vá!
Pouco importa. O problema era como pagaria o cartão aquele mês?
Os parágrafos, as idéias, as palavras, vão se danar, ele pensava. A tese ? Idem. E a banca examinadora? Que morram todos.
Deletou o que havia escrito naquela tarde, e foi pra Avenida Paulista comemorar mais um Reveillon. Afinal, sentia-se alguém, quando era apenas mais um idiota perdido na multidão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário