domingo, 3 de janeiro de 2010

PRIMEIROS ERROS

Não poderá o leitor jamais ter a idéia da importância do fato. Mas, pela primeira vez, pelo menos que eu me lembre, não errei o meu nome ao digitá-lo. Nunca fui um exímio digitador. Se tivesse dinheiro contrataria uma secretaria para a desgraçada tarefa de tornar legíveis os meus manuscritos.

Muitas outras coisas eu teria feito na vida se tivesse dinheiro. Mas eu nunca tive. Não ao menos dessa vez.
Nada disso é importante no momento. E não é sobre isso que eu quero falar. Não.
É que não imaginava que vinte anos depois iria sentir a mesma dor lancinante rasgar o meu peito.
Bons escritores são aqueles que têm o triste hábito de perder suas disputas para com a vida. Seja no amor, na saúde, no tempo. O derradeiro é uma derrota inevitável e não se constitui privilégio. O anterior é uma questão de escolha. Considerando, é claro, que no baralho da vida, bons escritores jamais têm o curinga nas mãos. E o primeiro... Bem, este não é uma disputa, é geralmente uma tragédia, onde não há vencedores. Pessoas comuns transformam isso em lágrimas. Bons escritores transformam em palavras.
Diga-me quem souber como se faz para escrever sobre dor e perda sem faltar com a dignidade. Diga-me, por favor, porque não sou um bom escritor.
Ante a derrota têm-se duas opções: Ou se depõe às armas ou se diz adeus à esperança, mira-se o futuro e segue-se o caminho adiante, até onde for possível, sem olhar para trás.
Pois a vida demonstra, é o que me resta a fazer. Nem Jesus Cristo desejou a cruz. Mas enfrentou-a.
É vitória perder com dignidade? Não acho que seja. Aos 19 anos pode ser até poesia e um motivo para escrever. Vinte anos depois é o fel que se tem de beber. Não para matar a sede. Mas para começar a morrer.
Bons escritores tendem a exacerbar tudo. Senão com as palavras, mas com sentimentos. Os excessos que a razão dispensa sem remorso na palavra escrita, a vida se apodera sem cerimônias.
Acontece com o homem quando nada preenche o vazio do seu coração. Nem mesmo a noite que tudo permite e oferece.
O terrível, o deprimente não é olhar para o relógio digital do computador e ver que já são 11 da noite, mais um domingo, o primeiro do ano, que se vai. Mas, saber que outros virão do mesmo modo, e do mesmo modo passarão e até quando puderem levarão consigo o pouco de esperança que ainda resta.
Bons escritores ao lerem o coração alheio decifram a mente de seus donos. E fazem milagres na vida de outros. De todos os outros. Menos nas suas.
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PRIMEIROS ERROS
Sáb, 09 de Janeiro de 2010
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