quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

RABISCOS E CUSPES

Por que no Brasil a literatura de ficção não forma leitores? Pergunta impertinente, incômoda e fácil de ser respondida.


Na lista dos “Mais Vendidos”, publicada semanalmente no caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo, encontra-se de tudo, mas bem pouco autores brasileiros e, portanto, menos ainda, enredos, personagens e narrativas, com as quais, em tese, o leitor encontraria afinidades.

Têm-se a impressão que o leitor brasileiro não se vê representado por seus autores, daí seu desinteresse por literatura de ficção.

Ainda que os intelectuais que se consideram guardiões perpétuos da literatura nacional, torçam o nariz, mas a realidade é que a literatura espírita, por exemplo, vai de vento em popa. E por quê? Porque o leitor encontra afinidades com os dramas ali narrados e com a vida dos personagens retratados. Mal comparando, a mesma empatia se verifica entre telespectadores e telenovelas.

A literatura americana, por exemplo, encontrou seu rumo, quando rompeu com a literatura inglesa no período pós Guerra da Independência (1775 a 1783). Nessa época, surgiu James Finemore Cooper narrando a saga Os Pioneiros, ficção que logo cairia no gosto popular porque retratava a realidade do povo americano da época.

João Ubaldo Ribeiro nos fala da síndrome de vira-lata da qual padecemos. Entretanto, bons escritores brasileiros não faltam. Aliás, jamais faltaram. O problema é que a literatura já na escola é apresentada à criança como bicho de sete cabeças, produzida por lunáticos alienados, potenciais suicidas, quando não beberrões deprimidos. Pode até ser verdade, em parte, mas essa é apenas a ponta do iceberg. Não se discute a literatura, em sala de aula, como forma de entender as origens de nossa formação social e política e os caminhos que estas tomaram ao longo dos tempos. Atem-se apenas à enfadonha análise da sintaxe, ao estudo minucioso da gramática. Fragmentam-se textos, tornando-os sem sentido, apenas para explicar a conjugação do verbo, a colocação do pronome e do sujeito, a pontuação e a ortografia corretas, e blá-blá-blá, blá-blá-blá...

As grandes editoras brasileiras, por razões comerciais, investem em autores e obras estrangeiras consideradas Best seller’s esperando com isso garantir a venda desses lançamentos. Até aí tudo bem. Ocorre que não se interessam em revelar autores nacionais que retratam temas nacionais. Pois, se a literatura, porque assim dizem os doutores em Letras, deve tratar de temas universais, nada impede que o faça com as cores, as coisas e as pessoas de nosso país.

Autores que representem o que representaram em seu tempo, Érico Veríssimo, Lima Barreto, Machado de Assis, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado e tantos outros, precisam surgir. Mas é claro que não cairão do céu, precisam ser descobertos, precisam ter oportunidades para tanto. Não bastam concursos literários esporádicos que, a exemplo daqueles para preenchimento de cargos públicos, contemplam apenas os bafejados pela $orte e os queridinhos e amigos da turma.

Estamos órfãos de autores e de livros que falam sobre nós. Atravessamos o século XX, já percorremos quase um decênio do XXI e a pergunta que se faz é: quem e como retratou, através da literatura de ficção, a sociedade brasileira nos últimos 40 anos? Os cronistas dos jornais diários e das revistas semanais? Sim. Mas é muito pouco. É quase nada. Os autores de tele-novelas? Estes apenas traçam uma visão deturpada de parte de nossa realidade para simplesmente atender aos interesses comerciais das emissoras pelas quais são pagos. E bem.

Enquanto isso, nós continuaremos achando nas prateleiras das livrarias públicas e privadas a menina que roubava livros, o caçador de pipas, o guardião de memórias, a sombra do vento, a distância entre nós, a neve, o passado, as travessuras da menina má e até o código de da Vinci. Convenhamos, tem tudo a ver conosco. Ou somos apenas um país musical, e, portanto, morte aos escritores, e, portanto, ainda, padeceremos sempre da síndrome de vira lata ubaldiana. Ou que o tempo, as editoras e o Estado, através do Ministério da Cultura me desmintam. Duvido.

*Publicado na imprensa escrita de Rio Claro em 28/07/2007.

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