domingo, 24 de janeiro de 2010

RELATÓRIO

A pior notícia da minha vida eu tive aos 17 anos. Não. Não foi quando minha mãe morreu ou minha filha nasceu doente, ou aquela filha da puta apareceu grávida. Foi quando eu soube o que acontecia àqueles que se suicidam. Porque vou lhes dizer uma coisa, dependesse de mim, eu não teria vindo pra essa merda. Vim porque me chutaram cá pra baixo, me enxovalharam de onde eu estava belo e formoso, inspirando idiotas que se acreditam artistas a escrever poemas, prosas e letras de música. Eu estava muito satisfeito e feliz onde estava, até que uns caras vestidos de branco chegaram dizendo e mandando, estúpidos, sequer sugeriram, foram logo mandando como se mandassem na minha vida. Então, depois de duas tentativas frustradas, deles, não minhas, eu vim.


Meu plano era sair daqui logo, e isso seria fácil até demais, não fosse quando me disseram e me mostraram o que acontece àqueles que levantam acampamento antes de obter baixa do Grande General. E bastou que eu lesse um livro: O Livro dos Espíritos. Serei mais preciso: Questão 957. Eis toda a coisa. Então meus planos foram por água abaixo.

Resolvi então fazer o que já fizera outras vezes, e fazia lá onde eu estava: resolvi escrever. Abri minha caixa de pandora, minha mala de instrumentos de tortura alheia e comecei a dor forma e conteúdo ao que eu via, sentia, me lembrava, enfim, aqueles elementos que apenas os magos das Letras (curvo-me Alteza!) sabem manipular.

Porque as letras são símbolos para alguns e códigos para outros, mas todos se acreditam conhecedores do mistério. Tolos. Nada disso. Deus é um só. E escritores e poetas – e prestem bem atenção os que me lêem e me ouvem nesse instante – escritores e poetas não são todos. A honra é reservada a poucos.

Aqui um parêntese: Refiro-me a escritores, aqueles que criam e não os outros que são apenas datilógrafos, reprodutores de idéias alheias, porque nada criam.

Eu, por exemplo, não sou esse bonzinho que muitos acreditam. E não sei por que o fazem se não lhes dei motivo para tanto. Sou ruim. Lamacento. Leviano. Letal. Não tem nenhum de vocês idéia de quem eu sou. E do que sou capaz. A maldade sem a inteligência é estupidez. Por isso cursei as melhores universidades e tive como Mestres muitos daqueles que a humanidade hoje admira, idolatra e estuda sem saber quem de fato são.

Escrevo para provocar ilusão, enganar, escrevo para ferir, escrevo porque é a revolta que move o meu pensamento, que faz circular o sangue em minhas veias. Escrevo pra tirar um sarro da cara de vocês todos. É por isso que escrevo. Revolta é meu nome. Ódio é meu sobrenome. Mas eu sou bom naquilo que sei fazer como poucos. E isso pra mim é o que basta. Eu sei quem sou.

No mesmo livro ao qual me refiro neste relatório também está escrito que a maioria dos artistas repudia as suas obras, quando já estão do lado de lá, de onde vim, e as suas obras aqui permanecem para ser admiradas por ignorantes que imaginam saber compreendê-las. E vilipendiadas por facínoras que à custa delas se enriquecem. Mas, para um artista que já levantou o acampamento o que significa uma sua obra? Não significa nada. Porque o artista, o escritor, o poeta, jamais terminam, jamais se esgotam, eles se renovam, sempre. E continuam a escrever. Vede a mim. Vede?

Portanto, não percam o seu tempo com isso. Vão cuidar dos seus afazeres e suas necessidades de réprobos que sois.

Deixem a Literatura na plataforma da estação da vida na qual todos chegam e partem. E sigam adiante. Não queiram levar esse enorme e pesado baú consigo. Porque mesmo se o fizerem não conseguirão abri-lo.

Muito bem. Aqui se dá por concluída a minha jornada. E eu não poderia – a vocês que me foram tão gentis – deixar de revelar a minha verdadeira identidade. Agora sabeis quem sou.

Senhoras e senhores passem bem.


Lebt wohl

Nota do Autor: Amigos leitores e escritores. Agora bebam um copo d’água para se acalmarem do susto. Esta é uma obra de ficção. Escrita na 1ª. Pessoa do singular de modo a se obter maior densidade dramática na narrativa. Certamente compreenderão isso. Assim espero.

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