sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

CLAQUETE

Nos idos de 1960 e qualquer coisinha, as tele-novelas surgiram nos lares brasileiros, através daquele aparelhinho recém introduzido no cotidiano das pessoas chamado televisor. Sim, isto mesmo, nada de televisão. Televisor. Sem cores, cheio de chiados, imagens distorcidas. Mas era novidade. Como nada jamais visto antes. Então, foi bem aceito.

As primeiras tele-novelas beberam da fonte inspiradora dos clássicos da Literatura universal. E pasmem os desavisados. Eram ao vivo. Nada de vídeo-teipe. Assim foi nas extintas tevês Excelsior e Tupi. Até o surgimento da... Maestro, que rufem os tambores: Rede Globo. Que surgiu de fininho, como quem não quer nada, mas, em pouco tempo, tomou conta do pedaço. Muito graças à sua parceria com o grupo norte-americano Time Life e sua proximidade com o regime militar. Surgia o padrão Globo de qualidade, cujo selo trazia a marca inconfundível das tele-novelas. A partir do final dos anos 60, e durante toda a década dos 70 e 80, as tele-novelas globais eram escritas pelos melhores autores e traziam no elenco os atores e atrizes mais bem preparados geralmente oriundos do teatro. Além de uma produção digna de Hollywood, com recursos tecnológicos que as concorrentes, naquele período, jamais puderam alcançar.

Mas importante é lembrar que, naqueles tempos, em se tratando de televisão tudo era novidade no Brasil. E bicho mais curioso que o ser humano ainda está pra surgir. A Globo nadou de braçada e soberana durante décadas. Em 1973, Dias Gomes retratou o que é a política no Brasil em O Bem Amado. Dois anos mais tarde, Janete Clair, então sua esposa, discutiu questões sociais em Pecado Capital. Anos depois, Gilberto Braga tratou da readaptação difícil de ex-presidiários em Dancin’ Days (1978), que, também iniciou a tradição das tele-novelas ditarem modas, como a meia soquete colorida, a sandália de salto agulha e, é claro, a febre das danceterias. Já na década de 80, Roque Santeiro (1985) também escrita por Dias Gomes tomou conta do imaginário popular e atingiu índices de audiência jamais repetidos com persoangens e tramas que pareciam saídos das melhores fábulas. Se algo pode mensurar a penetração desse folhetim nas famílias brasileiras, basta dizer que uma criança de 5 anos chorou ao término da trama. Correção: Uma de que tive notícia. Mas, na verdade, milhares, dezenas, centenas de milhares. De crianças, jovens, adultos e idosos. Sem exagero. A tele-novela é uma das poucas expressões artísticas que conquistou público e admiradores em todas as faixas etárias, atingindo todos os níveis sociais e intelectuais.

Na verdade, as tele-novelas tornaram-se o espelho dos telespectadores, cuja realidade, nelas via representada. No Brasil, ela significa de certo modo, o mesmo que a Literatura nos países europeus.

Mas toda a fórmula se esgota. Todo modelo é superado. E como disse certa vez o guitarrista Dado Villa-Lobos da Legião Urbana “O pra sempre sempre acaba” . Hoje, a impressão que se tem é que as tele-novelas são todas iguais. As mesmas estórias, e suas tramas, enredos e desfechos exatamente iguais. Na atualidade, é, infelizmente, um curso superior à distância de como praticar maldades ou se sujeitar a elas. Acompanhar tele-novelas tornou-se um hábito para a maioria dos brasileiros que a ele já não importa tanto a qualidade e, menos ainda, a ausência de novidade. Por sinal, em um mundo onde tudo se propaga e muda a cada instante, o que é e o que pode ser novo? As tele-novelas não têm essa resposta. Até porque essa busca não lhe é permitida. As pesquisas de opinião pública é que determinam sobre o que deve escrever o autor e que destino deve dar à trama e aos personagens que ele já não cria, mas, reconfigura. Precisa mesmo ganhar muito bem pra se sujeitar a essa rotina e esse tédio.

Assim como na Literatura, a grande sacada da tele-novela é começar o romance com uma tragédia, um fato inusitado, sobre o qual se estabelecerá o fio condutor da trama. O mesmo acontece com o desenvolvimento de tramas paralelas que, grosso cômodo, servirão de calçada para a rua que se pretende pavimentar. Mas atrás dessas calçadas haverá casas, e estas terão portas e janelas que levam a diversos cômodos habitados por pessoas das mais diversas classes sociais, crenças, opiniões, hábitos e costumes. Presto! – diria o italiano. Restará saber então quem morre quem nasce quem fica rico, quem fica pobre e quem casa com quem. E isto será definido não pela imaginação do autor mas pela preferência popular apontada nas pesquisas de opinião pública das quais se encarregam as emissoras. Eis a estória, eis a tele-novelas, que, nos seus primórdios, arrisco dizer, era apenas Teatro e Literatura filmada.

Nota do Redator: O Bem-Amado (1973) foi a primeira tele-novela a cores exibida no Brasil. Na foto ilustrativa, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) com as Irmãs Cajazeiras: Dorotéia (Ida Gomes), Dulcinéia (Dorinha Duval) e Judicéia (Dirce Migliaccio).

Um comentário:

  1. Gostei bastante do texto, Costa. Até gostaria de colocá-lo na próxima edição da revista, o que acha?. Se possível me passe por e-mail. Abss

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