terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

MENINOS E MENINAS, EU VI

Tentaram ridicularizar os anos 80. A tarefa coube aos moderninhos do século XXI. A moçada da Web, dos Ipod’s e Ipad’s. Não adiantou. A música, a literatura e o cinema daquela época não perderam admiradores e conquistaram outros.

Costuma-se dizer que as revoluções culturais ocorrem a cada 40 anos. A mais significativa da história recente da humanidade foi a contracultura dos anos 60. Portanto, deveríamos estar vivendo agora uma nova revolução. Mas não é o que se verifica. Porque a esperada revolução já aconteceu. E foi nos anos 80, quando surgiram os protótipos de tudo aquilo que hoje se constitui a multimídia e introduzidos comportamentos mantidos até hoje. Alguns, nada apreciáveis, como por exemplo: tornar-se alcoólatra e iniciar a vida sexual cada vez mais cedo Nada a estranhar. A geração jovem dos 80, ou seja, os tiozinhos quarentões de agora, é mesmo apressada. Tudo aconteceu cedo demais para ela: os prazeres inúteis, os casamentos (em geral destruídos), as carreiras promissoras que acabaram frustradas. Pra tudo terminar boa parte das vezes em “Eu moro com meus pais” como costumava cantar Renato, discípulo de Rousseau.

Pertenço a esta geração. Rompi a barreira dos quarenta faz alguns dias. E, confesso, não esperava por isso. Eu fui à contramão da história. Evidente. Como bom paulista e admirador de Mário de Andrade: “Non ducor, duco”. Quebrei a minha cara? Sim. Mas não fui só eu. E a desgraça alheia de certa forma me consola. Quando se está na guerra, que importa perder um braço quando há cadáveres insepultos por toda parte que se olhe?

Penso que cada geração é o retrato de um determinado momento da sociedade. São os adultos que definem o jogo e suas regras. Mas os jogadores são os jovens. Não por acaso, só se sabe de fato o que é vencer quando se tem 20 anos. Quando se tem 40 não se vence. Apenas cumpre-se a obrigação.

Jovens trapaceiam a vida sem remorso e sem pudor. Jovens põem o pescoço ao machado. J. D. Salinger, morto recentemente, compreendia bem isso. Aos 20 anos, o escritor conheceu a guerra e viu o quanto se torna insignificante a boa fé humana frente à estupidez de meia dúzia de idiotas. Seu alter-ego Houlden Caulfield de O Apanhador no Campo de Centeio preste a ingressar na juventude percebe a falta de significado da vida e aliena-se em sua ironia vingativa.

Não se muda o mundo porque se é jovem, lamento informar. Porque o ser humano passa pelo tempo. E aos poucos percebe que é apenas dentro de si, que tudo pode e deve mudar. Por fora, jamais. Pois é a sua marca. É ela que fica mesmo depois que se deixa de existir.

Foto ilustrativa: Capa do CD Siberia de Echo and the Bunymen

2 comentários:

  1. Boas referências... mas você ainda é jovem. Abss

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  2. Vivi a minha adolescencia nos meados dos anos setenta e minha "semi-adultice" nos anos oitenta e sei muito bem o que você disse no texto e concordo com ele.

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