quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

DEUS NA FILA DO SEGURO DESEMPREGO

A vovó – a minha, a sua, finado leitor, enfim, a de todos – dizia que papel aceita tudo. Não sem razão. Disto já sabiam Irineu, Jerônimo, Agostinho, os mui doutos da Igreja Católica, e mais adiante, os monges copistas, e antes disso, os imperadores romanos. E, mais recentemente, os filósofos do século XIX, como Nietzsche, o sujeito bigodudo, sisudo, retraído e meio esquisitão como todo bom alemão, que meu amigo Lourenço Favari (pelo menos até o final do ano passado, definia como o frasista mais cara de pau da história da humanidade, no que data vênia, eu devo concordar com o Lora ipis is literis).


Também os filósofos do século passado dentre os quais, Witt... (lá vem outro daqueles difíceis!) Espera aí finado leitor deixe-me recorrer ao pai dos burros moderno. Sim Mr. Google, help me. Ok. Começa com W. Bom, mas isto eu sabia. E depois temos um... Deixe-me ver, só um instantinho... Ah, sim! Aí está: Ludovico. Na verdade, Ludwig. Mais conhecido pelos botecos austríacos como Wittgenstein. Enfim, esse sujeito de nome difícil, cara de aloprado e dono de idéias mirabolantes como, por exemplo: a lógica tem um significado ético e religioso.

Influenciado em princípio por Schopenhauer, tomou conhecimento das idéias de Tolstoi durante a primeira guerra mundial e, acreditem seu objetivo menos ambicioso era solucionar de vez o problema da filosofia. Por falar nisso, finado leitor, qual o problema da filosofia?

Bem, a coisa vai por aí, eu mesmo, relés aprendiz de escriba, consumi laudas e mais laudas para dar vazão às minhas idéias que certamente fariam – se não fez – meu avô Atílio revirar na tumba.

Há gente demais no mundo, eis a verdade; gente demais escrevendo, gente demais desejando as mesmas coisas. E isso, de certa forma, atrasa o progresso da humanidade porque aquilo que realmente vale a pena (não é o caso deste texto, evidentemente) se perde no todo do nada que se tornou a mente humana do século XX e que paulatinamente atingirá o seu ápice neste século XXI. Ou seja, todos nós seremos sarados e esbeltos estúpidos. Uma situação desesperadora, deprimente senão humilhante, em que o ser humano se tornou simplesmente um ser que produz e consome e que se acredita detentor de todos os direitos, e dono de verdades absolutas, que o fará certamente daqui algum tempo mandar Deus para a fila do seguro desemprego. Enfim, aqueles dentre estes que realmente escrevem e pensam são obrigados como que a pisar em ovos ou atravessar pântanos ou se desvencilhar de teias de aranha porque a democratização ao acesso aos meios de comunicação faz com que idéias que realmente interessam e signifiquem alguma coisa que mereça a atenção se percam ou, se sobrevivem, não ganham a repercussão devida e, dessa forma deixem de ser assimiladas seja pelos formadores de opinião pública ou pela própria. Afinal uma maneira eficiente de esconder alguém ou alguma coisa é misturá-la entre muitas outras de modo a dificultar sua identificação.

Finado leitor, eles não querem que pensemos. Por isso nos entorpecem com tantas formas de estímulo aos prazeres inúteis cada vez mais acessíveis a todos. Porque sabem que se não pensamos não agimos. E nossa inércia é o que eles precisam para se manter no poder e decidir sobre nossas vidas sem que nos apercebamos disto porque estamos entorpecidos pelos prazeres inúteis que eles nos oferecem todos os dias, a cada instante.

Fenômeno escabroso que também se verifica é o da mania em se listar pessoas com objetivo de estabelecer padrões outra praga da ambição humana.

A cada dia nos deparamos com listas de melhores do mundo. Seja lista de cães, livros, atletas, atrizes, cantores, músicas, filmes e jogadores de futebol. Toda semana sai uma. Até parece pesquisa eleitoral. Nem Nick Hornby que valorizou essa mania ridícula com o seu romance Alta Fidelidade talvez aprove a iniciativa.

Quem organiza alguma coisa visa algum interesse senão vários. O primeiro, sem dúvida é estabelecer o seu poder sobre um determinado espaço, uma determinada célula da sociedade. O segundo é enriquecer-se à custa da boa fé e ignorância alheia. E as religiões são os melhores exemplos disso; os governos, outros.

Uma sociedade livre só será possível quando a maioria das pessoas respeitarem-se umas às outras. E isso significa essencialmente não exceder aos seus direitos, compartilhar o seu conhecimento e as suas conquistas de ordem humana e espiritual.

Não basta ter leis escritas e em vigência se estas não são respeitadas. A verdadeira lei é saber discernir o certo do errado. Não fazer ao outro o que não gostaríamos que nos fizessem. E o único tribunal infalível e que não pode ser enganado é o da consciência.

É triste, muito triste mesmo, chegar ao final do primeiro decênio do século XXI com incomoda certeza de que este cenário ainda é apenas uma utopia.

Entretanto, independentemente da má vontade e do egoísmo daqueles que estão tendo e desperdiçando a sua oportunidade o progresso é inevitável e alcançará a todos nós por mais que, movidos por nosso orgulho e egoísmo, resistamos a ele.

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