sexta-feira, 26 de março de 2010

REENCARNAÇÃO. E POR QUE NÃO?

O dia amanhecera triste. Chuva, asfalto molhado, folhas derrubadas pelo vento. Caminhei um pouco pela calçada, esbarrando no muro, e percebi que não estava só. Ela me acompanhava. Vestida de preto, espargindo a frieza do seu espírito em torno de mim, a morte. Se você me tomasse para si hoje, perguntei o que eu levaria comigo? Dinheiro, propriedades, títulos? Ela sorriu do seu jeito. E eu respondi: Não. Mas, conhecimento adquirido, virtudes conquistadas, experiência, as boas amizades que fiz o carinho da família, que desta feita, finalmente pude ter. E tenho certeza que quando eu me conscientizasse dessas coisas, você, morte, deixaria de existir.

Isto me fez pensar que, à luz da razão, chega a ser ridícula a nossa ingenuidade. Entendêssemos, e mais do que entendêssemos, aceitássemos que somos um ser cuja existência está determinada por um período de tempo, toda nossa aspiração de poder, a preocupação em conquistar sempre e em qualquer circunstância, deixariam de ser um tormento, causa da maioria dos nossos infortúnios, e passaria a ser estímulo não apenas para concorrermos por nosso progresso intelectual e espiritual, mas, por de nosso semelhante. Passaríamos a ver o planeta não apenas como o lugar em que vivemos, mas o lugar que nos acolheu, e, muito provavelmente, passaríamos a ter por este lugar zelo e gratidão. É o sentimento que a maioria dos filhos aprende a ter desde pequeno pela casa dos pais, na qual, vivem as primeiras emoções e obtém os primeiros aprendizados. Ninguém gosta que outro piche a sua casa, derrube o muro, destrua a calçada, ou entre, em surdina e traiçoeiramente, para roubar o que dentro dela existe.

Outro entendimento que nos falta, e que certamente nos pouparia de muitas frustrações e sofrimentos é a interpretação de Deus, cuja idéia, concebida por nós, de maneira equivocada, à nossa imagem e semelhança não corresponde à realidade. Mas se somos um ser temporário, o espírito não é. E espírito é o que somos e não o que temos. Humana é a nossa condição momentânea. Espírita é a nossa realidade eterna.

Orgulho à parte, é mais consoladora, justa e racional a idéia de que surgimos para a vida espiritual todos iguais e ignorantes, e sujeitos a evolução conforme nossos esforços.

Lágrimas deixariam de ser derramadas, tivéssemos a compreensão do que nos ensina Emmanuel “não é o tempo que passa por nós, ao contrário, nós é que passamos pelo tempo passamos” Ou seja, desde que criados, vivemos na eternidade.

Mas, em olhando a natureza nós veremos que as folhas caem no outono, levadas pelo vento, mas a árvore é sempre a mesma. Veremos também, que as gramas são cortadas e nascem de novo, mais fortes e abundantes. O sol nasce e se põe, e o faz todos os dias, apesar de eventuais densas nuvens. As sementes são semeadas, mas a terra que as recebe em suas entranhas, é a mesma. As ondas beijam a praia e se afastam depois, e fazem isso a todo instante, e não se cansam.

As coisas se repetem. E disto deduz-se que há uma causa inteligente que concebe, organiza e movimenta esses eventos.

Se tudo se repete, por que não a vida? A nossa vida, espírito que somos. O que há de impossível que todo o processo, da concepção ao nascimento, passando pela condição humana e culminando com a morte, possa se repetir? Qual a dificuldade de entender e aceitar isso? Medo? Do quê, se como espíritos, que é o que somos, somos eternos? Orgulho, para quê? Permaneçamos na condição humana, cem anos, não permaneceremos duzentos.

Vivemos um tempo de transição. Idéias brotam aqui e acolá. Caminharemos adiante, como sempre fizemos, e, independentemente das circunstâncias. Caindo, levantando, e seguindo em frente. Porém, mais aliviados, em paz, confiantes e mais próximos da felicidade – essa aspiração que muitos confundem com alegria, satisfação e prazer efêmeros. Felicidade, entretanto, não é deste mundo. Ainda não. Mas poderá vir a ser. Breve. Será em algum tempo, certamente, quando, espíritos que somos compreendermos e aceitarmos a nossa realidade. Ela não é decepcionante, senão para aqueles que se contenta com o pouco que o orgulho e o egoísmo pode lhes proporcionar. Afinal, para um espírito, que é o que somos que tem consciência da infinitude de sua existência, o que são cem anos desfrutando de poder e riqueza, glória e fortuna, neste mundo?

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