quarta-feira, 3 de março de 2010

VHS

Eu imaginava que o preço da minha liberdade e, talvez, sabedoria, eram 51 reais, que correspondiam a três objetos preciosos, a saber: Vagabundos e Iluminados, Viajante Solitário e On the road, em formato pocket book. Condenados à prateleira e à poeira, sepultados serão, pela indiferença dos incultos e a arrogância dos entendidos.
Pertenço à escória do mundo, eis o meu privilégio. Feito Sechi, busco no lixo da rotina diária as idéias perdidas e os sonhos esquecidos.
“Mallarmé, Baudelaire, Rimbaud”.
E eu, esmurrando a mesa, respondo:
“Lautréamont!”
“Estão todos mortos!” – vocifera alguém lá do fundo da classe.
“Fodam-se!”.
“Vamos jogar futebol” – eu sugiro.
“Me dá um cigarro, Tômaz”.
Lia não consegue deixar este vício.
No instante seguinte, a sala está vazia, a matéria na lousa, as carteiras abandonadas, e os livros no chão. Já foram pisoteados o suficiente, e o serão muito mais daqui algum tempo.
“Eu me lembro disto, toda vez que olhos nos teus olhos” – era o que gostaria de dizer.
Entretanto:
“Você fica melhor quando mexe os quadris daquele jeito, querida” – é o que digo.
“Vou gozar! Tômaz!”. – e ela arfava, gemia e gritava, como mulher cara-pálida parindo a beira do riacho ou vulcão cuspindo larvas.
E de repente seu gozo estava em minhas mãos, e seu olhar no espelho diante de nós.
“Vou ter um filho seu” – ela disse, ajeitando os cabelos, enquanto voltava do banheiro.
“Gol, gol do Brasil!”.
Copa do Mundo. Tínhamos televisão, e, graças a Lula, comíamos bife no almoço todos os dias.
Ela repetiu a frase. Mas a sua voz foi abafada pelo cenário épico onde duzentos milhões celebravam o êxtase dos idiotas.
Rojões espocando nos céus, buzinaço nas ruas, bandeiras desfraldadas nas janelas dos apartamentos. E alguma coisa explodindo dentro de mim.
“Lia, você é minha paixão – foi o que eu lhe disse – Não é o meu amor!”.
“E o que faço com isto?”
GLOSSÁRIO:
Isto = FILHO INDESEJADO.
Não lhe dei resposta.
Na manhã seguinte, a cigana disse:
“Você tem três escolhas, rapaz: o amor, a paixão ou os livros”.
E eu escolhi Jack Kerouac. Não se assustem. Afinal, Lia ficara com o apartamento, a bandeira do Brasil, e eu, com a TV., à qual, dias depois, havia se transformado em 50 reais, com mais 1 que eu tinha no bolso...
Fui comprar cigarros, e quando voltei, uma semana depois, pra terminar de pegar as coisas, Lia estava de cabelos curtos e ostentava uma tatuagem na nuca, sentindo-se, talvez, novamente confortável dentro de um jeans.
Então me aproximei, tomei-a pela mão e a levei para o quarto, diante do espelho. Desabotoei o seu jeans. Tocou a campainha; e continuou tocando mais algum tempo, até parar. Mas, já naquele instante, eu e Lia, deitados no chão, nus, olhando para o espelho, quando ela disse:
“Adoro fazer amor com você, querido”.
“Eu também, Lia. Desde que não haja ninguém entre nós”.

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