segunda-feira, 5 de abril de 2010

BECAUSE I AM

Escrever é um ato solitário. E certamente eu já teria levado um zero bem redondo da Professora Maria Augusta Ribeiro por cometer horrendo pecado do lugar-comum logo no início do texto. Por isso, por essas e por todas, causou-me calafrios a idéia proposta pelo Grupo Auê de Cultura e Artes, para criar e conduzir uma oficina literária.


Eu? Pois é. Não tenho nenhuma noção sequer de como praticar o desatino. Mas não é exatamente essa a única certeza que tenho a cada vez que inicio um parágrafo? Muitas pessoas num mesmo ambiente e com um mesmo objetivo: escrever. Não estou retratando a recepção de um sanatório, bem entendido. Apenas imaginando como seria o local de uma oficina literária. Nessas condições realmente não pode dar boa coisa.

Início. Eis o martírio de todo escritor que ainda carrega no seu íntimo um resquício de dignidade. Digo sanidade.

Tem de fazer sentido. Não para Beckett, o Inominável. Ok. O inferno está cheio de Beckett’s. Os tem em boa conta. Não precisa, portanto de mais um.

Nesse caso, voltemos ao jardim da infância. Basta encontrar respostas para o que, quem, quando, onde, como e por que. Faça isso. É o que fazem a pior cria dos escritores, os jornalistas, para traduzir em palavras os acontecimentos.

É possível transmitir informações e conhecimentos. Capacidade, nunca. Portanto, Machadinho, esqueça. Se estiveres aqui acreditando que eu, alguém, ou qualquer outro irá ensiná-lo a escrever, desculpe, mas receio que melhor seria uma boa gelada no bar da esquina. Alô Bolinha! Tá chegando a Irmandade.

Saibam: A menos que seja o Dr. Dick Diver em Tender is the night, intelectual não vai à praia intelectual bebe – máxima, aliás, corroborada pelo filósofo contemporâneo Paulo Francis (mil novecentos e qualquer coisa depois de Cristo).

Ah, não se esqueça de me convidar para a festa, Thomas. Porque é provável que em dado momento solene da vida nos encontremos em alguma fila de seguro desemprego por aí para cheios de ânimos e sorrisos maliciosos lembrarmo-nos dessas desgraças.

Por que escrever? Eis a questão, senhoras e senhores.

No meu caso, uma terrível, insuportavelmente dolorosa inquietação mental. Passado tanto tempo, receio mesmo que a mente perturba o espírito e não o contrário. Dez anos de Gardenal, receio, não foram o suficiente.

Devo confessar-lhe, finado leitor. Não esquentei a bunda em banco de faculdade. Confesso sem nenhum remorso e admito sem nenhum constrangimento que Dostoievski ou qualquer outro infeliz jamais arrancou lágrimas de mim. Folheei muitos livros, bons e ruins, e li bem poucos. O último, nem mais nem menos, do maldito, solenemente maldito e invejado J. Archer. O que não me impediu, ao contrário, facilitou e muito minha vida, porque, tirante a dor nas costas e a vista quase perdida, possibilitou-me conhecer muito e de tudo um pouco. Sou esperto. E disso me orgulho.

Se nunca aprendi, como posso ter a pretensão de ensinar? Não tenho. Meu único objetivo é apresentar-lhes uma proposta. Escrevam. Muito. E errem muito. E se traiam muito. E se submetam muito à crítica alheia, geralmente munida de ignorância fecunda e um terrível, abominável e pretensioso senso de adivinhação, capaz de dissecar o mais insuspeito desejo, a mais secreta intenção de você, escritor. Decepcionem-se, pois, e muito com a Literatura. Ela gosta disso. E talvez essa seja a prova cabal para a sua admissão no seleto mundo dos loucos garbosos.

Acreditem que a vida é bela. Mas no papel, coloquem que odeiam a vida. E de que forma odeiam. Por isso mintam. Faz bem. A você. E ao leitor. Que geralmente, adora a brincadeira. Fale de menos. Sugira demais. Engane. Trapaceie. Usurpe da boa vontade, subestime a paciência do leitor. Ele é um masoquista, saiba disso. Adora sofrer.

E lembre-se do que já lhe disse: Um personagem só é verdadeiro quando é um espelho partido em mil pedaços voando em sua direção, rasgando sua carne e vertendo-te sangue. Sangue e mais sangue. Até fazê-lo cair, desfalecido, com a cara no chão.

Basta uma coisa para tornar a coisa possível: observar a vida com os olhos da verdade. A sua. E transformar em palavras o que você vê. Esse é o primeiro passo. Eu acho. O segundo, e derradeiro, é quando você consegue transformar o que sente em palavras.

Mas aí você já deixou de ser um escritor. Tornou-se bruxo.

Mais? Tem certeza de que deseja ouvir? Lá vai. É penoso, assustador e muito cruel. Mas você merece:

Um autor realiza sua obra na solitude. Só ele conhece o seu caminho, e onde o levará. Sabe como se sentar à mesa com seus demônios, e ouvir os seus anjos ao anoitecer. Sabe que se sentirá um grande idiota após o último ponto final. E pior, gostará disso. E quando aprender a ganhar dinheiro com isso perceberá que de repente deixou de ser idiota. Eles, os idiotas, tal como o Inferno, agora são os outros. Os leitores. Os seus.

3 comentários:

  1. Olá Jota passei por aqui para ler o que há de bom e esse texto é muito bom mesmo, aliás como tudo que escreve.Parabéns pelo seu talento e tudo de bom pra você.Arnoldo Pimentel

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  2. Um otimo texto que muito me agradou. Parabéns.
    Já agora queria esclarecer uma dúvida: Quis fazer uma chamada no meu blogue aos seus trabalhos, mas tudo o que consegui foi ao Jornal que penso é onde você escreve. Isso não lhe interessa, pois não? Dê um salto ao Infinito e veja o que lá está e esclareça-me depois.
    Entretanto, um grande abraço da
    Vera Lucia

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  3. OI!!!
    Que bom que voltei por aqui, foi ótimo
    seu convite, adorei te rever e te ler.
    Um bom fim de semana, com meu carinho,
    Katia

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