domingo, 25 de abril de 2010

CULTURA FINA & MR. BUSINESS

Em entrevista ao Jornal Cidade deste domingo (25), o secretário de Cultura de Rio Claro Nei Pignataro Fina falou dos desafios e projetos que tem à frente da pasta. Segundo o Jornal, disse ele que “O Poder Público tem obrigação de dar oportunidade a quem tem talento”. Sábias palavras, e que revelam as boas intenções do secretário, pessoa culta e preparada para o cargo. Mas, como toda boa intenção resvala na realidade.

No Brasil, as pessoas tendem a considerar cultura e arte como sendo uma coisa só. Quando se fala em cultura logo vem à mente espetáculos teatrais, de dança, música, livros, filmes e, a modinha da vez, o stand up. Mas cultura é muito mais do que isso. É todo o organismo vivo da sociedade. É a linguagem, os hábitos e os costumes, a alimentação, a consciência ecológica e a preservação do meio ambiente, é o exercício da democracia, é o cumprimento dos deveres e a reivindicação deles por motivos que os justifiquem. E a cultura de um país é o resultado da educação que o cidadão recebe. E aí entra o papel fundamental do Poder Público.

Ou seja, não adianta termos talentos da estirpe de Machado de Assis, Cacilda Becker, Rui Barbosa e Villa-Lobos se o trabalho desses indivíduos não chega ao cidadão e quando chega é de maneira distorcida. Se dados do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) revelam que alunos de escola pública do 3º. ano do ensino médio tem aproveitamento em nível de 8ª. série do ensino fundamental.

É ingênuo também pensar que um trabalho do gênero artístico adquire projeção e reconhecimento apenas por causa da sua qualidade. Até porque isso é muito subjetivo e está sujeito às tendências de mercado.

Um livro, de um único exemplar existirá como objeto artístico e será do conhecimento de seu autor e na melhor das hipóteses de seus familiares e amigos. Mas, independentemente de seu valor literário, para que ganhe projeção dependerá que seja produzido em larga escala, como um produto qualquer que se coloca no mercado à disposição do consumidor. E para que o consumidor saiba da existência desse livro, o mesmo precisará ser divulgado. E para que essa produção e essa divulgação ocorram é necessário investimento. Isso proporciona o que de melhor entendem os senhores de paletó e gravata geralmente sentados em confortáveis cadeiras giratórias e atrás de belas mesas, e que, acredite ou goste o escritor ou não, decidirão o destino de sua carreira literária e normalmente de sua vida. Estes senhores, embora não admitam, atendem pelo nome de Mr. Business.

E agora a notícia boa aos escritores, cantores, músicos, dançarinos, atores e atrizes, mímicos ou palhaços, mágicos, enfim, a mulambada toda. Cada um é apenas uma peça da engrenagem que Mr. Business opera. E nada mais que isso. Igual existem milhares que se sujeitam a essa humilhante corrida feito o espermatozóide em direção ao óvulo. E quem será o eleito? Quem interessar aos senhores do bussines que geralmente pra não dizer sempre, andam de mãos dadas com o Poder Público e com a imprensa. São eles que determinam o que será exposto e vendido à sociedade. Os jornais, as rádios, as tevês, os sites irão divulgar o que seus anunciantes determinarem. Primeiro, porque encontrar jornalista dono de jornal, rádio, tevê e site é como procurar agulha no palheiro. E, sobretudo, porque se para o artista arte significa suor, lágrimas, cãibras, noites mal dormidas e, em sua maioria, dinheiro nenhum no bolso, para os veículos de comunicação, o braço direito, mais cumprido e forte dos senhores Business, significam apenas um modo de ganhar ainda mais dinheiro utilizando-se das inúmeras estratégias que possui.

Se o artista não se importa de passar por esse mundo nas sombras da obscuridade por melhor que seja naquilo que faz, dê bananas ao Mr. Business. Se escritor, aprenda a diagramar e compre uma impressora, ainda que seja de segunda mão. Se artista cênico faça da rua o seu palco e do povão a sua platéia, se cineasta, serve uma velha VHS. Mas, se deseja ver seu livro publicado e na lista dos mais vendidos, seu filme concorrer ao Oscar e seu espetáculo em cartaz na Brodway, procure logo identificar de que modo Mr. Business está ganhando ou pretende ganhar dinheiro com estas coisas. E fique atento porque isso muda ao sabor do vento e das ações nas bolsas de valores. Para Mr. Business, o artista e sua obra devem representar o símbolo, uma referência do seu poder.

Por exemplo: O ator norte-americano John Wayne (1907-1979), famoso no período de ouro de Hollywood, era um artista limitado, mas representava através dos seus personagens exatamente a imagem que a América pretendia vender de si para o mundo através do cinema. Forte, decidido, durão, e, em certos momentos, meigo. O tipo do cara do qual todos podem discordar, mas ninguém é capaz de odiá-lo ou detê-lo. O típico herói.

Foto ilustrativa: cena do filme Cidadão Kane (1941) de Orson Welles.

Um comentário:

  1. Oi, JCostaJr, que bom visitar-te aqui. Tua verve e tua lucidez estão sempre de prontidão independente do veículo em que transitas, meu caro. Concordo contigo, não dá para ter ilusões. Literatura é um produto como qualquer outro para Mr. Business e conseguir furar o bloqueio é tarefa para poucos. Voltarei. Abraço Fraterno

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