sexta-feira, 23 de abril de 2010

EU, MECÂNICO

Não havia um título mais interessante para isso? Não sou mecânico. Habilidade manual? Não tenho nenhuma. E se dela dependesse já teria morrido de fome, ou estaria em um hospício ou penitenciária. Oficina Literária? Eu, mecânico?

Mas, vá lá Verdugo. Rendo-me às evidências. Auê!

Se atravessar o Inferno é preciso, atiro-me contra a parede coberta de cinzas daqueles que neste canto covil, escuro, úmido, fétido, podre, já passaram antes. E saibam todos que desde este momento solene já não falo por mim.

Quer mesmo esta vida miserável para ti? Que seja.

Comece por rasgar todos os livros que estiverem ao alcance de suas mãos! (Tomara não tenha nenhum).

Faça uma montanha e ateie fogo.

Grite, pule e cante e cuspa, e xingue e declame em volta das chamas. Faça isso até esgotarem todas as suas forças.

Ao término, já terá perdido o mínimo de dignidade, o último resquício de lucidez que lhe restava. Portanto, já pode começar o rude, longo, penoso, incerto caminho percorrido pelos aspirantes a escritores.

Se não estiver cansado se sinta feliz, porque não serve para a coisa. Retorne para sua casa e bastante satisfeito por não ter sido picado pelo inseto da Literatura, que faz o sujeito delirar, suar frio, emagrecer a ponto de torná-lo um indigente moribundo, repugnante e desprezível.

Mas se permanecer, prepare-se para a viagem sem volta.

E saiba: Renegue tudo e todos. Ninguém serve e nada presta. Eles são todos idiotas. Você é gênio. E vai lhes mostrar. Por isso, apague de sua mente tudo o que já lera até então. E destrua tudo o que escrevera. Só encontra o caminho quem se perde dentro de si mesmo. Porque este não é guiado, este conduz.

Se for para escrever como os outros já escrevem abandone a idéia. E envergonhe-se de si mesmo. A Literatura é um modelo esgotado. Um remédio de validade vencida, uma folha caída ao chão, um cadáver insepulto, uma página arrancada do diário da vida, que, geralmente, não serve pra nada a não ser expelir o gozo dos infelizes.

Faça o diferente. Não tenha referência. A Literatura possível é aquela que não está nos livros já escritos e nas teorias já formuladas, mas no mundo em redor, onde as coisas acontecem e as pessoas vivem. E o que acontece, onde acontece, como acontece e quem são essas pessoas, e quem elas não são. E o que, onde, como e porque poderia aquelas mesmas coisas acontecer, mas, de outro modo, sob que perspectiva e profundidade? Procure a resposta. Mas para isso cegue os seus olhos. E abra as janelas de sua alma. E veja dentro de você mesmo. Se pergunte quem é você? Certamente não é o que demonstra, mas é o que deseja ser. Então seja. Com a escrita. Porque é para isso que ela te serve. Para suportar a sua indigência espiritual.

Faça. Faça você mesmo. Seja escritor. Seja o novo escritor. Sem medo, sem pudor, sem nenhuma pretensão.

Aproveite o tempo. É a sua oportunidade. Não espere a mão começar a tremer. Não espere pela noite que certamente cobrirá os seus olhos. Escreva. Agora. E quando você sentir vontade de quebrar o lápis, amassar as teclas ou esmagar o rato ao seu alcance terá a certeza de que o fenômeno está se produzindo. E você não falará mais por si mesmo.

Caminhe adiante e não olhe para trás. Construa o seu destino. E saiba que ele ignora o seu ontem. Esqueça a roda. Não tente reinventá-la. Faça com as palavras um novo veículo que faça a alma do leitor voar, enquanto você contempla a beleza do chão imundo onde pariu a sua criação.

E me conte depois a façanha... quando trouxer novamente o seu carro para eu consertar.



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