domingo, 18 de abril de 2010

MONTEIRO LOBATO: VOZ E OÁSIS NO DESERTO

Na vasta e rica biografia de Monteiro Lobato, das coisas que mais admiro é que por duas vezes ele foi derrotado a uma vaga na Academia Brasileira de Letras por candidatos inexpressivos (a Academia está cheia deles). E recusou uma terceira indicação. Golpe de mestre.

Nacionalista, escritor, tradutor e editor, em um país chamado Brasil, Lobato, com certeza, devia ter alguma desavença com o Homem Lá Em Cima.

Sua aparência sisuda, as sobrancelhas, grossas e unidas, não era um bom cartão de visitas. O que não o impediu de, com sagacidade e determinação ser empreendedor. Nascido em Taubaté, interior de São Paulo, foi um dos mais ferrenhos defensores da causa do petróleo neste país. Fundou a Companhia Petróleos do Brasil e muitas outras posteriormente. Essa sua determinação e empreendedorismo remetem à história de outro baluarte brasileiro João Conrado do Amaral Gurgel que desafiou os interesses do poder econômico nacional e internacional. Ambos perderam a batalha. Lobato tornou-se voz que clamou no deserto durante muito tempo até que em 1939, o ouro negro foi finalmente encontrado no subsolo brasileiro em uma cidade chamada Lobato.

Empreendedor, visionário, intelectual. Lobato tinha virtudes demais algo intolerável em um país povoado de medíocres que mandam, e que, já no século XXI ainda se vê às voltas com enchentes, dengue e analfabetismo.

Até recentemente, a família disputava o valioso espólio literário do escritor, cujos direitos pertencem à Editora Brasiliense, fundada em 1943 pelo historiador Caio Prado Jr., que merecerá uma resenha de nossa parte no momento oportuno.

Monteiro Lobato deveria ser referência para o povo brasileiro. Estudado e compreendido. Exemplo de um homem obstinado por suas ideias e que sabia como poucos que a fé sem obras é morta. Mas não é o que se vê. Lembram-se dele a cada 18 de abril, data em que veio ao mundo. Associam-no ao Sítio do Pica-Pau Amarelo. À Emília, Narizinho, Pedrinho e Dona Benta. Ótimo e compreensível. É uma de suas mais admiráveis obras. Mas Lobato foi muito além. Realizou obra de valor humanístico monumental. O fez em boa parte, sozinho. Contra a indiferença de muitos e a descrença de todos, em um ambiente hostil à leitura, ao conhecimento e à cultura. Foi um bandeirante a abrir picada na mata fechada chamada ignorância, levando quase a todo instante, doloridas picadas de um mosquito chamado Indiferença. Deve ter pagado todos os seus pecados.

A escrita era algo compulsivo em sua vida. Escreveu para crianças e adultos com a mesma qualidade em vários gêneros literários dentre os quais, romances, contos, artigos de opinião e folhetos. Valorizou a figura do caipira que, em sua escrita migrou da estupidez popular para a sabedoria angelical, através do personagem Jeca Tatu.

Acusado de subversivo pelo Estado Novo de Vargas, passou três meses na prisão. Não escapou da ira dos modernistas, que, em determinado momento, o acusaram de reacionário porque pisou no calo da pintora Anita Malfati em um dos seus muitos artigos publicados no jornal Estado de São Paulo. Foi traído pelo então presidente da república Artur Bernardes – certamente não seria fosse um banqueiro ao invés de um escritor. José Bento Renato Monteiro Lobato faleceu em São Paulo, em 4 de julho de 1948, aos 66 anos de idade, vítima de espasmo cerebral. Encerro esse comentário fazendo minhas as palavras de outro admirável brasileiro, que a exemplo de Lobato foi mais uma voz a pregar no deserto de ideias e ideais chamado Brasil. Em 14 de dezembro de 1914, em seu pronunciamento no Senado Federal disse o senador Rui Barbosa: “Sinto vergonha de mim...”.

Um comentário:

  1. PARABÉNS J. Costa Jr., pela lembrança hoje em seu blog da maior e mais injustiçada figura da história do Brasil em todos os tempos.
    O grande azar de Monteiro Lobato foi nascer num país atrasado e numa época errada. Em comparação com o padrão de vida então comum no Brasil, pode-se dizer que ele estava 100 anos à frente de sua época.

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