segunda-feira, 26 de abril de 2010

PEQUENOS DELITOS

O próprio Toquinho admite a história. Ele teria se apropriado da letra de Tarde em Itapuã que Vinicius de Moraes pretendia virasse música sob as bênçãos de Dorival Caimmy.

Isso, digamos, não é nada se comparado ao que fez Jean Genet, que, aos 21 anos e recém saído de uma prisão para deliquentes juvenis, tornou-se, pela ordem, prostituto, ladrão e escritor.

Em 2001, deu pano pra manga o plágio de que teria sido vítima o escritor brasileiro Moacyr Scliar. O autor do delito, o canadense Yan Martell com o livro A Vida de Pi, cuja idéia central ou algo além disso, ele teria surrupiado – pra usar um termo bem brasileiro – de Max e os Felinos escrito por Scliar, em 1981. Talvez, antevendo eventuais problemas, Martell até menciona na introdução do seu livro a obra do escritor gaúcho. Até onde se sabe parece que a disputa deu nada. Ou melhor, deu sim: Martell embolsou naquele ano 75 mil dólares de premiação do cobiçado Booker Prize.

Outra famosa pendenga no meio literário foi o livro O Vigarista do Ano que reconstitui a incrível aventura do escritor Cliford Irving que forjou a autobiografia de Howard Hughes. Aviso aos navegantes: Hughes foi um aviador, engenheiro, produtor e diretor de cinema que começou a fazer fortuna quando fabricou o avião de carga Hércules para o exército norte-americano durante a segunda guerra mundial. Pois bem o bilionário Hughes, movido também por excentricidades, ao final da vida tornou-se recluso para ocultar, segundo as más línguas, sinais evidentes de senilidade. Irving, escritor medíocre, mas que de bobo nada tinha, convenceu em 1971 a editora McGraw-Hill de que fora autorizado pelo próprio Hughes a escrever a autobiografia deste. E para tanto, teria apresentado cartas com este teor assinadas pelo bilionário. Soube-se depois que as cartas haviam sido forjadas por Irving e, a poderosa editora que trabalhava em parceria com a Time Life arrependeu-se até o último pelos 5 milhões de dólares adiantados ao escritor espertalhão.

Pra não dizer que só enxovalhamos a moçada boa da Literatura, eis um caso típico envolvendo as artes plásticas. O protagonista, um tal de Elmyr de Hory, foi capaz de cometer façanhas tão incríveis como falsificar Picassos, Matisses e Modiglianis. O sujeito era brilhante a ponto de convencer renomados pintores de que as telas destes senhores falsificadas por Hory eram autênticas. Algumas dessas telas foram parar em museus e arrematadas por colecionadores a custa de valiosas somas, depois de, evidentemente, autenticadas por especialistas. O cineasta Orson Wells viu-se tão fascinado pela repugnante história de Hory que a levou às telas do cinema sob o título de Verdades e Mentiras, documentário produzido em 1974.

E pra fechar com chave de ouro essa breve provocação, citemos Shakespeare, sobre o qual pairam dúvidas sobre a autenticidade de suas obras. Uma das teorias mirabolantes é que na verdade, fora Francis Bacon, o filósofo não o artista, que escrevera, por exemplo, a célebre frase evocada por poetas e coleguinhas dentro do armário: Rufem os tambores! Ser ou não ser, this is the question. Atualmente, a teoria, conspiratória, em nosso entendimento, dá conta de que um sujeitinho insignificante chamado Conde de Oxford seria o verdadeiro autor daquilo que todos, mesmos os mais humildes súditos da Rainha, reputam como o supra-sumo da Literatura e Dramaturgia do Ocidente. Contra si o Bardo de Stratford tem as suposições de que uma pessoa comum do século XVI, sem estudo elevado, não estaria à altura para produzir uma escrita tão fluente que revelam conhecimento de política, direito e línguas estrangeiras. Outro argumento contrário é o rico vocabulário empregado por Shakespeare contendo 29 mil palavras. E antes que Bárbara Heliodoro dê seus gritinhos, saiba leitor que William Shakespeare continua tendo a opinião favorável dos especialistas. Cá entre nós, os que sustentam a teoria de que Shakespeare era um impostor esquece-se de apenas um detalhe. Ele bem poderia não ser essa pessoa simples que ousam afirmar. E afinal, a História demonstra à exaustão que nada impede de haver um gênio entre tantos energúmenos.





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