domingo, 2 de maio de 2010

EDITORES, SABICHÕES, NÃO LÊEM ORIGINAIS

"Rio Claro, domingo à noite. Eis o que se escreve depois de uma voltinha pelo centro da cidade..."

Gertrude Stein, escritora e poeta norte-americana radicada na França, amiga de Picasso, Fitzgerald, Hemingway, Ezra Pound e James Joyce. Amante de Alice Toklas, e exímia provocadora escrevera certa ocasião: “Uma rosa é uma rosa é uma rosa”. Não satisfeita, dissera mais: “Ser gênio exige um tempo medonho, ir de um lugar a outro sem fazer nada”.

Recorro a madame Stein para novamente expor-me à excitante e não menos dolorosa situação de vidraça, para a qual, voltar-se-ão todas as pedras ao final desse texto.

A editora Sextante informa que está preste a lançar Aleph, o novo livro do mago, digo, escritor Paulo Coelho. O lançamento deve ocorrer em agosto deste ano.

Recentemente Coelho defendeu a pirataria de livros. Pra ele é fácil, já está com o bolsão cheio faz tempo. Talvez, por essa razão, num gesto de extrema generosidade para com seus milhares de leitores espalhados pelo mundo disponibilizou gratuitamente os seus livros pela Internet.

Simpatia é uma estratégia para conquistar e manter clientes. Ou melhor, compradores de livros. Perceba, eu disse compradores, não leitores. Porque esta é uma pergunta que muito me incomoda: quem é leitor de livros neste país? Compradores é possível identificá-los sem maiores dificuldades. Uns, são ávidos por se demonstrarem cultos. Não apenas na aparência. Por isso adquirem livros que jamais irão ler, assistem a espetáculos teatrais e de dança sem entenderem bolhufas. São os mesmos que lotam os cines-clube para assistir ao Godard e saem de uma sessão de Lars Von Trier com aquela cara espantada de Óh!!! ... Vamos tomar um vinho. Mas isso não os impede de comentar e dar entrevistas para esses programinhas de televisão cuja pauta principal se ocupa da propalada Cultura Inútil tão bem vendida pelos gênios da publicidade num país de analfabetos funcionais e presidentes iletrados.

Não interessa se Paulo Coelho escreve bem ou não. Interessa é se as pessoas realmente lêem os seus livros.

Para alguns pseudoleitores ter um Paulo Coelho na estante da sala de estar ou na mesa de centro da sala de visitas, significa qualquer coisa como ostentar um Juan Gris pendurado na parede... Do banheiro.

Comprar livros é uma coisa. Lê-los, é outra e bem diferente. Não é possível, jamais será auferir quantas pessoas, quais, por que, quando e como lêem, tendo como parâmetro a lista dos mais vendidos publicadas com orgulho pelos jornalões aos finais de semana.

Esse é um dos motivos porque a Literatura publicada em papel impresso no Brasil é esse saco de gato, onde cabem todos e não sobrevive nenhum. Exceto Paulo Coelho.

Os editores brasileiros parecem um bando de comerciantes falidos tentando vender um cachorro sarnento num mercado de pulgas. Não acreditam naquilo que publicam e por isso mesmo não sabem o que publicam. Daí suspeitam que o cachorro sarnento do vizinho talvez seja menos feio e menos mal cheiroso, quando muito, bonitinho. Finalmente convencidos pela cigana, o pastor ou santo Expedito, despendem dos poucos recursos e parcas reservas para trazer o cachorro do vizinho para o seu espaço e ali vendê-lo. E acreditam ter feito grande negócio.

Curar o seu cachorro, torná-lo bonito e forte e fazê-lo cruzar com uma cadela de respeito que procrie, dá trabalho. Muito.

Como se vê este é um país onde editores de livros de ficção não lêem originais. Contrata quem os faça. É mais cômodo. Não lhes importa descobrir talentos. Importa é vender livros. E para isso, não é preciso ser bom escritor.

Se os escritores postos à margem do sistema cujo rei se chama Paulo Coelho, fossem menos tímidos e tivessem menos ilusões e menos pudor publicariam os seus próprios livros em papel de pão, xerocado, que fosse. Com capa e ilustrações de artistas postos também à marginalidade pelo sistema. E os vendiam a R$1,99, nas bancas de jornais, nas portas de escola e de fábricas. Jamais ficariam sem o dinheiro pro conhaque, o marmitex e o cigarro.

Mas preferem se sujeitar à corrida suicida de tentar convencer a editores que não lêem originais a publicar os seus. Esperam por oportunidades e incentivos de governos nem um pouco interessados em governar um povo culto, esclarecido, instruído e capaz de reinventar a roda. E o tempo passa... E nada acontece, E não vivemos em Paris, não somos amigos de Gertrude Stein, e nem estamos numa guerra mundial pra nos consolarmos um pouco com a desgraça e tristeza alheia que, por acaso, também é a nossa.

Nada fazemos. E não somos nada. Sequer escritores, porque não temos nossos livros publicados. Não é, intelectualidade? Alguém me diga que não.

Um comentário:

  1. Olá Jota, muito bom e verdadeiro seu texto, você além de ser muito bom como escritor, não tem medo de escrever o que pensa e acredita.Parabéns.Arnoldo Pimentel

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