sábado, 8 de maio de 2010

PERFEIÇÃO. OU QUASE ISSO.

Este texto foi publicado no Jornal Cidade Livre, edição No.20, disponível em: http://www.redecidadelivre.com/net/jornal.html

“...O que será de caras como eu, que apreciam a boa música, o verdadeiro sentimento contido nelas, cresci sonhando em fazer música, cresci estudando todas as complexidades, e quando, estou preparado, percebo que não existe mais lugar pra mim, somente pra aqueles que se vendem a uma mediocridade, a uma superficialidade material, sou um fracassado por pensar diferente da grande massa” – este é o desabafo de um sujeito que assina como Spantoflocus. Está publicado no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=sNQuN6xgBNo ), onde ele faz um comentário sobre um vídeo em que Raul Seixas na companhia de Marcelo Nova é entrevistado por Jô Soares, em 1989. É a última entrevista concedida por Raul à tevê brasileira.

Por falar em rock nacional, muita gente se pergunta porque demora tanto a surgir um novo movimento capaz de conquistar a simpatia dos adeptos e o merecido espaço na mídia, como ocorre, por exemplo com o sertanejo, cujo reinado parece não ter fim e em um passado não muito distante ocorreu com o pagode.

Uma série de fatores foram determinantes para que o rock nacional perdesse o seu espaço. O mais substancial é que não houve renovação à altura das melhores bandas dos anos 1980. Nem no que diz respeito ao som e muito menos à atitude. O rock, por sua essência rebelde e determinada a transgredir necessita de uma causa. Nos anos 1980 a causa era a redemocratização do país, a conquista da liberdade, esforço ao qual se dedicavam todos os setores realmente produtivos da sociedade brasaileira. Havia a esperança de que um presidente eleito pelo povo resolveria tudo. O tempo mostrou uma outra dura realidade. Escancarou-se a prática mais comum neste país, antes devidamente escondida debaixo do tapete da hipocrisia das elites: a corrupção. O rock dava voz à insatisfação reinante com palavras de ordem contidas nas letras das músicas como: Que país é este? Procuramos independência, tanta riqueza por aí, onde é que está a sua fração, nos quatro cantos da terra, a morte, a discórdia, a ganância e a guerra. Mas, nada define melhor a indignação que corroía o sangue dos roqueiros daquele tempo como: Vamos celebrar a estupidez humana (...) o meu país com sua corja de assassinos, covardes, estrupadores e ladrões.

Pois bem. Havia o que dizer, porque dizer e para quem dizer. Hoje, não há. E o rock ainda não descobriu qual o seu novo horizonte. Se é que existe. Parece até haver uma maldição sobre esse gênero musical que quando tudo vai bem nada soa bem para o rock.

Assim, proliferam as duplas sertanejas e os grupos de pagode. Nada contra. Eles tem seus motivos para obter tanta penetração junto à mídia e aceitação junto à sociedade. Eles se vestem bem. Falam o que todos entendem. São politicamente corretos até o ponto de serem extremamente chatos.

Ah, e não destroem camarins, palcos, não cancelam shows em cima da hora. Respondem com simpatia e sorriso às perguntas de sempre dos repórteres. E vendem cd’s pra burro. Porque afinal, há quem celebre o horror de tudo isso. E a estupidez de quem escreveu este texto.

Mas, chega de maldade. O amor tem sempre a porta aberta. E eu poderia enumerar dezenas de outras razões. Mas colocarei apenas mais uma: São Paulo, Brasília, Porto Alegre e Rio de Janeiro não existe a cada esquina. Cidades de interiô, sim. Deu pra entender, né? Ou não? Se não deu, opa, já começamos bem. Quem sabe mais alguns desentendimentos e montamos uma banda de rock. Vamos celebrar!

Leia comentários sobre este texto em:
PERFEIÇÃO. OU QUASE ISSO...
Qui, 06 de Maio de 2010
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5 comentários:

  1. Caro, J. Costa

    muito inteligente e cativante teu blog, caí por acaso aqui e mantenho contato.

    te seguirei, abs

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  2. Grande cara rioclarense, você falou tudo. Por conta de tudo isso eu ainda ouço coisas antigas. Imagino que nos próximos dez anos não surgirá nada diferente no rock. Você se lembra muito bem que um poeta do rock já falecido dizia em altos brados: "Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder..." é bem isso aí!

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  3. Holá, eu sou o spantoflocus, se entrar em contato comigo no youtube te responderei e confirmarei minha identidade, quero dizer a vocês que não sou mais a mesma pessoa que escreveu este comentário no youtube, acredito no meu trabalho, minhas letras falam de problemas sociais, religiosos, políticos, e espero sim chegar ao topo da fama, não pelo dinheiro, más sim para dar o exemplo a esta minha geração desnorteada. Daqui a mais ou menos 8 ou 9 anos, se perceberem que existe algo parecido com rock na mídia, saibam que eu estou alí.

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  4. Se procura um motivo que dê voz ao rock te darei alguns:
    - A nossa política é tão podre que as axilas de cristo redentor do Rio de Janeiro fedem à corrupção e o intrelaçamento de bandidos e policiais, do tráfico e dos políticos.
    - Existe a necessidade de mostrar à uma geração que a vida não é só a aparência, que músicas que falam de amor são bonitas sim, más que o verdadeiro objetivo é formar opiniões, músicas que falam apenas de desenlaçes amoroso nada mais são do que a afirmação da superficialidade humana.
    Me sinto honrado de ser citado no jornal de uma pessoa tão culta e espirituosa

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  5. Se Ruggeri Rubens(vulgo Renato Russo) estivesse vivo, certamente compartilharia de nossa insatisfação.

    Trecho de A Dança de Renato Russo.
    "não sei o que é direito, só vejo preconceito, e a sua roupa nova, é só uma roupa nova". Por fim, posso dizer que somos irmãos, ligados quase que geneticamente, por nossa ideologia. Abraços, de alguém, que se identifica como spantoflocus.Ou Caio, como preferir.

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