sexta-feira, 28 de maio de 2010

RETICÊNCIAS, ETC. E TAL...

O fato chama a atenção por sua peculiaridade. No início do século passado, na distante e bucólica Redenção dos Prazeres, o cronista Marsupião Ursulino de Freitas Dantas, mais conhecidos nas hostes literárias locais como “O Demolidor”, despediu-se de seus mui aprazados leitores do matutino “Notícias Prazerosas” de maneira inusitada, que ora reproduzimos. “Ficcionistas costumam criar personagens mais bem acabados do que o Sujeito Lá em Cima. São criaturas com começo, meio e fim. Algumas, sem nome; outras, sem rosto; todas, verdadeiras. Até a página 2, é claro, por que senão, onde estaria a graça?



No Brasil, a crônica é o espaço que resta nos jornais aos ficcionistas de verdade. E, portanto, loucos. Presos a uma camisa de força, cujo tamanho, geralmente, são 3500 caracteres com espaço, e, mais algunzinhos, com muito boa-vontade do editor. É preciso ser amigo do homem para ser publicado. E quem duvida disso, corre o risco de passar suas noites com a barriga encostada no balcão de um bar, se acreditando o Bruxo do Cosme Velho, enquanto coleciona doses e mais doses de conhaques e vermutes. E dívidas. As únicas possíveis de se renegociar com juros abaixo dos 4,5%.com direito ao calote.


São 23 e 30 da noite e enquanto escrevo essa crônica, ainda reluto, em passar para o papel o parágrafo derradeiro que já escrito em minha mente faz alguns dias.


Há uma terrível dificuldade jamais assumida da parte deste escritor em intitular os seus textos. Geralmente não sai coisa boa. Mas o editor ganha muito bem pra isso entre outras coisas, além daquele maldito telegrama em que alerta sobre o prazo preste a se esgotar para a entrega do texto.


Aprendi que bons textos devem ter períodos de 4 a 5 linhas, cada. Nem sempre consigo seguir a regra. Na verdade, quase nunca.


Sou o tipo do sujeito que pego fácil as coisas. Veja bem, refiro-me à escrita. Nunca estudei pra isso. Saí escrevendo da barriga da minha mãe. Fui alfabetizado antes mesmo de botar a bunda no banco de uma escola. E pasmem os senhores e as senhoras, eclesiásticos e jurisconsultos, donzelas e mancebos, padeiros e balconistas, barbeiros e costureiras, guardas ociosos e médicos desocupados, enfim, todos que me dão o prazer redentor e inexeqüível de suas leituras – e pra dizer que não sou machista, na verdade sou – mas odeio livros. É um ódio descoberto e cultuado desde os 9 anos. Sabe-se lá o motivo. Na verdade eu sei. Eles, os livros jamais me quiseram. Engraçado que perder o amor da Srta. J. aos 19 anos foi mais fácil de assimilar. Mulheres são como vento, vai e vem. E nós somos como aves sempre com a cara para o vento. E geralmente, sempre se quebra a cara. Haja esparadrapo!


Esta crônica não é das melhores. Não deveria mesmo ser. É preciso que haja um motivo convincente pra não seguir adiante. E motivo melhor que falta de capacidade física não existe. Vamos imaginar que seja. Afinal, é preciso que haja um motivo. Alguma outra sugestão?


Na imprensa há um termo que se usa quando o assunto foi posto de lado para dar prioridade a outro. Eis o termo: a pauta caiu.


Aqui, não se trata disso. Trata-se apenas de colocar o ponto final nessa conversa. É o que se faz agora. Antes que a cabeça exploda. As nossas. E não seria bom, sabe, leitor, haveria muita sujeira por toda parte.


Passarinhos, a cuja espécie pertencemos, param pra beber água. E voltam a voar porque não conseguem viver sem a brisa no rosto chamada: liberdade".

Dias depois, o incauto cronista foi encontrado com as calças arriadas sentado no trono do seu lar: um quartinho na pensão da Dona Cremilda, situada nos arrabaldes do Buraco Quente, digo Redenção dos Prazeres. Com os olhos arregalados. E o corpo, frio.

Um comentário:

  1. Triste fim dum cronista, que pelo texto que tive oportunidade de ler, deve ter sido um grande cronista... Esta foi a crónica de despedida? Gostava de conhecer melhor esta personagem que deve ter feitohistória no mundo das letras.
    Um abraço

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