sexta-feira, 21 de maio de 2010

SAINDO DE CENA

"Todos vocês são poetas, só eu estou do lado da morte" - Jacques Rigaut (1899-1929).

Eu costumava dormir no quarto ao lado. Não era exatamente um quarto, era uma sala. Havia três sofás, todos bem simples e já bastante usados, com marcas de pés e mãos engorduradas, alguns rasgos e muitos e muitos ácaros, que, se não podiam ser vistos, dificultavam bastante a respiração, à noite, principalmente na época do frio. Você deve estar se perguntando qual a razão para deixar a cama desocupada para deitar-se num sofá nessas condições deploráveis e, ainda por cima, bastante desconfortável. Eu não sei. Até já me surpreendi pensando sobre isso, mas ocorre que não encontrei resposta.

Pareço o menino que procura por respostas fuçando caixas e mais caixas de papelão da antiga biblioteca de seu pai. Certamente nada encontrará senão sujeira e outras dúvidas sobre as quais debruçará até que se convença finalmente de que na vida tudo passa, e todos se sucedem, e que exatamente por essa razão nada importa. Porque nada é para sempre.

Às vezes eu estou na primeira tela do site em que escrevo. Texto e fotografia. Perco-me entre outros 7 mil aspirantes a alguma coisa. Sou gota no oceano. Há momentos em que me transformo em onda gigante invado terras alheias e faço estrago em tudo onde possa alcançar. Amado e odiado. Aceito com muito esforço por alguns. Jamais compreendido por todos. E somos todos Autores. De quê, não sei.

Talvez termine logo. Talvez termine logo, Boris. Quem sabe? Será bom. Talvez não atinjamos a 100 páginas. Mas talvez passe um pouco. Ou talvez faltem algumas linhas. Alguns caracteres. Com espaço. Ou sem?

Você realmente crê que se precipta indefinidamente no espaço. É como se estivesse deitado num colchão de nuvens. E para qualquer direção que olhe a paisagem é a mesma. E tudo acontece ao embalo e ao sabor da música que se repete em sua mente indefinidamente como a queda que feito redundância, lugar-comum, parece não ter fim. Então o ódio que você sente é como o sangue quente que sobe por suas veias entupidas até a sua cabeça, esperando encontrar qualquer outra menos resistente para explodi-la porque ódio é alguma coisa que, feito bílis precisa ser posto pra fora, ainda que seja como insignificante gota de orvalho da noite maldita, fria, cheia de luzes e vapores que parece não ter fim. Com suas ruas que parece não ter fim. Ruas molhadas pelas lágrimas da noite que rejeita a solidão.

Os gatos estão no telhado.

Ah, nos meus melhores dias eu já teria arrebentado tudo isso aqui. Teria preservado como sempre as folhas e os lápis e quem sabe a máquina de escrever, dependendo, é claro, o olhar com o qual ela miraria o meu espírito saindo de meu corpo para que outro entrasse e causasse a destruição. Eu já teria arrebentado tudo. Todo o quarto, o estúdio, a biblioteca, o escritório, onde quer que eu encontre um vestígio dessa insanidade chamada escrita. Sim. Todo o apartamento eu teria arrebentado já. Fosse meu.

Sometimes, Mr. Boy. Smalltown. Pague o preço por ser diferente. Enquanto os bons enchem suas burras, você esconde a sua dor debaixo do travesseiro onde se esconde todas as noites como esta. Não seja tolo mais ainda. Pegue uma graninha e embarque no trem. Suma. Desapareça dos olhos dessas pessoas que não lhe compreendem porque não aprenderam a suportá-lo.

Trecho extraído do romance "Bem-Vindo ao Clube" - A última jornada, de autoria de J. Costa Jr.. É proibida a reprodução. Todos os direitos reservados ao autor.

Foto ilustrativa: img.olhares.com/data/big/40/404311.jpg

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