quinta-feira, 27 de maio de 2010

UM COPO DE ILUSÕES

Pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) entre estudantes da 9ª. Série do Ensino Fundamental, com média de idade entre 13 e 15 anos revelou que 71% já experimentaram bebida alcoólica, sendo que 22% afirmaram que já beberam até se embriagar. O resultado da pesquisa é alarmante e gera preocupação.

Há quem considere ainda que o ato de beber seja sinônimo de status. Grande tolice. Como toda droga legalizada a bebida alcoólica é geralmente a porta mais ao alcance daqueles que, desesperados, não conseguem superar ou conviver com determinado problema. Porta que não leva a lugar nenhum.

Confesso bastante envergonhado que meu primeiro gole foi aos 14 anos, na festa de formatura da 8ª. Série. Foram os primeiros goles. E me lembro que ao tentar me levantar da cadeira, faltou chão sob os meus pés.

Protagonizar fatos como esse são idiotices que cometemos nessa fase da vida, quando geralmente reivindicamos todos os direitos possíveis e imagináveis e repudiamos todos os deveres.

F. Scott Fitzgerald tem uma frase lapidar para definir a situação: “No início você toma uma bebida, depois a bebida toma uma bebida, depois a bebida toma-o a si”.

Nasci, fui criado, moro e trabalho em uma cidade que, grosso modo, tem um bar em cada esquina e parece se orgulhar disso. Embora não admita.

Como se explica que neste país beber e dirigir sejam proibidos, mas vender bebida em postos de combustíveis não?

A seleção nacional de futebol, o produto brasileiro mais conhecido, admirado e respeitado mundo a fora, se orgulha de ter como seu patrocinador uma marca de cerveja e serve ao ridículo de uma campanha publicitária que tenta transformar atletas em guerreiros de uma causa de somenos importância.

Retrato da nossa cultura? Da pífia educação pública? Do desinteresse de um povo que não lê e não se instrui e não se interessa em adquirir conhecimento? Sim.

Então, é por isso que escrevo eis a pergunta inevitável. Não, eis a resposta. Já menti algumas vezes, ao afirmar que minhas melhores páginas foram escritas no auge do meu desempenho etílico. Menti. Afinal, sou escritor. Jamais. Jamais fui capaz de escrever uma linha depois de uns copos. Ou sequer depois de um.

Cheguei a deixar um salário no caixa de um bar numa noite de sábado quando tinha 20 anos e qualquer coisa. Faz tempo.

Conforme a pesquisa aqui mencionada estima-se que indivíduos que iniciam o consumo de álcool antes dos 16 anos de idade possuem risco 1,3 a 1,6 vezes maior de desenvolver dependência alcoólica. Portanto, não comece errado a vida. Não beba. Porque “pode se enganar a vida por muito tempo, mas ela acaba sempre por fazer de nós aquilo para o que fomos feitos”. Essa é do André. Era francês. Foi ministro da Cultura daquele país. E ao que consta não tomou o seu primeiro gole aos 14 anos, embora também fosse escritor. Porque, ao que parece estava mais interessado nos valores da Condição Humana.

Parece haver uma sina que empurra os escritores para o gargalo de uma garrafa ou às bordas de um copo. A lista é generosa senão deprimente: Raymond Chandler, Charles Bukowski, Jack Kerouac, Jack London, Edgar Allan Poe, William Faulkner, Ernest Hemingway, além do aqui já citado e campeoníssimo na modalidade levantamento de copo: Francis Scott Fitzgerald. Citei os americanos. Brasileiros? O caso mais conhecido, o genial Lima Barreto. Ao qual a Literatura Brasileira deve todos os minutos de silêncio.

Nessa trágica história, anime-se, caro leitor, você leva vantagem sobre todos esses e sobre mim. Você não escreve. Eles escreveram. E eu tento. Geralmente consigo. E bem. Quando estou lúcido. Como agora.

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